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O Brasil e o FMI: meio século de idas e vindas

O Brasil participou, em 1944, da conferência de Bretton Woods que criou o FMI e o Banco Mundial, assim como viria a participar da conferência de Havana, em 1947-48, que criou o primeiro embrião da atual OMC, à época não concretizada, mas substituída “provisoriamente” (durante meio século) pelo GATT. Nosso papel em Bretton Woods limitou-se a demandar, sem sucesso, mecanismos estabilizadores dos preços de produtos primários, consoante nossa então vocação primário-exportadora (de certa forma ainda não de todo superada), mas em Havana tivemos um papel mais ativo na definição de políticas indutoras de desenvolvimento, dimensão que em Bretton Woods praticamente não existiu.

No decurso do último meio século, nossas relações com o Banco Mundial, o agente por excelência de projetos de desenvolvimento, foram bem mais tranqüilas e lineares do que nossa interface algo errática no âmbito do FMI, o guardião ortodoxo das políticas de responsabilidade monetária e, até 1973, de estabilidade cambial. Em capítulo que escrevi para o livro recém publicado O Brasil e os acordos econômicos internacionais (organização de Roberto L. Silva e Valério O. Mazzuoli; Ed. Revista dos Tribunais), retracei a história desse relacionamento entre o Brasil e o FMI, desde as primeiras operações de crédito, nos anos 50, até o último acordo, concluído em setembro do ano passado, com esse objeto preferido da demonização ideológica de setores hoje convertidos a um novo realismo em matéria de políticas públicas.

Depois de descrever a evolução do sistema monetário e financeiro internacional desde a conferência de Bretton Woods e sua crise a partir dos anos 70, de analisar em seguida as condicionalidades econômicas associadas ao chamado modelo de “Bretton Woods”, bem como as dificuldades em torno da definição de uma “nova arquitetura financeira internacional”, dedico o essencial de minha contribuição ao exame das relações do Brasil com essa severa “senhora da rua 19”, em Washington, onde são supostamente traçadas as regras de bom comportamento macroeconômico. Algumas constatações são interessantes.

Registrei, por exemplo, o comportamento algo esquizofrênico do FMI em sua primeira fase (até meados dos anos 50), caracterizado por nítidas inconsistências sistêmicas no seguimento das políticas cambiais dos países membros, quando ele era muito mais leniente em relação às desvalorizações notoriamente ilegais efetuadas por sócios poderosos como Grã-Bretanha e França, e bem mais exigente no caso dos países latino-americanos, então desejosos de criar mecanismos de clearing (pagamentos compensados) no âmbito dos acordos preferenciais negociados nos anos 50 e 60. Nossos principais problemas, então como agora, eram os déficits de transações correntes e as dificuldades eventuais em atender adequadamente às obrigações financeiras externas, o que podia levar a renegociações no quadro do incipiente Clube de Paris ou demanda de créditos temporários ao FMI.

Foi Juscelino Kubitschek quem deu inicio à demonização histórica do FMI, ao preferir continuar o caminho da irresponsabilidade fiscal na construção de Brasília, em lugar de se submeter ao “regime de emagrecimento” orçamentário então recomendado. As relações continuarão precárias até 1964, quando o regime militar inicia uma fase de boas relações com o FMI, curiosamente sem qualquer dependência financeira. Com efeito, os vários acordos stand-by concluídos na primeira fase do regime militar tiveram um grau mínimo ou inexistente de saques efetuados e eram contratados mais como aval às políticas ortodoxas seguidas do que por estrita necessidade de recursos.

O Brasil redemocratizado de 1985, ao contrário, entreterá más relações com o FMI, no quadro de uma flagrante dependência de recursos externos (depois das duas crises do petróleo dos anos 70 e a séria crise da dívida externa iniciada em 1982). Ainda no início dos anos 80, as relações de declinante regime militar com o FMI eram suficientemente “cordatas” para justificar a assinatura de uma sucessão de cartas de compromisso com o único objetivo de conseguir extensão de créditos da própria instituição ou novos pacotes de ajuda dos bancos comerciais. Os encontros e desencontros continuarão nos anos 90, mas o Brasil praticamente não buscou o aval do FMI para renegociar seus créditos no âmbito do Clube de Paris ou estender suas obrigações juntos aos bancos privados.

A fragilidade externa continuou, entretanto, o que revelou-se de modo dramático na sucessão de crises financeiras que se abateram sobre os países emergentes a partir da nova débâcle do México em 1994-95. O Brasil se sustentou enquanto pôde nos três anos seguintes, mas a hora da verdade da dependência financeira soou novamente em outubro-dezembro de 1998, no seguimento da moratória da Rússia em agosto: o Brasil volta ao FMI, depois de muito relutar durante quase dez anos. O pacote negociado em novembro desse ano teve de ser renegociado em fevereiro seguinte, depois da crise da desvalorização do real, mas o desempenho do Brasil revelou-se extraordinariamente bem sucedido, a ponto de devolvermos em abril de 2000 a maior parte do dinheiro sacado preventivamente.

Os dois outros pacotes negociados pelo Ministro Pedro Malan e o presidente do Banco Central Armínio Fraga, em 2001 e 2002, também tiveram essa característica de socorro preventivo, o que nos livrou das piores agruras enfrentadas pelos países asiáticos desde 1997 ou recentemente pela Argentina. O Brasil de certa forma tornou-se um “cliente” do FMI, mas os memorandos de entendimento negociados desde 1998 significam apenas o necessário “dever de casa” que já deveríamos ter feito desde o início do Plano Real, tanto em termos de ajuste fiscal e de responsabilidade orçamentária, como no plano cambial.

Conclui meu histórico do relacionamento com o FMI (o capítulo também comporta um quadro dos acordos formais estabelecidos com o FMI de 1958 a 2002), com algumas reflexões sobre o Brasil, a globalização financeira e o papel do sistema de Bretton Woods. O registro histórico das relações entre o Brasil e seus credores internacionais indica experiências variadas de inadimplências, de renegociações financeiras e de moratórias eventuais, desde o Império aos dias atuais, sem um padrão uniforme de comportamento.

Em geral, o Brasil manteve seus compromissos externos, sem rupturas dramáticas das obrigações assumidas com os credores externos. Nenhuma das crises financeiras alterou dramaticamente a qualidade e a direção de sua política econômica externa, mas todas elas influenciaram de algum modo os elementos de política econômica interna, num ou noutro sentido, desde o funding loan de Campos Sales em 1898, passando pela “denúncia” do acordo com o FMI por Juscelino Kubitschek em 1958, até as mais recentes crises e acordos com o FMI. A História não tem o dom de se repetir, mas ela sempre coloca desafios novos em circunstâncias talvez não muito diferentes daquelas enfrentadas pelos nossos antepassados.

* Doutor em ciências sociais pela Universidade de Bruxelas e mestre em planejamento econômico. É diplomata de carreira desde 1977. Em RelNet mantem uma coluna denominada 'Cousas Diplomáticas', na qual publica artigos sobre história da política exterior do Brasil e sobre relações internacionais em geral. Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.com; http://www.pralmeida.org/) é autor de Formação da Diplomacia Econômica no Brasil (Senac-SP, 2001) e colaborador no livro O Brasil e os acordos econômicos internacionais (Ed. Revista dos Tribunais, 2003)As opiniões expressas no presente texto são exclusivamente as de seu autor.

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Sobre a coluna

Correio internacional é uma coluna semanal trazendo artigos versando sobre temas da atualidade internacional e sobre a política externa brasiliera. As opiniões desta coluna NÃO EXPRESSAM aquelas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. São de inteira responsabilidade do autor.

Os articulistas

Antônio Jorge Ramalho da Rocha é mestre em Ciência Política pelo IUPERJ, doutorando em Sociologia da Universidade de São Paulo e editor-geral adjunto de RelNet.

Alcides Costa Vaz é mestre em Relações Internacionais pela universidade de Brasília e doutorando em Sociologia da Universidade de São Paulo

Carlos Roberto Pio da Costa Flho é mestre e doutorando em Ciência Política pelo IUPERJ,

Virgílio Caixeta Arraes é mestre em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. É editor-adjunto de ReNet.

João Fábio Bertonha, é doutor em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pesquisador associado do Centro de Estudos de Migrações Internacionais (CEMI) da mesma Universidade e Professor de História Contemporânea na Universidade Estadual de Maringá/PR. Escreve mensalmente sobre temas da agenda internacional contemporânea.

Wolfgang Döpcke, é doutor em História pela Universidade de Oxford e professor adjunto do Departamento de História da Universidade de Brasília. Escreve sobre as relações internacionais da África.

Carlos Eduardo Vidigal, é mestre em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Escreve mensalmente sobre a realidade política, econômica e sobre a política exterior da Argentina