Sinais Trocados na Alca
Teria a esquerda deixado de ser progressista
e passado a trabalhar contra os interesses daqueles com quem supostamente se
identifica?
Paulo Roberto de Almeida
(pralmeida@mac.com;
www.pralmeida.org)
1. O que
de verdade fundamenta a campanha contra a Alca
Começo por transcrever a definição
oficial da Alca, tal como constante do website do movimento que luta contra
esse projeto de acordo comercial hemisférico: "ALCA
é a sigla da Área de Livre Comércio das Américas,
projetada por setores empresariais e governamentais dos Estados Unidos para
aumentar e reforçar o domínio sobre os povos e países
do hemisfério e, ao mesmo tempo, consolidar a hegemonia a nível
mundial" (ver o link: http://movimentos.org/noalca/activ-alca-pt#O-A).
Devo dizer de imediato que concordo
inteiramente com a primeira parte da frase, até "Estados Unidos", pois se trata,
efetivamente, de uma descrição fiel de como começou esse processo negociador,
estimulado pelos setores governamentais e empresariais do grande Império do
Norte para consolidar, até 2005, uma série de compromissos de abertura nos
campos do comércio e dos investimentos, vinculando entre si os países das
Américas, desde o Alasca até a Terra do Fogo. Ao ler, porém, a segunda parte
dessa frase, que se refere ao aumento do domínio sobre os povos e à
consolidação da hegemonia mundial, não posso evitar um certo bocejo de
aborrecimento, em face do tremendo "déjà vu" que exala desse tipo de afirmação.
Nos "tempos da brilhantina", isto é,
quando minha geração se formava nos bancos escolares com a sensação de que a
América Latina, para se desenvolver, precisava se libertar da "dominação
imperialista", tal tipo de argumento tinha uma certa credibilidade, pois que
projetos dirigistas e autonomistas de crescimento econômico estavam
efetivamente em curso em diferentes sociedades do pós-guerra, inclusive em
economias centrais do capitalismo avançado, como na Grã-Bretanha, na França e
em alguns países escandinavos. Havia um "caminho alternativo", aparentemente
operacional e factível, e mesmo economistas e politólogos respeitáveis como
John Kenneth Galbraith ou Raymond Aron acreditavam realmente numa certa
convergência das "sociedades industriais" em direção de uma economia de mercado
monitorada e "ajudada" pelo Estado, como forma de dirimir os mais perniciosos
defeitos do capitalismo selvagem. Este era supostamente encarnado pelos Estados
Unidos, que pareciam seguir então uma estratégia de dominação mundial, baseada
na força dos seus oligopólios, quando não na força bruta de seu aparato
militar. As análises marxistas então em voga -- tipo Paul Baran e Paul Sweezy,
copiando aqui os economistas soviéticos -- falavam do "capitalismo monopolista
de Estado", o que significava a junção dos interesses estratégicos do grande
capital privado, por definição "monopolista", com o desejo de dominação
hegemônica por parte do país militar e economicamente mais poderoso do planeta.
Como tudo era mais simples nesses
tempos: havia dois campos e os progressistas tinham, obviamente, de ficar do
lado dos oprimidos e dos explorados. Terreno privilegiado do intervencionismo
americano, a América Latina tinha o seu desenvolvimento freado não apenas pela
preservação do latifúndio e das oligarquias, mas também pela aliança destes
setores com os representantes da exploração capitalista e da dominação
imperialista, os capitalistas estrangeiros -- eventualmente ajudados pela
burguesia nacional -- e a guarda pretoriana do grande capital monopolista, os
militares, que garantiam o alinhamento dos países da região no campo
pró-imperialista. O esquema acima é um pouco simplista, mas era assim que
funcionavam as coisas no mundo da Guerra Fria.
Desde então, muita coisa mudou no
mundo: primeiro os Estados Unidos entraram em "declínio irresistível", como
proclamava uma certa indústria acadêmica em voga nos anos 80; em seguida, foi o
socialismo que deu dois suspiros e depois morreu; a partir daí, a economia
americana, empurrada pelos ventos da globalização, voltou a flexionar seus
poderosos músculos; contemporaneamente, muitos países da periferia, que tinham
até então optado pela via do capitalismo nacional, resolveram abrir-se aos
novos influxos e passaram a integrar-se plenamente à economia mundial,
inclusive a China, formalmente socialista ainda, mas de fato em transição para
uma economia de mercado.
"Mercado": eis uma noção que
incomoda muita gente, a ponto de ter sido convertida numa espécie de
superlativo conceitual que penetrou o inconsciente coletivo de gerações
inteiras de progressistas mundo afora, desde o século 19 até hoje. Na verdade,
o conceito irritava o próprio Marx, e depois o irrequieto Lênin, ambos atribuindo
todas as misérias do proletariado dos tempos vitorianos ao "funcionamento
anárquico" das forças de mercado, a ponto de o segundo personagem, colocado em
posição executiva, ter pretendido abolir inteiramente sua ação na nova economia
socialista que ele começou a criar. Marx nunca chegou a conceber alguma frase
de efeito sintetizando sua concepção do mercado -- como a famosa definição de
Proudhon, segundo a qual "toda propriedade é um roubo" -- mas ele certamente
deixou uma herança intelectual muito pesada para todos aqueles que pretenderam
administrar, desde então, um sistema econômico que lograsse escapar dos pecados
originais da "acumulação privada", funcionando, teoricamente, sem esse incômodo
social representado pela "exploração capitalista".
Todos os modelos socialistas que
tentaram abolir a ação considerada "nefasta" do mercado falharam redondamente
nesse empreendimento. Todos os projetos de reforma socialista, a partir do
pós-stalinismo, pretenderam introduzir um "pouco" de mercado no funcionamento da
economia "comunista" e poucos o conseguiram, para desespero dos reformistas.
Apenas sobrou a China, aparentemente socialista e "de mercado", mas ela não se
constitui em modelo para nenhum outro país. O fato é que temos hoje, no
pós-socialismo, o mercado reinando supremo, como nos tempos da Inglaterra
vitoriana, para contentamento de alguns e a raiva incontida de muitos. Repito:
este é um fato,
ainda que ele obviamente não seja do agrado das correntes de pensamento
"alternativo", mas elas até aqui falharam em apresentar alternativas credíveis
ao funcionamento de uma economia de mercado, como revelado, por exemplo, nos
grupos anti-globalizadores e contra a Alca.
Os textos oficiais da "Campanha continental contra a Alca", tanto os da vertente civil quando os de orientação mais espiritual -- como aqueles produzidos pelos bispos do Canadá e retomados no Brasil pela CNBB -- falam muito pouco do "mercado", mas é ele que está verdadeiramente em causa na intensa movimentação contra esse projeto de acordo comercial, que vem estendendo-se desde que o movimento anti-globalizador proclamou que "um outro mundo é possível". Agora somos apresentados ao slogan regional "uma outra América é possível", mas de fato ainda não sabemos bem de que mundo e de que América, alternativos aos realmente existentes, se está falando, uma vez que não fomos ainda apresentados aos projetos concretos de sua constituição.
Aparentemente, nessa campanha, se
trataria apenas de lutar contra as ameaças de dominação hegemônica e de perda
de soberania dos povos da América Latina, mas isso não explica tudo, sobretudo
a oposição também intensa existente contra a Alca em certos meios dos próprios
países hegemônicos, onde a soberania não parece estar em causa. De fato,
hegemonia e soberania são conceitos recorrentes nesses documentos dos grupos
anti-Alca, mas a eles não corresponde nenhum conteúdo concreto, pois não se
sabe bem que soberania está sendo ameaçada ou como será imposta a hegemonia, na
medida em que o debate não incide, salvo raramente, sobre as características
próprias do acordo comercial em discussão.
Minha hipótese é a de que o
"inconsciente coletivo" dos setores progressistas está em ação nessa campanha
contra, na verdade, as "forças do mercado" e o capitalismo irrefreável, pois do
contrário não seria possível explicar o simplismo de certas "explicações" para
a luta contra a Alca e o aparente exagero de alguns slogans redutores (como os de "sim à vida",
de luta contra o "controle do território" ou de resistência ao projeto
"neocolonial").
Deixando, portanto, de lado o
ridículo desse reducionismo simplista, que não dá lugar a qualquer tipo de
discussão objetiva, vejamos se seria possível examinar a rationale do movimento contra a Alca, para
tentar determinar duas coisas: (a) que ele corresponde, efetivamente, a um
certo sentido da história, sob a forma de uma sociedade mais humana, mais
desenvolvida e mais igualitária e conduzindo, portanto, às metas progressistas
que seus proponentes dizem defender; (b) que ele se identifica, realmente, com
os interesses dos povos da região, ou seja, que a não existência da Alca
resultará numa melhor situação de bem-estar, para todos os povos envolvidos no
projeto, do que ocorreria a partir de sua implementação, supostamente
identificada a uma nova etapa do processo de acumulação de capital, com perda
correspondente de soberania para esses países.
2.
Existe algum "progressismo" na campanha contra a Alca?
Os objetivos dos opositores da Alca são razoavelmente explícitos, mas nada claros quanto aos meios e alternativas finais que eles propõem no lugar de uma negociação que vem se desenvolvendo há quase dez anos e que pretende caminhar na dupla vertente dos processos que caracterizam a economia mundial: a globalização e a regionalização.
Os proponentes da campanha pretendem,
pura e simplesmente, "bloquear a Alca" e, mais
especificamente: "defender nossa soberania nacional", "mudar o modelo econômico
de dependência externa" e "construir uma alternativa de integração popular e
soberana entre os povos americanos". Concedendo uma legitimidade de partida a
esses objetivos, caberia então discutir cada um dos termos da equação. Deixemos
de lado a questão de saber se vai se conseguir ou não "bloquear a Alca", uma
vez que, ademais de ser ela um simples "meio" para o atingimento de outros
objetivos, supõe-se que essa ação dependa de uma certa correlação de forças que
não parece inclinar-se, na presente conjuntura, na direção pretendida por seus
proponentes. Com efeito, a decisão de se negociar uma Alca foi adotada em
reunião de 1994 à qual compareceram 34 chefes de estado democraticamente
eleitos do hemisfério, cuja legitimidade é pelo menos tão real, ou quiçá mais,
do que a dos seus opositores, cujos mandatos podem ter sido auto-atribuídos ou
resultar de escolhas não tão universais.
Vejamos, portanto, os
demais objetivos da campanha. A ameaça à soberania nacional, que os proponentes
do movimento dizem querer afastar, é mais afirmada do que provada, e de fato, o
mesmo documento de base alerta para o "perigo que significa a implantação da
ALCA, para nossa sobrevivência enquanto povos independentes". Não se vê bem que
tipo de soberania estaria exatamente em perigo, uma vez que acordos de livre
comércio envolvendo países desenvolvidos e em desenvolvimento já foram
concluídos anteriormente, dentro e fora da região, sem que tal ameaça se tenha
concretizado.
Lembre-se, para começar,
os diferentes esquemas de integração ou de liberalização comercial existentes
na própria América Latina, mobilizando países e economias de dimensões muito diversas,
alguns tão grandes quanto o Brasil, outros tão pequenos quanto o Uruguai, cuja
população somada não ultrapassa os habitantes de um bairro da cidade de São
Paulo. Cabe referência especial ao caso do Nafta, o primeiro esquema no
continente envolvendo países avançados, como os EUA e o Canadá, e um em
desenvolvimento, como o México: teria este último perdido soberania com o
acordo do Nafta? Se este foi o caso, como e em que medida tal "abandono de
soberania" prejudicou a busca de desenvolvimento ou de melhoria nos níveis de
bem-estar de sua população.
Não se deve esquecer,
tampouco, um esquema de integração a que os opositores da Alca não se cansam de
referir como modelo e padrão para implementação similar na região americana. A
renúncia de soberania nacional, no caso da União Européia, não poderia ser mais
explícita e completa. Se esquecem eles, por acaso, que o princípio básico da
união aduaneira e do mercado comum, que constituem os dois principais pilares
da UE, é, antes de mais nada e principalmente, uma zona de livre-comércio
completa e acabada, que preexiste e condiciona todos os demais esquemas de
liberalização ulteriores? Não sabem eles que os mercados internos dos países
menos desenvolvidos, como Portugal, Espanha e Grécia, foram totalmente abertos
à concorrência dos parceiros mais desenvolvidos? Desconhecem que há total
liberdade para a circulação de capitais entre os países membros da UE? Eles
tampouco parecem considerar o fato que as políticas de tipo corretivo ou
compensatório -- fundos de desenvolvimento regional direcionados a regiões menos
desenvolvidas -- se fazem em função de políticas e mecanismos comunitários que
significam, também, o abandono da soberania sobre a determinação de políticas
setoriais. Não bastasse, portanto, o abandono de qualquer competência nacional
em matéria de políticas comercial, industrial, agrícola e tecnológica, a mesma
renúncia, elevada à 3 potência, comparece na questão da moeda única, na qual
os países membros abandonam não só a idéia de um banco central próprio, como a
fixação da taxa de juros e a determinação dos principais agregados monetários,
ficando impossibilitados sequer de optar por um pouco mais de inflação em troca
de um pouco mais de emprego. Seria esse o tipo de soberania a que se referem os
opositores da Alca?
Creio que, de forma
pouco refletida, eles pensam nos fundos compensatórios que deveriam, segundo a
"teoria das relações assimétricas", fluir do mais rico país hemisférico aos
sócios mais pobres do empreendimento da Alca, num esquema pretensamente similar
ao europeu. Mas, nesse caso, os beneficiados deveriam aceitar ainda mais
renúncia de soberania, pois que tais esquemas são apenas compatíveis com etapas
mais avançadas do processo de integração, o que obviamente não está em causa na
Alca. Como fica, então, a compatibilização entre soberania e políticas
corretivas? Vale uma sem outra? Trata-se de uma contradição que deveria ser
resolvida pelos proponentes de uma "outra América".
Abandonemos, pois, a
visão algo defensiva e basicamente reativa da proposta de "defender a soberania
nacional", para analisar as receitas supostamente mais ofensivas e vagamente
prescritivas consubstanciadas nas diretivas "mudar o modelo econômico de
dependência externa" e "construir uma alternativa de integração popular e soberana
entre os povos americanos". São elas factíveis, possíveis, imagináveis, nas
condições concretas de desenvolvimento latino-americano de princípios do século
21? Vamos deixar claro, desde logo, que não se trata propriamente de políticas, mas de teorias, e que seu valor
prescritivo é próximo de zero, pois que não vêm acompanhadas das medidas
correspondentes que deveriam sustentá-las concretamente no exercício de busca
de alternativas. Um objetivo é de ordem negativa -- "mudar", isto é,
abandonar --, outro de natureza positiva -- construir" --, mas nenhum dos dois
suscita a menor explicitação prática quanto aos meios de colocar na ordem do
dia essa missão de desmantelamento. de um lado, e de construção, de outro.
O que significa, por
exemplo, "mudar o modelo econômico de dependência externa"? Salvo uma volta à
autarquia dos anos gloriosos da industrialização substitutiva, que não parece
ser o objetivo dos nossos preclaros opositores da Alca, parece querer indicar
um modelo de desenvolvimento menos baseado na dependência tecnológica, nos
influxos de capitais externos, na importação de know-how estrangeiro e, portanto,
num menor pagamento de juros, dividendos, royalties, serviços e rendas do
capital a investidores de outros países. Para que isso se dê, com o que estou
inteiramente de acordo, seria preciso que os países da América Latina fossem
capacitados tecnologicamente, tivessem um nível suficiente de poupança interna
de maneira a habilitá-los a escapar da temível dependência financeira e que
eles mesmos produzissem bens e serviços sofisticados de forma a inverter a
balança de transações correntes para níveis crescentemente superavitários, além
de, numa fase ulterior, se transformarem em exportadores líquidos de capitais.
Trata-se de programa de
"independência econômica" que não tem encontrado, porém, evidências empíricas
para sua implementação nas últimas décadas -- que digo?: em todos os séculos --
da história econômica da região. Os propositores da receita teriam um modo
relativamente mais rápido de realizar esse milagre? Ou eles consideram que,
durante as décadas de industrialização substitutiva, a América Latina viveu em
total independência do imperialismo? Se este foi o caso, então a famosa "teoria
da dependência" foi construída em torno do nada, pois que ele pretendia
justamente explicar os mecanismos pelos quais o desenvolvimento é possível
mesmo no quadro da dominação imperial e da não ruptura com o capitalismo
subordinado.
O que representa, por
outro lado, "construir uma alternativa de integração popular e soberana entre
os povos americanos"? Em primeiro lugar, nas palavras dos opositores da Alca,
recusar o "projeto neoliberal de livre comércio que a Alca representa." Muito
bem, mas além da recusa viria o que em seu lugar?; a integração popular
significaria trocar bananas por sapatos, chapéu de palha por café, atum
enlatado por aviões brasileiros? Mas estes, justamente, para se posicionar no
nível de sofisticação tecnológica requerido pelos mercados atuais, têm um nível
de componentes importados que seria pouco compatível com a teoria da
"integração popular", pois que precisamente baseado na interdependência
tecnológica, que constitui o traço mais marcante das economias modernas. De que
seria composta, exatamente, a tal de "integração popular e soberana entre os
povos americanos"?
Os opositores da Alca, ainda aqui, ficam nos devendo uma versão mais completa de seu programa de integração com soberania, pois que, uma vez mais, não fizeram direito o seu dever de casa no sentido de prestar respostas claras aos problemas que eles mesmos se colocam. A verdade é que, além da vontade comum de se opor ao "livre-comércio neoliberal" -- que como vimos, se traduz em uma recusa pura e simples dos mercados --, os opositores da Alca não têm até aqui muito a oferecer em termos de projetos alternativos de crescimento econômico ou de desenvolvimento social. Tudo parece se resumir numa recusa ideológica do livre-comércio.
Haveria algum sentido
progressista no rechaço do livre-comércio? Corresponde essa atitude a uma visão
mais elevada -- humanista, quero dizer -- dos modos alternativos de organização
social da produção no continente e seria ela um indicativo de que os que
defendem tal posição conseguem propor alternativas concretas para o
desenvolvimento econômico e social dos povos do hemisfério? Vejamos o que diria
um dos líderes naturais dessas correntes opostas ao capitalismo desenfreado e
ao domínio absoluto dos mercados. Sim, consultemos o que escreveu a respeito do
livre-comércio o velho Marx, quase tão atual nestes tempos de globalização
triunfante quanto nos tempos em que escrevia o seu famoso Manifesto
Comunista (1848), na verdade quase um hino em louvor à burguesia conquistadora.
Confrontado ao debate
sobre a abolição das famosas "leis do cereal" na Inglaterra e a correspondente
introdução do livre-comércio, Marx, pouco antes de redigir com Engels seu mais
famoso panfleto revolucionário, produziu um pouco lido "Discurso sobre o
livre-comércio", redigido em Bruxelas no início de 1848. Ele não parece ser
conhecido dos opositores atuais da Alca e menos ainda dos anti-globalizadores,
pois que Marx, nesse debate, retira muito dos argumentos utilizados
contemporaneamente pelos que tentam provar que o livre-comércio vai contra o
interesse dos povos ou, mais particularmente, dos proletários.
Suas posições devem ser
obviamente colocadas no contexto da época, mas ainda assim elas apresentam
validade para os tempos que correm, pois que ele estava pensando, não na
potência mais avançada da Revolução Industrial, a Grã-Bretanha, mas exatamente
na Alemanha, que, atrasada industrialmente, era assim uma espécie de América
Latina do continente europeu. Nessa mesma conjuntura, quando ele apoia, contra outros ideólogos do
proletariado, o sistema democrático instaurado pela burguesia como o terreno
indispensável para lutar contra a burguesia, Marx se pronuncia a favor do
livre-comércio: assim como a supremacia econômica da burguesia era tão
"necessária" quanto sua dominação política para preparar a vitória do
proletariado, a livre concorrência era necessária para apressar a união dos
trabalhadores e, portanto, sua emancipação política e econômica.
Marx diz explicitamente: "Sem dúvida, se o preço de todas as mercadorias cai, e esta é a conseqência necessária do livre-comércio, eu poderei comprar, com a mesma quantidade de dinheiro, muito mais coisas do que anteriormente. E o dinheiro do trabalhador vale tanto quanto o de qualquer outro. Portanto, o livre-comércio será bastante vantajoso para o trabalhador. (...) De forma geral, em nossos dias, o sistema protecionista é conservador, enquanto que o sistema de livre-comércio é [progressista]". evidente que o jovem exilado alemão, ao pronunciar sua conferência perante a Associação Democrática de Bruxelas, não pretendia tão simplesmente fazer uma panegírico do sistema de livre-comércio, colocando assim uma azeitona na empada dos capitalistas interessados em diminuir o custo de reprodução da mão-de-obra e, consequentemente, o nível dos salários nominais. O que ele pretendia, contudo, era apressar o curso da transformação capitalista das sociedades européias como forma de acelerar a implantação futura do socialismo.
Com efeito, Marx confessa que via no
livre-comércio objetivos meramente instrumentais para seus objetivos últimos:
"Ele dissolve as antigas nacionalidades e leva ao extremo o antagonismo entre a
burguesia e o proletariado. Numa palavra, o sistema de liberdade comercial
apressa a revolução social". E Marx termina assim seu discurso: "É apenas neste
sentido revolucionário, meus senhores, que eu voto em favor do livre-comércio".
Vemos assim que o preconceito contra o livre-comércio, ou no nosso caso contra
a Alca, se coloca num sentido contrário ao do progresso social, como se seus
opositores, numa fórmula famosa do Manifesto Comunista, pretendessem fazer girar para trás
a roda da História. Mas basta de lições de história. Vejamos a atualidade da
Alca.
3. A
oposição à Alca responde aos interesses dos trabalhadores latino-americanos?
Quero deixar claro, de imediato -- o que já deveria ter feito desde o início deste ensaio --, que não sou um partidário incondicional da Alca, que não acredito que ela venha sendo discutida em condições ótimas de equilíbrio de posições e de preparação negociadora por parte de todos os países e que, sobretudo, não resultará dela, caso implementada, uma mudança dramática nas condições de atraso relativo da América Latina nos planos econômico, social ou mesmo tecnológico. Caberia esclarecer, por outro lado, que uma situação inversa, de "não-Alca", como pretendem seus opositores, tampouco redundará em melhores indicadores em quaisquer das áreas acima indicadas e que a única evidência plausível, nesse caso, seria a de que a América Latina continuaria a ostentar o perfil tradicional de economia exportadora de produtos pouco dinâmicos nos mercados mundiais, que sua velha dependência tecnológica e sua fragilidade financeira continuariam pesando em suas transações correntes e que as vergonhosas iniquidades sociais, derivadas de uma perversa distribuição da renda e de níveis inaceitáveis de educação formal e de qualificação técnica da população, seriam mantidas pelo futuro previsível, sem grandes esperanças de mudanças espetaculares ou mesmo modestas.
Em outros termos,
poder-se-ia dizer que "ruim com a Alca, pior sem ela", já que ela representa,
pelo menos, uma tênue esperança de que algumas mudanças poderão ser feitas, nem
todas para um cenário mais desfavorável, como parecem acreditar -- ou melhor,
afirmar, sem provas e sem reflexão mais elaborada -- seus opositores
ideológicos. Quando digo ruim, refiro-me obviamente ao fato de que as economias
latino-americanos ostentam, em geral, níveis baixíssimos de qualificação da
mão-de-obra e, portanto, dos indicadores de produtividade e que elas apresentam
poucas condições de disputarem faixas de mercado mais sofisticado, o que aliás
continuaria ocorrendo, irremediavelmente, sem a Alca, que poderia operar, nesse
particular, algumas transformações positivas no sentido da deslocalização
produtiva e da transferência direta e indireta de tecnologia e know-how.
Esta não é uma impressão ou
afirmação subjetiva de minha parte; é quase que uma espécie de "lei" da
integração entre economias assimétricas, que soem ser, como é claro para
qualquer economista de bom senso, diferentemente dotadas em fatores e portanto
suscetíveis de se especializarem produtivamente na configuração própria a cada
uma delas, em trabalho ou em capital. Aliás, contrariamente ao que se afirma e
se realiza politicamente na região, os especialistas em economia industrial --
de ordinário contrários ao "second-best" da liberalização restrita dos blocos
comerciais -- costumam recomendar que, se integração deve haver, melhor que o
processo se dê entre duas economias diferenciadas entre si (isto é, uma
desenvolvida, outra em desenvolvimento) do que entre países situados num mesmo
patamar tecnológico (vale dizer, entre países em desenvolvimento, como hoje
ocorre na América Latina). Apenas no primeiro caso, poderá operar a pleno vapor
o jogo das especializações produtivas, da transferência de tecnologia e o
aproveitamento intenso da melhor dotação em trabalho da economia menos
desenvolvida, reduzindo os custos para as empresas dos países ricos e elevando
o patamar salarial no parceiro mais pobre.
Não se trata aqui de simples teoria,
e sim de evidência empírica ou histórica, que já converteu-se em medidas
práticas de política econômica, como qualquer conhecedor do processo de
integração européia ou da experiência do Nafta poderá confirmar. Estão
completamente errados, portanto, aqueles que condenam a Alca por ela pretender
reunir, num mesmo esquema de liberalização comercial, economias ditas
"assimétricas", pois que será a partir dessa mesma condição que as assimetrias
começarão a ser gradualmente eliminadas para, num passo seguinte, conduzir à elevação
dos índices de produtividade de todas as economias envolvidas nesse tipo de
relação.
Em tal processo, podem estar sendo
criadas condições para um desenvolvimento mais sofisticado das economias
latino-americanas, ainda que a Alca não possa garantir, obviamente, que esse
desenvolvimento se dará em todas as dimensões sociais, de maneira a transformar
dramaticamente o perfil das sociedades da região. Esta insuficiência se deve,
não a uma suposta perversidade intrínseca do processo da Alca, mas ao simples fato
de que, sendo ela um mero esquema de liberalização comercial e de abertura aos
investimentos, ela não pode garantir, por si só, o atendimento de todos os
outros requisitos e condições para o desenvolvimento integral dessas
sociedades, processo que depende de uma série de outras medidas, geralmente no
plano educacional e no da capacitação em recursos humanos de modo geral, que
estão muito longe do alcance instrumental desse tipo de acordo. Ressalte-se,
entretanto, a Alca não está sendo feita para "trazer desenvolvimento", mas para
tornar mais modernas as economias da América Latina e permitir eventualmente um
crescimento em bases mais estáveis do que o conhecido historicamente até aqui.
O desenvolvimento só pode ocorrer, como é sabido, a partir de profundas
transformações estruturais no modo de funcionamento da sociedade, o que o
comércio exterior induz de forma muito progressiva e muito indireta, uma vez
que atua sobre setores específicos de um sistema mais vasto.
Colocadas essas limitações
intrínsecas a um acordo de livre-comércio, a quem pode interessar a Alca? Uma
resposta equilibrada tenderia a dizer que ele interessa a todas as partes,
ainda que de modo diferenciado, o que parece o bom senso mesmo. Não é o que
pensam os opositores da Alca, para os quais as vantagens só podem estar do lado
da maior potência hemisférica.
Como efeito, eles afirmam,
enfaticamente: "A Alca não é somente um acordo
comercial, como oficialmente pretendem vendê-lo. É um projeto que responde às
necessidades da economia americana. Este país e o capitalismo internacional
passam por uma crise financeira e de produção de bens. Para sair da crise
precisam impor um novo padrão de acumulação de capital, baseado em novos
centros hegemônicos. Para alcançar este novo padrão, estão utilizando a guerra
e o combate ao terrorismo, como forma de transferir recursos públicos ao
complexo industrial-militar. Também pretendem ter um domínio total do
hemisfério americano, controlar o território, as potencialidades da
biodiversidade, um mercado de 800 milhões de pessoas, assegurando deste modo às
empresas norte-americanas um espaço protegido da competição asiática e
européia."
Trata-se, obviamente de uma visão
altamente deformada e voluntariamente enviesada do processo inicial, das
negociações subsequentes e dos eventuais resultados desse acordo comercial.
Concordo em que ele não seja um "mero" acordo comercial, pois que contem
diferentes instrumentos normativos que não são normalmente encontrados nas
zonas de livre-comércio tradicionais. Concordo também em que ele contempla os
interesses da economia americana, mas apenas
em parte, pois que ele, de fato, responde muito mais
às necessidades das economias latino-americanas, que poderão ter, através do
acordo, um acesso garantido e consolidado ao maior mercado consumidor do
planeta. A afirmação final dessa condenação da Alca, de que esse acordo
assegura "às empresas norte-americanas um espaço protegido da competição
asiática e européia" é igualmente válido no caso latino-americano, cujas
empresas também terão acesso privilegiado ao imenso espaço norte-americano. No
caso do Brasil e do Mercosul, em particular, esses laços privilegiados serão de
fato muito pouco exclusivos, pois é intenção do Cone Sul negociar outros
acordos preferenciais com a UE e com terceiros mercados, diluindo assim a
"reserva de caça" dos EUA. O Chile já se adiantou nesse processo, e o Mercosul
caminha atrás.
Passo por cima das afirmações
fantasiosas de que a Alca se "explicaria" porque os EUA "e o capitalismo internacional passam por uma crise financeira e de
produção de bens", da qual só podem sair impondo "um novo padrão de acumulação
de capital, baseado em novos centros hegemônicos". Não havia nenhuma crise,
financeira ou de superprodução -- como diriam os velhos marxistas --, quando a
Alca foi lançada, e de fato o capitalismo americano já tinha ingressado numa
fase inédita de crescimento contínuo, que se manteve por praticamente oito
anos. Deixo à imaginação dos leitores tentar descobrir o que seria "um novo
padrão de acumulação de capital", pois não me parece que o velho padrão tenha
sido esgotado, assim como tentar adivinhar quais seriam os "novos centros
hegemônicos", uma vez que não me consta que os antigos tenham sido
substituídos. Da mesma forma, beira o profetismo histórico pretender que, para
"alcançar este novo padrão" -- que não sabemos exatamente qual seria -- os EUA
estejam "utilizando a guerra e o combate ao terrorismo, como forma de
transferir recursos públicos ao complexo industrial-militar". Quem sabe a Alca
foi planejada para coincidir com o renascimento desse complexo, cujo desenho já
estaria embutido nas intenções dos negociadores desse tratado de comércio, em
1994?
Não bastasse a premonição
militarista, se antecipa também que a Alca permitirá ao Império "ter um domínio total do hemisfério americano, controlar o
território, as potencialidades da biodiversidade [e] um mercado de 800 milhões
de pessoas", o que parece constituir o cerne dos argumentos
"econômicos" dos opositores soberanistas. Trata-se de um "projeto colonial" --
domínio total e controle do território -- que parece ultrapassar de longe a
capacidade militar (certamente respeitável) e sobretudo o interesse estratégico
da principal potência planetária. Um empreendimento de tão vasto escopo deve
certamente ter razões de igual magnitude, pois do contrário seria um dispêndio
enorme de recursos para "controlar" um "território" no qual os "caçadores de
negócios" americanos já circulam com uma certa facilidade há décadas, senão há
praticamente dois séculos.
Quais seriam, pois, as razões de
força maior desse "projeto neocolonialista"?
Não há muitas evidências comprováveis no documento dos anti-alcalinos, salvo a
vaga menção de que os EUA pretendem o acesso às "potencialidades
da biodiversidade [e a] um mercado de 800 milhões de pessoas". Não
importa muito se a renda per capita dessas 800 milhões de pessoas seja inferior
a um quarto à dos consumidores setentrionais e que os alegados recursos da
biodiversidade estejam em estado bruto, necessitando grandes investimentos em
pesquisa e desenvolvimento para renderem benefícios industriais. O imaginário
da América Latina sempre viveu das imagens miríficas dessas riquezas fabulosas
do subsolo e das florestas impenetráveis, e de fato alguns países dispuseram,
no passado, de um virtual monopólio sobre alguns produtos ditos "estratégicos":
guano, petróleo, cobre, nióbio, areias monazíticas (lembram-se?), minério de
ferro, para não falar de outras riquezas produzidas pela própria mão do homem,
como café, cereais, bananas, lãs e carnes, até chegar, hoje em dia, à cocaína,
à salsa e à lambada, além é claro dos muitos candidatos à emigração.
Este último "produto de exportação",
aliás, explica mais do que qualquer outro fator, a constituição do Nafta com a
incorporação do México. Se tratava, para o Império, de um vetor estratégico:
tentar conter, reverter se possível, a imensa pressão de levas e levas de
imigrantes clandestinos que tentam penetrar, por qualquer meio, no território
imperial. O mecanismo seria obviamente a criação de empregos no próprio México,
o que a Alca pode também induzir em outras partes desse riquíssimo território
latino-americano. É óbvio que também existe o interesse diretamente comercial
das empresas americanas, mas a Alca vai também provocar um gigantesco processo
de deslocalização produtiva cujos principais beneficiários serão os países ao
sul do Rio Grande. Quer queiram ou não os opositores da Alca, e sobretudo os
sindicalistas e políticos provinciais do Norte, é por esse vetor que a Alca
entra no planejamento estratégico das empresas.
Entramos aqui no âmago da discussão
do projeto da Alca, um aspecto ignorado por todos os manifestantes
anti-alcalinos que se espalham agora do Alasca à Terra do Fogo (com uma certa
preferência por algumas metrópoles mais sofisticadas). A bem da verdade, a
questão é aflorada sob o disfarce aparentemente humanitário da "cláusula
social" ou dita "laboral", ou seja, o respeito a um certo número de direitos
básicos dos trabalhadores que se encontram consubstanciados em convenções da
OIT (às quais o Império nunca aderiu, diga-se de passagem). Essa agitação em
torno da "cláusula social" nada mais é, contudo, senão uma cortina de fumaça
atrás da qual as corporações sindicais do Norte do hemisfério pretendem
esconder sua luta defensiva contra a exportação de empregos para o Sul. Este o
nó estratégico do debate hemisférico, que explica porque, justamente, são
observadas as mais heteróclitas coalizões de opositores da Alca, ao Sul e ao
Norte do hemisfério. De fato, essas reuniões de anti-globalizadores e
anti-alcalinos representam uma babel ainda não de todo unificada em seu
discurso alternativo (tarefa quiçá impossível).
Supondo-se que ambos os lados não
podem ter razão ao mesmo tempo -- pois que se apenas o Império seria beneficiado
com a Alca, segundo nossos opositores em causa --, deveria haver algo que
explicasse essa curiosa mistura de ambientalistas, sindicalistas, políticos,
grandes e pequenos agricultores e industriais de vários matizes nessa pouco
santa aliança contra a Alca, ao sul e ao norte do Rio Grande. Aliás, o
brancaleônico exército de opositores não apenas apresenta uma certa simetria
social -- pelo menos uma -- em cada lado da "barreira", como reproduz,
igualmente, as mesmas forças sociais que já se tinham mobilizado quando do
debate sobre o Nafta, numa certa impressão de "déjà vu, again".
Por que será que isso ocorre? Seriam
os políticos dos EUA um bando de néscios, opondo-se com tanto denodo à expansão
do "capital monopolista americano"? Seriam os bem equipados e modernos
agricultores americanos reticentes à perspectiva de invadir um mercado de 800
milhões de pessoas com sua fabulosa produção de cereais, carnes e verduras
geneticamente modificados? Estariam os operários americanos sinceramente
preocupados com a visão dantesca do desmantelamento das indústrias
latino-americanas, deixando seus irmãos proletários ao sul do Rio Grande em
plena rua da amargura, sem os generosos benefícios sociais das economias mais
avançadas?
E os "brancagliones" meridionais?: o
que os agita tanto? Segundo a explicação oferecida, se
o acordo da Alca "entrar em vigor, a soberania dos países e povos ficará
seriamente comprometida, pois sob as regras do jogo que se pretende impor, o
poder de decisão será transferido para as empresas e investidores privados
globais americanos. A sub-região será condenada a ser exportadora de produtos
primários e semimanufaturados, intensivos na exploração da mão de obra e dos
recursos naturais não renováveis [e os recursos da biodiversidade?], pois
estará se intensificando a brecha do conteúdo tecnológico das exportações e
importações".
Esse quadro catastrófico
não é confirmado nem pela moderna teoria do comércio internacional, nem
registrado pela experiência histórica -- do Nafta, por exemplo -- dos processos
de integração econômica, envolvendo países em patamares distintos de
industrialização. Com efeito, os investidores americanos (e europeus) dominam
há décadas vários setores industriais -- e também minerais, comerciais, de
serviços e bananais -- dos países latino-americanos sem que o processo decisório
tenha mudado muito no continente. Continuamos a ter líderes reformistas, alguns
caudilhos militares (hoje bem menos) e vários tipos de populistas que, vez por
outra, ameaçam mudar as regras do jogo econômico, em prol do desenvolvimento econômico
e do bem estar social da maioria. Por outro lado, esses investimentos tem
servido, justamente, para reduzir a dependência de um número restrito de commodities, como qualquer
observador mais isento poderá confirmar. Por essa mesma via, a brecha tecnológica
diminui um pouco, mas não muito, porque, como sabe também qualquer economista
de bom senso, indústrias estrangeiras produzem efeitos em cadeia que
paulatinamente induzem a economia receptora ao "catch-up" tecnológico, ainda
que o essencial desse esforço deva mesmo ser realizado internamente.
Decididamente, algo não parece
fechar na lógica dessa oposição conjunta à Alca, ainda que o raciocínio a esse
respeito não seja de todo desprovido de fundamento. De fato, se diz que a "sub-região será condenada a ser exportadora de produtos
primários e semimanufaturados, intensivos na exploração da mão de obra e dos
recursos naturais", o que é em parte verdade. A América Latina não será
"condenada" às exportações primárias -- algo que ela já é, há praticamente quatro
séculos -- mas é certo que suas vantagens comparativas (com o "mercado", outro
conceito horrível aos ouvidos desses opositores) estão claramente no que se
chama de "labor-intensive production", no que não vai nenhuma vergonha, muito
pelo contrário. Eventualmente, mas não obrigatoriamente, essa produção se fará
com recursos naturais, mas a região também apresenta boas condições em produtos
manufaturados simples, como calçados e têxteis, outros um pouco mais complexos,
como siderúrgicos, e outros ainda verdadeiramente sofisticados, como aviões e
software (ainda que poucos acreditem nisso).
Este, volto a insistir, é o ponto
central de todo o debate -- embora ainda obscuro -- em torno da Alca, que
opositores do Norte e do Sul hesitam em mencionar, sob risco de caírem em
contradições insanáveis de interesses, imediatos, mediatos e mais longínquos. O
que a Alca pode verdadeiramente trazer, repito, é um processo contínuo de
deslocamento e de criação de novos empregos, que seguirão a deslocalização
produtiva de muitas indústrias do Norte. Seus efeitos diretamente comerciais
serão obviamente registrados na garantia de acesso a mercados para os
produtores mais dinâmicos da região, entre os quais se incluem, também,
indústrias de suco de laranja, de aço, de calçados, de têxteis e de uma
infinidade de outros bens brasileiros, sobretudo agrícolas, que podem passar a
ter condições privilegiadas no abastecimento do maior mercado planetário.
A contrapartida também existe, sob a
forma de serviços e outros bens mais sofisticados altamente competitivos vindos
do Norte, mas tudo é uma questão de barganha bem medida na mesa de negociações.
Apenas um complexo de inferioridade freudiano talvez poderia explicar (mas não
justificar) o temor de negociar um acordo comercial com a principal potência
planetária, como se todas as vantagens devessem, por algum mandamento de
inspiração divina, ficar apenas de um lado da mesa. Se isto fosse verdade, o
Congresso americano não teria votado uma autorização negociadora -- o TPA -- tão
cheia de condicionalidades, como se observou no caso de produtos agrícolas e
outras normas relativas a defesa comercial. Ainda assim, algo está excluído da
barganha negociadora? Não consta, o que talvez explique, uma vez mais, a
crescente agitação dos "brancagliones" do Norte e do Sul.
Em relação à posição dos opositores,
parece ter ocorrido um processo de "colonização mental", pelo qual os slogans, argumentos e bandeiras do Norte --
mas não os verdadeiros motivos -- são sutilmente transferidos para seus "irmãos"
do Sul, que assumem essas propostas sem maior espírito crítico, ou sem refletir
devidamente onde estão os reais interesses dos trabalhadores latino-americanos.
Com efeito, não basta querer "bloquear a Alca" -- o que de toda forma seria um
procedimento tremendamente autoritário, pois que não respondendo a qualquer
tipo de consulta popular ou a algum debate democrático por parte da
representação eleita da população --, pois seria preciso explicar claramente
porque se pretende fazê-lo.
Alguns setores julgam ter a chave
explicativa. Para Dom Demétrio Valentini, da CNBB, a
razão é muito simples: "Na verdade, o que está em jogo é a soberania dos países
da América Latina. Com o Nafta e a Alca se pretende desencadear um processo de
recolonização, valendo-se dos tentáculos da dependência financeira, da
submissão tecnológica e da impotência militar." Alguém acredita mesmo que um
acordo comercial tem todo esse poder? E justo agora, que o México acaba de
denunciar, contra a vontade do Império, o TIAR, essa "relíquia da Guerra Fria",
nas palavras de seu presidente? Como a justificativa da "defesa da
soberania" carece de qualquer fundamento real -- e é de fato frágil, teórica e
empiricamente --, caberia demonstrar que a Alca se opõe aos interesses dos
trabalhadores da América Latina, potencialmente o setor mais numeroso e
supostamente o centro dos interesses dos militantes anti-alcalinos.
Sabemos as razões que motivam os
mais ferrenhos opositores da Alca ao norte do hemisfério: a ameaça da perda de
emprego, o que de certa forma legitima a luta dos seus representantes sindicais
e dos políticos eleitos nos distritos do "velho capitalismo" ou das áreas
protegidas por altas tarifas e subvenções estatais. Mas o que justificaria a
oposição de militantes ditos progressistas ao sul do continente? Seria apenas o
desejo de contrariar os desígnios do Império? Algum motivo mais nobre, de
natureza positiva, por exemplo, e não apenas negativa?
Gostaria sinceramente de encontrar
motivos racionais, devidamente justificados, que possam motivar a tremenda
"batalha campal" contra a Alca que se avizinha, da parte dos vários exércitos
brancaleônicos que se mobilizam ao sul e ao norte do hemisfério. Como tenho
absoluta certeza de que as tropas ao Norte querem mesmo é defender os seus
empregos ameaçados, fico-me perguntando por qual razão, exatamente, as milícias
do Sul contribuem para o eventual sucesso dessa postura defensiva, contra os
interesses dos trabalhadores da região, supostamente beneficiados por essa
"captura" de empregos?
Em última instância, na verdade,
quem vai determinar o êxito ou o fracasso do projeto da Alca não são nem os
negociadores diplomáticos, nem os seus opositores pouco diplomáticos, mas
essencialmente o "punhado" -- um grande punhado -- de protecionistas do Congresso
americano. Está com eles a chave do sucesso ou da frustração desse processo, e
até agora o cenário está mais para a segunda do que para a primeira hipótese.
Isso não impede, porém, que o debate seja conduzido em todos os quadrantes de
nossas sociedades, segundo as boas regras do velho método socrático:
questionar, perguntar, inquirir, ver onde estão as evidências e depois tentar
chegar a alguma conclusão na qual todos os contendores possam encontrar
fundamentos lógicos e razoabilidade empírica.
Quero crer, também, que uma "outra América é possível", uma que não seja dominada, no
horizonte previsível, pela praga do subdesenvolvimento social e educacional,
pela iniquidade na distribuição de renda, pela corrupção generalizada e pela
perda geral de esperança em um futuro melhor. Tampouco acredito que esteja em
poder de uma eventual Alca trazer esse futuro "radioso", pois ela não tem essa
missão histórica. Mas, tenho razões para suspeitar que o "não à Alca"
representa, sim, a certeza de que nada de importante vai ocorrer no cenário
latino-americano em termos de, pelo menos, promessas de mudança. Seria essa a
perspectiva que nos apontam os anti-alcalinos?
Gostaria, por fim, como eles, de "propor a construção de novos caminhos de integração
continental, baseados na democracia, na igualdade, na solidariedade, no
respeito ao meio ambiente e nos direitos humanos." Creio que se trata de
objetivos nobres, razoáveis e de fato desejáveis para todos os povos do
hemisfério, embora alguns deles desfrutem desses valores em melhores condições
e com maior intensidade do que outros. Trata-se, portanto, de melhorar a
"repartição" desses "bens intangíveis", ou mais propriamente de criá-los, pois
em muitos lugares eles ainda não existem.
Não sei em que a luta contra a Alca
nos aproxima desses objetivos, ou talvez sua implementação não represente, de
fato, quaisquer mudanças decisivas nesses campos. Não temos certeza do que pode
ou não ocorrer com a hipotética e malfadada Alca. Uma certeza, porém, se
poderia ter, desde já, observando-se o registro do passado: a preservação dos
mesmos cenários de "autonomia soberanista" e de "modelos econômicos não
dependentes" na América Latina não apresenta um bom resultado histórico em
termos de promoção daqueles valores. Quem sabe não estaria na hora de mudar um
pouco o velho discurso que nos acompanha há várias décadas? Com a palavra os
anti-alcalinos (mas, por favor, com explicações mais credíveis, desta vez).
Paulo Roberto de Almeida
942: 10 de setembro de
2002
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)