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2):
Reportagem
sobre os militares brasileiros preparando a defesa da Amazonia
----- Original Message -----
From: Claudete
To:< /font> Paulo Cunha
Sent: Thursday, June 13, 2002 10:10 PM
Subject: Militares brasileiros planeiam defesa da Amazónia
Militares planeiam defesa da Amazónia brasileira
Diante da nova agressividade do imperialismo, especialmente
após a eleição de Bush, as Forças Armadas do Brasil
estão a adoptar procedimentos preventivos para o caso de haver uma
intervenção militar estrangeira na Amazónia. A
preocupação com a defesa da Amazónia permeia toda a
instituição militar brasileira, inclusive entre oficiais de
formação conservadora. A possibilidade de "uma potência
tecnologicamente superior" (sic) tentar a ocupação militar da
Amazónia é levada muito a sério.
Hoje há consenso de que a defesa da região e do
país cabe não só aos militares como a todo o povo
brasileiro. Assim, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica procuram
fortalecer a presença militar na fronteira da Amazónia brasileira
(Projecto Calha Norte) e, ao mesmo tempo, começam a pôr em
prática uma estratégia de resistência que envolve a
participação da sociedade civil.
Com esse objectivo foram realizados recentemente dois
simpósios sobre "Estratégia de Resistência e
Mobilização da Vontade Nacional em Defesa da Amazônia"
, em Boa Vista e em Manaus. O terceiro simpósio
será dentro em breve, em Belém. Participam desses
simpósios representantes da sociedade civil e oficiais generais das
três armas, inclusive o Comandante Militar da Amazónia, Gen.
Valdésio Guilherme de Figueiredo.
A entrevista abaixo foi concedida pelo Gen. Ítalo Fortes
Avena, Comandante da 8ª Região Militar, ao jornal "O
Liberal" . As suas declarações
são extremamente interessantes. Elas mostram o nível de
consciência já adquirido pelos militares brasileiros quanto
às ameaças latentes que pesam sobre a região
amazónica. As perguntas foram formuladas pelo repórter Frank
Siqueira, daquele jornal (manteve-se a ortografia brasileira).
resistir.info
Qual é a visão que o comando militar do
país tem hoje sobre as ações em defesa da Amazônia e
da soberania nacional sobre a região, em caso de agressão
externa?
O principal enfoque que nós vamos dar à
questão da defesa da Amazônia, inclusive no simpósio que vamos
realizar em Belém, é o de que a defesa não se restringe
apenas à atuação das Forças Armadas. A
atuação das Forças Armadas é fundamental,
obviamente, mas é preciso haver também o que nós chamamos
de uma vontade nacional, principalmente por parte dos amazônidas, na
defesa deste riquíssimo território. Então, esta é a
nossa visão, a visão de um trabalho conjunto em que toda a
sociedade brasileira deverá estar irmanada na consecução
dos seus objetivos.
A Amazônia pode ser considerada uma região
ímpar no mundo, já que abriga extensas áreas de floresta,
enormes riquezas minerais, a mais rica biodiversidade do planeta e as maiores
reservas de água doce, um bem estratégico de valor
econômico que vai se tornando dramaticamente escasso. Dentre todos esses
bens, bens é possível distinguir quais aqueles que mais despertam
a cobiça internacional?
Você citou praticamente tudo que pode despertar e realmente
desperta a cobiça internacional sobre a Amazônia. Disso não
há dúvida alguma, e nós não podemos tapar os ouvidos
ou simplesmente fechar os olhos em relação ao que ocorre no
mundo. Mas também é preciso salientar que, por enquanto,
não existe nenhuma ameaça concreta, não existe uma
ameaça de governo. O que existe são apenas algumas
manifestações, boatos que surgem na imprensa e que vêm
sendo insistentemente difundidos pela internet. A rigor, porém, repito
que não existe nenhuma ameaça concreta.
Considerando, entretanto, a possibilidade de uma agressão,
nós temos que estar preparados para a defesa e por isso estamos trabalhando
nessa estratégia. Trata-se, como eu já disse, de uma
estratégia que envolve não só os militares, mas toda a
sociedade brasileira, principalmente os que estão aqui na
Amazônia, e nós estamos difundindo isso para que todos tomem
conhecimento, passem a se preocupar e que assim possa haver o fortalecimento da
vontade nacional em relação à defesa do nosso
território.
Esse sentimento em defesa da Amazônia deve ter um cunho
regionalista ou o senhor acredita que ele possa resultar numa tomada ampla de
consciência de toda a sociedade brasileira, em defesa não apenas
de uma região específica, mas da própria
nação e de sua soberania?
Sem dúvida alguma este será um sentimento de todos
os brasileiros. A Amazônia é um patrimônio do Brasil, um
patrimônio da nação brasileira. Então essa
preocupação não pode se restringir apenas a quem mora
aqui. Tem que ser de todos nós.
Na hipótese de uma agressão externa os militares
obviamente estarão à frente das ações
bélicas de defesa. Sendo assim, de que forma poderá ser
útil o envolvimento nessas ações também por parte
da sociedade civil? A presença dos civis será importante?
É muito importante esta pergunta porque a estratégia
nossa, digamos assim, frente a uma potência tecnologicamente superior,
ela não pode ser de enfrentamento direto. Ela tem que ser uma
estratégia como foi feita lá no Vietnam, recentemente, ou como
aconteceu no tempo dos Guararapes, pelos próprios brasileiros,
enfrentando um inimigo potencialmente superior. Na hipótese de uma
agressão, nós estaremos num terreno nosso, e nós somos
donos desse terreno, nós conhecemos perfeitamente esse terreno e somos
imbatíveis nesse terreno. Mas, de qualquer maneira, não
poderá haver um confronto direto.
Será um confronto em que nós estaremos lutando de
maneira invisível, atuando em todos os pontos, fazendo com que o inimigo
fique inquieto o tempo todo. Eles não vão ter paz enquanto
estiverem aqui dentro do nosso território. E, para isso, é
fundamental o apoio da população, porque nós temos que
receber provisões, nós temos que receber esse apoio
logístico da população, e a população tem
que nos apoiar, tem que nos ajudar, tem que estar conosco.
O comando militar pretende levar também para o interior
essa mobilização da vontade nacional para a estratégia de
resistência ou esse trabalho ficará restrito às capitais?
Por enquanto nós estamos fazendo nas grandes capitais da
Amazônia. A idéia, porém, é que esse simpósio
venha a ser feito também em capitais de outros Estados de fora da
Amazônia. Entretanto, temos a convicção de que, sem nenhuma
dúvida, o nosso interior da Amazônia será alcançado
pelas idéias que surgirem. Nós estamos convidando os prefeitos,
nós estamos convidando autoridades do interior do Estado e pretendemos
também ir ao interior do Estado para difundir as nossas idéias.
Isso é para nós é fundamental.
Como fica a questão indígena na estratégia
de defesa da região?
O índio é brasileiro, o índio é um
grupo étnico que faz parte dessa miscelânea étnica que
nós temos no nosso país. Então nós consideramos o
índio como brasileiro, ele faz parte do nosso povo. Aliás,
há mesmo a tradição de uma ligação muito
estreita das Forças Armadas, principalmente do Exército, com os
índios, com o nosso índio, e nós não vemos de forma
alguma o índio como uma ameaça. Nós temos inclusive
trânsito livre em todas as reservas indígenas. Como bom
brasileiro, o índio é nosso aliado, e jamais uma ameaça.
Mas é inegável que muitas
organizações estrangeiras procuram se aproximar das comunidades
indígenas da Amazônia, chegando mesmo ao ponto de defender aqui o
que elas chamam de "nações indígenas". Isso
não preocupa os militares?
Nós temos que, dentro desse processo de fortalecimento da
vontade nacional, a primeira coisa é não admitir que se chame de
nações indígenas. Não podemos admitir isso de forma
alguma. Como eu já disse, nós temos que cada vez mais acreditar
que, por mais que eles tentem, eles jamais vão poder mudar a
cabeça do nosso índio.
E com relação às ONGs, as estrangeiras
sobretudo, que agem dentro da Amazônia: elas chegam a causar
preocupação? Os militares fazem algum tipo de acompanhamento e
vigilância sobre essas organizações?
Isso deve ser uma preocupação maior de toda a
nação brasileira, do governo brasileiro. O governo brasileiro tem
uma política para as organizações não
governamentais, então nós não podemos interferir nessa
política. Logicamente que exercemos o acompanhamento de algumas
ações - o que aliás é de conhecimento geral -, mas
até hoje nada há de grande vulto que possa nos preocupar.
As Forças Armadas dispõem na região de
recursos humanos, materiais e tecnológicos suficientes para fazer frente
a uma eventual agressão externa?
Eu falei, no início, que a nossa estratégia é
voltada exatamente para a nossa atuação num terreno nosso, num
terreno que nós conhecemos muito bem. Então, o nosso equipamento
e o armamento que temos são adequados para esse tipo de combate aqui na
Amazônia. Nós continuamos estudando e aperfeiçoando,
não só as nossas táticas da estratégia de
resistência, como também testando equipamentos, testando apoio
logístico, alimentação, os meios de transporte. Nós
estamos trabalhando nisso e consideramos que dentro do nosso terreno
ninguém o conhece melhor do que nós.
E mais: temos perfeita noção disso e a
certeza absoluta de que aqui dentro nós somos imbatíveis.
Além da cobiça de potências estrangeiras, a
Amazônia convive com outras situações de risco, como o
narcotráfico e a presença de grupos guerrilheiros ativos em
países vizinhos da nossa fronteira ocidental. Há algum plano para
fortalecer ainda mais a presença militar nas fronteiras da
Amazônia?
O Exército sempre se preocupou. Historicamente, o
Exército teve e continua tendo uma presença efetiva aqui na
Amazônia, embora devamos admitir que, ultimamente, a Amazônia tem
sido de fato a nossa prioridade maior. Nós estamos deslocando
continuamente tropas para cá, nós estamos mobiliando a fronteira,
dentro do Projeto Calha Norte, e já foram implantados inúmeros
pelotões de fronteira. Nós temos já cerca de vinte
pelotões de fronteira implantados em toda a área, e logicamente
as nossas ações fronteiriças são executadas de
acordo com a política do governo brasileiro.
Nós estamos agindo de acordo com as
determinações do presidente da República, que é o
nosso comandante maior, e de acordo com as diretrizes emanadas do
Ministério Defesa e do comando do Exército.
Que papel vai desenvolver na estratégia de defesa da
região o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam?
O Sipam, que é o Sistema de Proteção da
Amazônia, e do qual o Sivam é parte muito importante, como sistema
de vigilância, ele é fundamental, porque ele destina-se exatamente
a detectar todos esses focos que surgirem. Na parte de
informações, por exemplo, ele vai nos dar uma capacidade muito
grande de saber em tempo real tudo o que está acontecendo na
Região Amazônica. Então, para nós esse é um
projeto fundamental.
Publicado em O Liberal , jornal de
Belém do Pará, Brasil, edição 05/Mai/02.
Este texto encontra-se em http://resistir.info
21/Mai/02