Democratização do poder mundial:

possível, realizável, imaginável ou simplesmente desejável?

 

 

 

Paulo Roberto de Almeida

é doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico,

diplomata de carreira e autor de:

Formação da Diplomacia Econômica no Brasil (São Paulo: Senac, 2001),

Os primeiros anos do século XXI: o Brasil e as relações

internacionais contemporâneas (São Paulo: Paz e Terra, 2002)

(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)

 

 

 

Sumário:

 

Introdução

1. A abordagem histórica e conceitual da democratização do poder mundial

2. Existe um poder mundial que possa ser democratizado?

3. A ordem mundial e a democracia política no plano doméstico

4. A base censitária da velha democracia e os desafios da expansão

5. A igualdade de direito, a desigualdade de fato

6. Ameaças à democratização depois do 11 de setembro de 2001

7. A democratização e a formação do novo Império

8. O caso do hegemonismo benevolente: a democratização parcial do Big Brother

 

 

 

 

 

Nota: O presente texto apresenta argumentos e opiniões pessoais do autor e não tem qualquer pretensão de refletir ou apresentar posições oficiais do governo brasileiro, nem expressar ou defender políticas ou declarações do Ministério das Relações Exteriores com relação a temas do multilateralismo político ou econômico, das negociações hemisféricas ou das relações bilaterais.

 

 


Introdução

 

 

Várias abordagens são possíveis ao tema da democratização do poder mundial. Uma de tipo histórico e conceitual, isto é, retomando os temas clássicos da teoria política, desde Maquiavel e Kant, até os institucionalistas contemporâneos, tenderia a apresentar o mundo em termos do “dever ser”. Outra de tipo empírico e prático, prefereria analisar o mundo não como gostariamos ou desejariamos que ele fosse, mas tal como ele é, o mundo das coisas como elas são, cujas imperfeições, aliás, não surpreenderiam os atuais defensores das teorias realistas e neorealistas da ciência política contemporânea.

Essas duas abordagens correspondem, grosso modo, às duas vertentes possíveis de aproximação ao tema da democratização do poder mundial segundo a perspectiva de quem se entrega a esse tipo de reflexão. O acadêmico, por exemplo, faria uma análise com base em pressupostos lógicos, expressando uma racionalidade intrínseca a um sistema internacional tido por “ideal”, ou desejável. O diplomata é obrigado a trabalhar com os dados da realidade, deixando os pressupostos de lado e enfrentando a trama das relações internacionais como ela é, não como ele gostaria que fosse, com todos os inconvenientes do unilateralismo e da arrogância imperial.

Na verdade, ambas as vertentes combinam e se encontram no esforço analítico, de um lado, no trabalho prático, de outro, pois assim como o primeiro tem de contar com os dados da realidade para sustentar suas tentativas de generalização e de sistematização prescritiva, o segundo precisa organizar e apresentar esses mesmos dados da realidade segundo alguns ordenamentos lógicos, com o objetivo de buscar caminhos práticos para construir uma nova realidade, mas próxima do ideal ou do desejável.

Esse ideal, ou melhor, essa contrução utópica do futuro, que todos nós desejamos sob a forma de um sistema mundial mais democrático e mais igualitário, precisa partir da realidade atual, caracterizada por profundas assimetrias de riqueza e de poder no plano das relações internacionais, para propor, mediante novos instrumentos e mecanismos do direito internacional – que serão justamente aqueles sugeridos pelos acadêmicos e pelos institucionalistas – novas soluções a velhos problemas da humanidade, tais como os do desenvolvimento e do respeito aos direitos humanos, entre os quais se conta, obviamente, o direito de viver em um sistema democrático organizado em bases propriamente nacionais, raiz inquestionável e condição indispensável de todo e qualquer sistema de poder mundial verdadeiramente democrático.

Aqui se chocam, como sabemos, duas realidades algo contraditórias: enquanto o processo de democratização do poder mundial teria de avançar no plano multilateral para ser credível, a realidade do multilateralismo contemporâneo é que ele tem de trabalhar ainda segundo o respeito absoluto ao princípio da soberania nacional, comportando, portanto, entidades democráticas ao lado de outras pouco ou não democráticas. Trata-se de uma tensão imanente ao mundo contempoâneo, residual talvez – já que as soberanias estatais vêm sendo cada vez mais limitadas pelos avanços do multilateralismo – mas não menos poderosa em termos de administração do sistema de relações internacionais.

Antes, contudo, de começar a examinar essa problemática segundo um ou outro dos enfoques acima descritos, temos de esclarecer, introdutoriamente, os próprios conceitos primários que subjazem à nossa equação: democratização do poder mundial.

 

 

1. A abordagem histórica e conceitual da democratização do poder mundial

 

A noção de democratização não é de difícil apreensão, ela traduz mesmo um processo bastante conhecido, seja nas teorias de modernização, seja na própria análise histórica da evolução das sociedades ocidentais contemporâneas. Num caso, se trata de analisar os mecanismos de ampliação da participação política e social numa determinada formação social: do voto censitário ao escrutinio universal e secreto, aumento geral das franquias societais, crescente institucionalização e ampliação do Estado de direito, controle externo e interno sobre o exercício direto do poder e da execução orçamentária (accountability) e amplo equilíbrio entre os poderes constituidos, realidades e instrumentos de contra-poder bem analisadas desde Max Weber e Reinhard Bendix até os mais modernos defensores da teoria social do direito, como John Rawls.

No outro caso, a democratização se refere a processos históricos bem conhecidos, também analisados por clássicos do pensamento político como Marx e Weber e ampliado na era contemporânea por cientistas políticos como Samuel Huntington e Perry Anderson ou historiadores como Eric Hobsbawm e François Furet. Ela pode se dar, em casos raros mas espetaculares, pela via revolucionária das revoluções burguesas – de que são exemplos os casos clássicos das revoluções inglesa (1640-88) ou francesa (1789-94), mas que também podem ser feitas pelo alto, como no caso da “Revolution von oben” de tipo bismarckiano – ou, muito mais frequentemente, pelo lento acumular de transformações graduais, de conquistas parciais, como se viu na caminhada gradual da social-democracia européia em direção do poder político, caso no qual se costuma falar de evolução institucional.

Pode-se ter também o caso de sociedades originalmente democráticas, como a norte-americana, formada a partir de um substrato social estruturalmente democrático, como foi o caso dos Estados Unidos, herdeiros da democracia de aldeia da tradição inglesa da época dos Tudor, como analisado tão bem por Samuel Huntington em seu livro Political Order in Changing Societies (publicado no Brasil sob o título A Ordem Política nas Sociedades em Mudança).

Enfim, pode se ter, igualmente, processos deficientes de democratização, como são geralmente os casos conhecidos na América Latina, inclusive no Brasil, onde a ampliação das franquias democráticas no plano formal se traduz em baixos graus de inclusão social e de fato na persistência de mecanismos corruptores da democracia e de fatores poderosos de desigualdade de oportunidades econômicas, raíz do alto grau de iniquidade distributiva que se observa nessas sociedades.

 

Em suma, não há muitas divergências entre os cientistas sociais sobre o significado e o alcance do conceito de democratização, mas isso ocorre exclusivamente no plano doméstico, ou nacional. Se formos analisar o outro conceito, o de poder (já que o mundial, nesse caso, é mero adjetivo), veremos que ele é igualmente self-explaining, desde que nos coloquemos na perspectiva dos clássicos da sociologia política, como o já citado Max Weber. O poder é algo determinado e muito preciso: a faculdade que alguém dispõe de obrigar a outrém a cumprir a sua própria vontade, sendo que, no plano societal, o poder político se compõe da clássica determinação sobre o exercício legítimo da violência como garantia da ordem numa determinada formação social.

 

 

2. Existe um poder mundial que possa ser democratizado?

 

Se quisermos, porém, transpor a noção de poder para o plano mundial, veremos que estaremos entrando num terreno difuso, de fato difícil de ser identificado enquanto conceito e de assim submetê-lo aos mesmos mecanismos analíticos empregados para o caso das formações nacionais. Não há poder mundial, ou pelo menos não no sentido da sociologia clássica, ou seja, uma autoridade legitimamente estabelecida, reconhecida enquanto tal pelas partes constituintes de uma societas universalis hipotética e dispondo, com o consentimento de todos os representados, do monopólio do uso da força enquanto mecanismo de cumprimento e sanção de normas estabelecidas constitucionalmente. No plano mundial, isso equivaleria à paz universal, conceito kantiano que só seria realizável entre repúblicas, ou seja democracias, o que está longe de ocorrer no mundo de hoje.

 

Não há, portanto, poder mundial, a despeito de tentativas históricas nesse sentido: a ordem política identificada com o convívio harmônico entre sociedades diversas, tal como acordado em Vestfália por exemplo, nunca deixou o plano regional para se projetar internacionalmente e, mesmo nesse caso, não se tratava de um poder mundial visando à paz estável como objetivo em si, mas tão simplesmente de um arranjo de convivência e de mútua conveniência no quadro de uma difusa ordem superior cuja legitimidade era dada pelos princípios cristãos mutuamente compartilhados, aos quais aderiam, de modo diferenciado, os príncipes reconhecidos da sociedade civilizada da época. Mencione-se, por outro lado, os impérios com pretensão universal, na Ásia ou na Europa pré-modernas, muito mais baseados na imposição de um poder externo do que no consentimento dos governados.

Os arranjos feitos em Viena, em 1815, e depois renovados em Versalhes, em 1919 e novamente ao cabo da Segunda Guerra Mundial, entre um seleto número de potências vencedoras, também entram na vertente histórica da paz imposta, não uma negociada entre iguais. Sabemos, entretanto, que a Carta de São Francisco contém princípios democráticos, estabelecidos semi-constitucionalmente, dotados de pretensões a uma certa legitimidade universalista. Também sabemos, porém, que ela convive com uma realidade assimétrica, caracterizada pela existência de alguns membros “mais iguais” do que outros, o que seria dificilmente aceitável em qualquer ordem política legitimamente estabelecida no plano nacional.

 

Em outro termos, não há poder mundial e, em conseqüência, qualquer intenção de democratizá-lo seria tão inócua quanto impossível. Isso não quer dizer que não haja, um poder mundial de fato, de tipo militar, econômico e até político, mas aí já seria tarefa totalmente desprovida de validade heurística discutir os fundamentos, condições e etapas de um processo de democratização da ordem mundial, uma vez que tal poder de fato não está identificada com o princípio abstrato da chamada vontade geral, que toma inspiração em Rousseau. Esse poder mundial de fato existe, é exercido na sua plenitude possível e tem conseqüências para a maior parte dos habitantes do planeta, que, incidentalmente, não decidiram, aberta e democraticamente, pela extensão, limites e controle desse tipo de poder. Trata-se de uma realidade histórica, não de um arranjo livremente consentido entre os membros de uma mesma comunidade.

De resto, existe essa tal realidade chamada de “comunidade universal”? Talvez, na medida em que o mundo vem sendo lenta e penosamente unificado desde as primeiras viagens de Colombo até as últimas conquistas da globalização, num processo desigual e descontínuo de avanços e retrocessos que tem a ver com a força relativa de determinados polos da economia mundial e de certas civilizações particulares. A chamada “comunidade universal” se expressa em certos instrumentos de validade aparentemente não questionada no plano mundial – como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, por exemplo –, muito embora possa se perguntar se um instrumento mesmo moderadamente propositivo e modestamente implementável como a Declaração de 1948, adotada em circunstâncias que podem ser tidas como excepcionais no final da Segunda Guerra Mundial, teria condições, hoje, de ter sido aceita na forma como está, tamanhos são os condicionantes que se colocam para a aceitação de novos instrumentos de promoção dos direitos humanos, inclusive no plano do gênero e dos direitos econômicos e sociais.

 

Por aí se vê como é difícil separar uma definição conceitual ou teórica do que seja a democratização do poder mundial das implicações práticas e das realidades históricas que subjazem a tal conceito ou noção. Voltemos, porém, ao subtítulo deste ensaio.

 

 

3. A ordem mundial e a democracia política no plano doméstico

 

Perguntei-me, ao iniciar estas reflexões, se a democratização do poder mundial (algo inexistente a princípio, ou dotado de uma realidade muito difusa, como vimos) seria possível, realizável, imaginável ou simplesmente desejável? Para não tornar a discussão muito abstrata, ou puramente conceitual, vejamos quais seriam os componentes de uma ordem mundial democrática para examinarmos em seguida como os atores relevantes no plano mundial estão atuando para tornar aquele objetivo atingível.

 

Falar de “atores relevantes” não é incongruente com o princípio democrático, que ele mesmo tem como fundamento a teoria da representação, ou seja, a delegação de poderes para a consecução de objetivos socialmente desejáveis. Na sociedade moderna, esses atores relevantes são os partidos políticos, as instituições de interesse público, determinadas forças sociais ou morais, como as próprias religiões constituídas ou as ONGs, cada vez mais importantes no plano societal. No plano mundial, se trata dos grandes estados (pois não há como deixar de reconhecer-lhes o papel de atores relevantes no plano da política mundial), das organizações intergovernamentais a vocação universal, a começar pela ONU e suas agências especializadas, assim como as entidades de interesse setorial ou de âmbito geograficamente restrito, a exemplo dos blocos regionais, como a OEA, a OTAN ou o próprio Mercosul, sem esquecer as ONGs, que também vêm adquirindo crescente relevância universal.

 

Quais são as bases do poder democrático no plano nacional? O exercício do poder político geralmente em forma indireta, pelo mecanismo da representação, mas segundo um sistema no qual o processo decisório é assegurado segundo o princípio do voto majoritário, respeitados os direitos das minorias. O poder da maioria, em todo caso, é exercido segundo regras constitucionais mais ou menos detalhadas, prevendo a divisão desse mesmo poder em função de competências legislativas, executivas ou judiciais, com mecanismos de controle e de limitação desses poderes setoriais. Quais são, ou deveriam ser, os objetivos fundamentais de todo poder democrático digno desse nome? A garantia da segurança individual, do respeito ao ser humano e ao cidadão (o que compreende o livre exercício do direito de expressão, de religião e de propriedade), a expansão contínua das franquias democráticas e do bem-estar de todos os membros da comunidade, o que implica a promoção de chances iguais para todos, independentemente das desigualdades distributivas existentes estruturalmente na sociedade como um todo.

 

Este último elemento traz a tona um velho dilema da democracia, qual seja, a tensão existente entre a liberdade política, base essencial do regime democrático, e a liberdade econômica, que determina a garantia sobre os direitos de propriedade, dos quais derivam a acumulação e, portanto, a concentração de riqueza. Ainda que alguns teóricos defendam a noção de democracia econômica ou social, em contraposição ao que seria sua simples expressão formal, de direitos e deveres iguais para todos mesmo em face de desigualdades distributivas derivadas da propriedade privada (a chamada “democracia burguesa”), não parece ser missão da democracia promover o igualitarismo, ainda que ela possa, e deva, contribuir para a minimização das piores iniquidades sociais que emergem quase que de forma natural no curso do processo histórico.

 

Em todo caso, as desigualdades distributivas, nos planos nacional e internacional, constituem um dos maiores e mais renitentes desafios ao regime democrático, desde os tempos da antiga Grécia até hoje. Um teórico como Milton Friedman argumenta, por exemplo, que a história sugere que o capitalismo é uma condição necessária, ainda que não suficiente, para o exercício da liberdade política (in Capitalism and Freedom, 1962). Ele o faz com base na descentralização ou atomização natural de poderes provocada pelos mecanismo de mercado, o que reduz a amplitude de decisões que os governos têm de tomar em bases puramente políticas, e portanto sujeitas a interpretações diversas quanto às “regras do jogo”. Não precisamos entrar nesse tipo de debate sobre as virtudes dos mercados livres e sua influência na constituição das sociedades livres, mas apenas registrar esses vários elementos conceituais e estruturais para organizar nossa própria discussão sobre a democratização do poder mundial.

 

 

4. A base censitária da velha democracia e os desafios da expansão

 

Vejamos, portanto, como transpor esses princípios da ação democrática, do plano puramente nacional, ou doméstico, para o âmbito mundial, ou universal. A regra da maioria, em primeiro lugar, o que significaria? Cada cidadão um voto, certo? Perfeito no plano nacional, mas pensemos duas vezes na sua aplicação em âmbito universal.

O que existe hoje como “assembléia política mundial” não corresponde ao “corpo eleitoral nacional”, mas tão simplesmente a um “ajuntamento” de estados legitimamente reconhecidos no plano mundial, alguns deles velhos de vários séculos, outros tão jovens como Timor Leste, e cujo número total já passou hoje de 192 “entidades individuais”. No plano doméstico se exige que o cidadão faça 16, 18 ou 21 anos para o pleno exercício das franquias democráticas, o que é considerado um requisito de maturidade política. Tal não existe no plano internacional e, uma vez aceito no convívio da ONU, o mais jovem estado passa a votar como qualquer outro membro fundador daquele corpo político.

 

O mais importante não está aí, contudo, pois que o princípio de cada voz um voto não tem a mesma equivalência nos dois planos. O princípio da representação assegura uma certa proporcionalidade ao exercício do poder político, o que simplesmente não existe no plano internacional. Tomemos apenas os dois países mais populosos do planeta, China e Índia: combinados, eles têm uma população superior àquela de mais de dois terços de países membros da ONU, sendo alguns estados verdadeiramente minúsculos nesse aspecto. Pode-se considerar democrática uma decisão que obriga, da mesma forma, 2,5 bilhões de pessoas concentrados em apenas duas nações, em face, por exemplo, de cem outros estados que não respondem por 10% desse número?

Assim como o notável crescimento demográfico em países em desenvolvimento representou tremendo desafio de incorporação social para suas frágeis democracias, a expansão do número de estados coloca um problema equivalente no plano mundial. No Brasil, por exemplo, o incremento populacional redundou numa certa deterioração das instituições públicas, notadamente no aspecto educacional, com um processo de exclusão social daqueles cidadãos unicamente dependentes das escolas públicas de primeiro e de segundo grau. O número de países membros das Nações Unidas cresceu 370% desde 1945, para algo superior a 190 estados atualmente, o que coloca o terrível problema do equilíbrio entre a participação e a eficácia.

Por causa desse tipo de disparidade, determinadas agrupações regionais, como a União Européia por exemplo, resolveram introduzir o mecanismo do voto ponderado no seu processo decisório, objetivando levar precisamente em contra esse tipo de assimetria demográfica e também o peso diferenciado das economias nacionais. Aqueles que não se cansam de sugerir que o alegado “déficit democrático” do Mercosul deriva da falta ou ausência de institucionalidade, querendo isso significar a supranacionalidade ao estilo da União Européia, já pararam para pensar que, em termos equivalentes, o pequeno Uruguai tem uma população equivalente a um bairro da cidade de São Paulo? Nesse caso, seria democrático que o Uruguai exerça seu direito de veto sobre determinadas decisões do Mercosul que podem ter, teoricamente, impacto sobre a vida de 170 milhões de outros habitantes nesse seu grande vizinho que é o Brasil?

 

A democratização do poder mundial é confrontada, portanto, a esse enorme problema estrutural da representação democrática, e que não tem absolutamente nada a ver com as assimetrias estruturais derivadas da desigualdade na distribuição de poder militar e de riqueza econômica no plano mundial, ou seja, intersocietal. Poder-se-ía pensar numa representação proporcional em termos de população mundial? Talvez, mas os problemas daí decorrentes seriam tão ou mais complicados que aqueles hoje derivados da assimetria de poder econômico entre as nações.

 

 

5. A igualdade de direito, a desigualdade de fato

 

Observe-se que nem todos os organismos internacionais atuam com base no princípio democrático de uma voz um voto, o que, como vimos, deixa muito a desejar em termos de representação efetiva. Daí a razão, por exemplo, de determinados processos decisórios serem bem mais rápidos em determinadas “sociedades por ações” como o FMI ou o Banco Mundial – nas quais os sócios “mais importantes” detêm maior poder de voto – do que na Assembléia Geral da ONU, conhecida por seu processo lentíssimo de tomada de decisões, com o resultado adicional de que nem sempre tudo o que foi decidido tem impacto ou relevância real para a vida diária dos cidadãos dos países membros. O processo decisório em organismos como o FMI e o BIRD é, de fato, eficiente e rápido, mas seria ele democrático? Não no sentido formal do termo, mas como dissemos, se trata de sociedades por ações, não de entidades igualitárias. Nesse plano, temos a OMC, que é formalmente consensual, ainda que na prática nada se faça contra os desejos ou interesses dos parceiros mais iguais, isto é, Estados Unidos e União Européia em primeiro lugar.

 

De fato, se traçarmos mapas estilizados das relações reais de poder e riqueza no mundo, esses mapas seriam bastante diferentes de seus equivalentes cartográficos ou os puramente geográficos. Começando pelo eixo vertical do poder, veriamos que o peso estratégico da “massa atômica” dos EUA seria absolutamente descomunal em relação à massa territorial e populacional desse país e que a distribuição da capacidade efetiva das demais grandes potências em projetar poder – isto é, levar a guerra a outros cenários – é totalmente desproporcional, concentrada em favor dos mesmos EUA. Ainda assim, nesse vetor, países como Rússia e China ainda aparecem como competidores credíveis, ao passo que o Brasil, quinto maior país do mundo em extensão e pessoas, simplesmente “desaparece do mapa”. Nesse eixo, apenas contam aqueles países capazes de projetar poder, o que sempre foi apanágio dos grandes impérios. Na atualidade, essa capacidade encontra-se totalmente desequilibrada, em razão da supremacia de apenas um deles, na verdade o único império remanescente da história da humanidade.

 

No eixo horizontal do desenvolvimento, as assimetrias são igualmente dramáticas, uma vez que “massas atômicas” relativamente importantes como o Brasil, a Índia e a própria China, diminuem significativamente se o critério se torna renda per capita, registro de patentes e licenciamento de know-how próprio ou disponibilidade de comunicações e acesso à Internet. Países pequenos como Uruguai ou Costa Rica, ou a minúscula Cingapura, apresentam desempenho bem superior ao desses gigantes do Terceiro Mundo.

Diferenças estruturais à parte – e essas assimetrias vão estar conosco por gerações ainda – o processo de democratização do poder  mundial, lento como era a despeito do peso dessas estruturas da desigualdade, encontra-se sobremaneira dificultado em função do novo cenário internacional que emerge após o 11 de setembro de 2001, como veremos agora.

 

 

6. Ameaças à democratização depois do 11 de setembro de 2001

 

Os eventos de 11 de setembro de 2001 foram e têm sido apresentados como um momento de ruptura no sistema de relações internacionais, ou pelo menos como um elemento novo na agenda da política mundial, uma espécie de ponto definidor de uma nova relação dos Estados Unidos com a ordem global, em grande medida dominada por esse mesmo país. Os ataques subsequentes da hiperpotência americana contra o regime taliban do Afeganistão e contra as bases terroristas do grupo Al Qaeda do apátrida saudita Osama Bin Laden foram vistos, assim, como a primeira guerra do século XXI, podendo materializar antigos prognósticos sobre um “conflito entre civilizações”, no caso entre o ocidente modernizado e o islamismo retrógrado e fundamentalista. No mesmo diapasão, esses enfrentamentos foram vistos como confirmando o cenário do “império” contra os “novos bárbaros”, estes últimos perturbando uma anunciada era de falta de alternativas e de “aborrecimento pós-Guerra Fria”, ambos colocados no contexto hegemônico da chamada Pax Americana.

O 11 de setembro constitui, talvez, uma “conjuntura histórica de transformação”, enquanto o ato terrorista mais importante de toda a história da humanidade, mas ele não é, em sua dimensão própria, um fator de mudança na política mundial. Em outros termos, se ele impulsiona a ação dos estados (e conduz a realinhamentos inesperados), o atentado em si não altera fundamentalmente os dados básicos do jogo de poder entre as nações, que continua a ser dominado pelos elementos brutos da economia e da política dos países centrais, a começar pelos próprios EUA. Ele constitui, entretanto, um fator contraditório na equação da democratização mundial.

As operações militares conduzidas pelos EUA no Afeganistão – apresentadas por comentaristas como a primeira guerra do século XXI, ou ainda como a primeira guerra “globalizada”, ou pelo menos da era da globalização – revelaram aspectos do novo modo de fazer a guerra na atualidade, um modo por enquanto ao alcance apenas da hiperpotência militar da idade eletrônica. Como tal, essa guerra não desmente Clausewitz nem ab-roga seus princípios estratégicos ou táticos aplicáveis à condução de operações militares, mas ela introduz novos elementos na famosa equação que faz da guerra a continuação da política por outros meios.

De fato, essa guerra é uma confirmação dos postulados de Clausewitz sobre a natureza absolutamente imprevisível de uma guerra, a começar pela ofensiva surpresa por parte de um bando de terroristas que resolveu atacar os chamados “centros de gravidade” do que ele considerava como o “império do mal”, ou seja a superpotência imperialista. Todos os demais princípios clausewitzianos, inclusive no que se refere à assimetria entre os contendores, estão sendo confirmados na prática desde o início das operações. O que poderia haver de não-clausewitziano na presente guerra seria o eventual peso político de considerações não exclusivamente militares na contenda, derivadas do envolvimento de outros países e, hipoteticamente, de organizações multilaterais no tratamento a ser dado a uma das partes em conflito, mas mesmo aqui encontramos tanto a presença de Clausewitz na caracterização essencialmente social da “arte da guerra”, como a marginalização dessas outras considerações que não têm a ver com o exercício puro e duro da política de poder, em vista do evidente unilateralismo do ator principal.

 

As reações dos EUA foram de certa forma convencionais e confirmaram a visão descrita como “simplista” que se tinha da nova administração republicana: o divisor de águas entre o bem e o mal, a recusa em discutir as causas mais profundas do terrorismo (seja no Oriente Médio, seja nos substratos mais complexos da pobreza, da exclusão e da falta de democracia em vários países, e não apenas nessa região) e a afirmação agressiva das novas prioridades: terrorismo e segurança definem as novas relações dos EUA com todos os demais atores do sistema internacional, com todas as conseqüências que isso possa representar em termos de unilateralismo, isolacionismo, hegemonismo etc.

A nova atitude dos EUA em matéria de política externa está sendo manifestada na questão da mudança de regime no Iraque, onde a clara vontade da superpotência de “liquidar uma hipotética” herdada da administração de Bush pai pode apontar para um novo agravamento das tensões no Oriente Médio e na própria coalizão de forças ocidentais. O caso do Iraque está aliás vinculado a outra demonstração de arrogância imperial, já materializada na pugna de Washington pelo afastamento “bem-sucedido” do diretor-geral da Organização para a eliminação de armas químicas, por sinal um diplomata brasileiro. De modo geral, a identificação de um “eixo do mal”, com o Iraque – ao lado do Irã e da Coréia do Norte – situado numa posição central dessa “trindade da maldade”, traz de volta ao terreno da política internacional alguns elementos de arbítrio falsamente moral que pareciam afastados desde a era clássica do imperialismo europeu, quando o “homem branco” levava a “civilização” a “povos bárbaros”.

 

 

7. A democratização e a formação do novo Império

 

Está-se, portanto, em face de uma nova explicitação política do Império, cuja essência geral pode ser definida nos seguintes termos. Trata-se da única superpotência hegemônica da atualidade, depois do afastamento do outro competidor estratégico durante cerca de meio século, a finada União Soviética. A superioridade tecnológica e militar parece evidente e está revelada num simples dado bruto da realidade: os EUA são único ator global da história da humanidade que consegue projetar poder militar simultaneamente em diferentes terrenos estratégicos em pontos distantes de seu próprio território. Do ponto de vista econômico e financeiro, essa hegemonia é menos evidente, mas ainda aqui um dado é revelador do diferencial de poder entre os principais atores: o orçamento de defesa dos EUA é superior à soma dos orçamentos militares de vários outros aliados ou competidores estratégicos, a começar pela Rússia, China e os principais países da OTAN.

Tal disparidade – que pode ser classificada como propriamente “estrutural”, ou seja, não é simplesmente quantitativa – tampouco tinha sido manifestada historicamente em qualquer era anterior, provavelmente desde os tempos da Pax Romana. O alegado poder naval absoluto da Royal Navy, durante os tempos áureos da Pax Britanica, não guarda senão uma pálida relação com a presente situação de domínio incontrastável das forças armadas dos EUA. Na origem de tal defasagem de poder de fogo encontra-se não apenas a simples capacitação tecnológica – que poderia ser eventualmente suprida no caso dos europeus ou mesmo, com um pouco de imaginação e de “empréstimos involuntários”, no caso das duas grandes economias em transição para o capitalismo – mas uma organização superior de administração militar, que consegue aproveitar ao máximo os ganhos de produtividade revelados em um longo ciclo de crescimento econômico baseado em certa medida nas virtudes inovadoras da “nova economia” (informação, comunicações, processamento digital de insumos os mais diversos e combinando-os em novos tipos de armas).

 

O contraste entre o know-how superior dos EUA em “levar a guerra”, quando comparado ao poder militar apenas relativo dos demais competidores estratégicos, é provavelmente devido à aplicação dos mesmos modelos organizacionais e produtivos que determinaram, historicamente, a preeminência de seu tipo específico de capitalismo desde o final do século XIX e início do século XX. Nessa mesma época, talvez não por acaso, um historiador naval americano, Alfred Thayer Mahan, proclamava a superioridade do poder naval na condução das operações militares. Hoje, Mahan estaria obviamente privilegiando a preeminência do poder aéreo, como revelado na Guerra do Golfo e com maior ênfase nas operações conduzidas no Afeganistão. Essa superioridade aérea nada mais representa senão o poder econômico concentrado dos EUA, sua eficiência relativa e mesmo absoluta no confronto com os demais contendores do jogo estratégico.

De fato, o EUA conceberam um “modo inventivo de produção” – para usar um conceito de extração marxista – e o aplicaram com notável persistência e coerência em sua própria arte de fazer guerra. A guerra não é concebida como uma operação unicamente militar e nisso os EUA também são o mais “aroniano” dos poderes modernos, no sentido em que os soldados e os diplomatas trabalham de modo muito mais integrado do que ocorre normalmente nos demais países. Nessa unidade de estratégia e diplomacia reside o elemento decisivo da superioridade dos EUA em relação a outros poderes.

Com efeito, podemos mobilizar novamente o conceito marxista de “modo de produção” para explicar as razões pelas quais os EUA lograram construir a sociedade industrializada mais avançada do planeta (ainda que não a socialmente mais moderna ou mais homogênea em termos de repartição da renda), que continua a exibir um enorme potencial de crescimento, embasado não necessariamente em seus recursos próprios, mas na mais ampla e diversificada rede de “captação de cérebros” do resto do mundo em favor do seu sistema produtivo e de pesquisa básica. Isto pode ser comprovado, por exemplo, por uma consulta às listas anuais de prêmios Nobel: cada vez mais os nomes se referem a cientistas ou pesquisadores estrangeiros trabalhando nos EUA, o que revela a força do “brain drain” operado em favor dos EUA.

 

Nas pegadas abertas pelos EUA em direção de uma sociedade desenvolvida e “futurística”, outros países e grandes economias – como a União Européia, a China, a Rússia, eventualmente o Brasil e a Índia também – poderão eventualmente tornar-se núcleos hegemônicos regionais, não da espécie militar, mas enquanto centros de poder econômico e tecnológico, distribuindo bens, serviços e capitais em redes interconectadas de cooperação e de competição. Esse novo mundo interdependente exibirá certos traços “americanos” no sistema produtivo, ainda que não no plano cultural ou ideológico. Esse, certamente não de todo, “admirável mundo novo” não conforma exatamente o padrão ideal de democratização do poder mundial que gostaríamos ou desejaríamos ver surgir no cenário internacional, ou que poderíamos legar a nossos filhos, mas é o desenvolvimento possível que pode ser visto a partir dos dados da realidade atual.

Por mais contraidtório que isso possa parecer, essas transformações que vêm sendo implementadas de maneira unilateral – os sociólogos adeptos do modelo barringtoniano de mudança social falariam de uma “Revolution von oben”, ou seja, pelo alto – representam uma das faces da democratização contemporânea, uma vez que os EUA conformam igualmente a mais democrática das sociedades modernas. O paradoxo, justamente, é que esse processo de modernização-democratização liderado pelos EUA não se restringe aos (ou não é contido pelos) avanços materiais e inovações tecnológicas apenas. Trata-se, antes de mais nada, de um modo de organização social, de uma estrutura “societal”, o que significa: democracia, educação contínua, estabilidade institucional e o conhecido “rule of law”. Reproduzir esses traços é obviamente um pouco mais difícil do que simplesmente importar (ou copiar) os produtos “made in USA” ou, sobretudo, os processos inovadores modelados no sistema americano.

 

Por outro lado, o sucesso do processo de globalização conduzido pelos EUA nos planos econômico e tecnológico contrasta com os percalços da globalização que se tenta impulsionar nos planos político e jurídico, aqui também em grande medida devido à ação obstrutora dos EUA. Com efeito, a superestrutura política do direito internacional público – uma construção que remonta a Grócio, pelo menos – vinha (vem) sendo penosamente construída por todos aqueles atores – estados, organizações, indivíduos – sinceramente engajados na tarefa civilizatória de substituir o direito da força pela força do direito, de colocar a solução pacífica das controvérsias antes da justiça algo arbitrária dos poderosos.

Essa lenta construção do multilateralismo contemporâneo, que aliás muito deve à visão progressista dos dirigentes americanos de meados do século XX e seu compromisso com a arquitetura onusiana então criada, vem sendo ameaçada por uma série de atitudes sucessivas da nova administração dos EUA que todas elas confirmam uma relutância de princípio e uma recusa de fato em assumir novos compromissos que redundariam, direta ou indiretamente, na diminuição da margem de liberdade alocada aos EUA enquanto grande potência não contida pelo direito internacional.

 

Os exemplos dessa aversão imperial em aceitar quaisquer constrangimentos em áreas consideradas como sensíveis do ponto de vista de Washington têm se multiplicado nos últimos dois anos, começando pela recusa do CTBT – o tratado abrangente de interdição de testes nucleares – e do protocolo sobre minas terrestres até a ruptura com o sucessor legítimo de Nuremberg, o Tribunal Penal Internacional, passando pelo protocolo de Quioto e pelo instrumento verificador do protocolo sobre armas biológicas. Outros exemplos da relutância americana em aceitar um maior grau de responsabilidade internacional no tratamento de questões sensíveis existem desde sempre na questão da implementação de certas cláusulas do tratado de não-proliferação nuclear ou foram reveladas ainda recentemente em conferências da ONU, como na da África do Sul sobre o racismo, na de Monterrey sobre financiamento ao desenvolvimento e na de Joanesburgo sobre desenvolvimento sustentável.

Mas não apenas no plano multilateral da área política, atitudes recentes dos EUA apresentam um nítido contraste com a história anterior do apoio americano ao direito internacional e ao multilateralismo. Também no terreno econômico as frustrações vem sendo acumuladas, com prejuízos reais e sensíveis para seus principais parceiros, a começar pelo próprio Brasil: basta citar, por exemplo, a nova versão do Farm Bill, a aprovação extremamente condicionada da autorização congressual para negociações comerciais multilaterais – agora chamada de Trade Promotion Authority – ou o contorsionismo legal demonstrado na introdução de salvaguardas para o setor do aço, para constatar a imensa distância entre a retórica do livre comércio e a dura realidade do protecionismo. No plano regional ou bilateral ou em escala simplesmente “unilateral” os exemplos são ainda mais visíveis dessa vontade de lograr uma espécie de “livre comércio indolor”, no qual apenas os setores nos quais os EUA são competitivos merecem discussão e acordo de abertura, mas não aqueles nos quais países em desenvolvimento competem lealmente por acesso a esse grande mercado.

É verdade que as práticas abusivas de protecionismo explícito e de subvencionismo prejudicial aos interesses de países como o Brasil não datam da presente administração e devem continuar num futuro ainda indefinido, nem se restringem aos EUA – como revelado também nas cenas explícitas de protecionismo agrícola e no mais que pornográfico subvencionismo europeu nessa área – mas é também verdade que os eventos de 11 de setembro animaram o Congresso americano, já normalmente engajado na defesa dos chamados “interesses especiais”, a comprometer-se ainda mais com a proteção de setores pouco competitivos e historicamente insulados da oferta estrangeira.

Finalmente, as contradições na área comercial são também reproduzidas na área financeira, sem que se saiba bem quais são as novas prioridades para as organizações de Bretton Woods em casos de insolvência aguda como a experimentada pela Argentina, que aparentemente foi entregue à sua própria sorte. Os países prioritários na luta contra o terrorismo serão (estão sendo) recompensados com esquemas especiais no plano bilateral, no foro restrito do Clube de Paris ou nos esquemas de crédito contingencial do FMI ou dos bancos multilaterais, o que pode não ocorrer em outros casos colocados numa lista secundária. Mesmo o recente anúncio de aumento nas alocações oficiais para ajuda ao desenvolvimento e a intenção de transformar o sistema de empréstimos em doações monitorados segundo o grau de “good governance” choca-se com as evidências repetida e insistentemente avançadas pelos economistas sensatos, segundo os quais a melhor forma de ajuda ao desenvolvimento é a liberalização comercial para facilitar o acesso dos países pobres aos mercados avançados e o desmantelamento da panóplia absurda de medidas protecionistas mantidas nestes últimos. A ênfase nas doações, por sua vez, atuará em detrimento de países médios como o Brasil, que não mas se beneficiam de operações concessionais e que passarão a enfrentar restrições ou custos adicionais em seus projetos sustentados parcialmente com financiamentos multilaterais.

 

 

8. O caso do hegemonismo benevolente: a democratização parcial do Big Brother

 

Esses poucos exemplos demonstram que os EUA de fato atuam, naquilo que é por eles considerado como essencial à segurança nacional – mas esta é entendida num sentido excessivamente largo, compreendendo produtores de aço, manufatureiros têxteis, fabricantes de açúcar, plantadores de laranja e por aí vai… – segundo um padrão unilateralista, o que aliás combina com o caráter hegemônico do país, incontrolável ou irrefreável por qualquer outro. Os EUA figuram sozinhos no pódio do poder mundial e demonstram uma certa impermeabilidade aos interesses e preocupações de outros países, pelo menos enquanto esses países não apresentam algum interesse instrumental para os próprios EUA. Não há surpresa aqui, essa atitude isolacionista e indiferente ao que se passa no resto do mundo “exterior” é próprio dos impérios, bastando com recordar a atitude da China imperial até que ela encontrasse a vanguarda da expansão européia.

A China também se considerava o centro do mundo – pelo menos do seu mundo – de fato um mundo em si mesmo, na medida em que ela constituía a mais importante economia até o século XVIII. O desempenho econômico superior, a maior produtividade e capacidade de inovação tecnológica, em primeiro lugar no setor militar, dos europeus mudou esse mundo chinês, até o ponto em que a China foi reduzida a uma potência de terceira classe, tendo sido humilhada e pilhada pela arrogância européia, apoiada em poderosos canhões, durante quase um século.

Os EUA da atualidade são vastamente superiores, em poder econômico e militar, ao que eram, em suas épocas respectivas, os impérios romano e chinês. Como nesses casos igualmente, não parece haver um horizonte declinante para a hegemonia americana, que já foi descrita como benevolente. Poucos recusariam essa realidade, o caráter ao mesmo tempo imperialista a natureza benevolente da hegemonia americana. Existem, por certo, como nos casos da alegada decadência romana ou da extrema rigidez burocrática da China, aspectos menos positivos no poder imperial americano, que também são de origem interna, como o altamente disseminado problema da “drug addiction”, mas essa questão tem pouco a ver com a discussão de caráter estrutural aqui mantida.

Alguns argumentam que os EUA não desejam e não pretendem assumir nenhum papel imperialista e se por acaso ostentam por vezes atitudes desse tipo seria de maneira relutante. Como acontece com todos os impérios, os EUA atuam de maneira unilateral, mesmo se eles necessitam manter um certo grau de cooperação e de diálogo com os demais países relevantes no jogo mundial de poder – como a China e a Rússia, por exemplo – para reduzir os custos da política de segurança, ou com parceiros de importância menor, para assegurar o acesso a recursos estratégicos – como o petróleo –, na medida em que nenhuma economia, atualmente, é totalmente auto-suficiente. Na atual economia internacional, todos os países são interdependentes, ainda que, como na fábula de George Orwell sobre a igualdade na fazenda dos animais, alguns seja mais interdependentes do que outros.

Os EUA são esse parceiro “mais igual” que todos os outros, insuscetíveis de adotar um comportamento mais conforme os padrões da normalidade multilateral de nossos dias. Poderiam eles atual de forma menos abertamente unilateral, perseguindo seus mesmos objetivos de segurança nacional e de garantias de acesso para suas empresas multinacionais, através da cooperação internacional? Provavelmente, mas isto requereria uma certa restrição de meios, paciência e uma disposição para esperar por resultados limitados através de um lento processo de “consensus building”.

Os impérios normalmente preferem (e pretendem) acelerar o curso da história, atuar mediante “quick fixes” segundo sua própria visão do mundo e, sobretudo, eximir-se de qualquer preocupação com as prioridades e preocupações dos demais parceiros do sistema internacional (que sempre constituem fatores limitativos em termos da sua própria soberania ou liberdade de ação).

Na verdade, se formos examinar o registro histórico, constataremos facilmente como os EUA sempre atuaram – ou quase sempre, admitamos – segundo essa concepção “benevolente” de sua missão hegemônica mundial. Assim ocorreu em 1917, nos campos do norte da França, foi o caso igualmente na Segunda Guerra Mundial, em primeiro lugar apoiando a resistência da Grã-Bretanha contra o poderio nazista, logo depois comandando a coalizão que veio em socorro da União Soviética e que, com outros aliados nos teatros europeu e asiático, libertou os territórios da França e da Itália do jugo nazi-fascista, assim como a China e outros países da Ásia da dominação japonesa. Provavelmente não foi o caso em 1898 e de todas as demais ações subsequentes tomadas no imediato entorno geográfico do nascente império americano, antes e depois do “corolário Roosevelt” à doutrina Monroe, mas o próprio das potências imperialistas é a falta de coerência (ou talvez a coerência unicamente com seus interesses imediatos).

No final do século XIX e início do XX, o mundo vivia uma “situação imperialista” e não há nada que uma história “revisionista” e falsamente moralista possa fazer a esse respeito. As “situações” mudam, seja por bruscas revoluções “anti-imperialistas”, seja em virtude do lento acumular de transformações estruturais, ao cabo das quais tanto as potências imperiais quanto os povos dominados assumem novos papéis no quadro de um sistema internacional em permanente mutação.

Nesse sentido, há motivos para esperar que os EUA poderão – ou serão obrigados a – atuar de maneira menos imperialista um dia. Eles poderão, por exemplo, decidir aderir ao Tribunal Penal Internacional, aceitar a natureza menos que perfeita e assinar alguns dos arranjos multilaterais em matéria de meio ambiente, de direitos humanos e de desarmamento (o que implica em certos custos internos), assim como passar a cooperar mais intensamente com outros países e organizações internacionais nos esquemas globais em favor do desenvolvimento. [1]

Um império durável como pretendem ser os EUA, necessitam de uma clara visão do futuro, de maneira a antecipar desafios presentes e modelar desenvolvimentos futuros. A sociedade global emergiu gradualmente de um mundo hobbesiano para o império da lei e do direito internacional. Impérios responsáveis sabem atuar de maneira correta, oferecendo sua contribuição para o fortalecimento do direito internacional e das organizações mundiais. O império americano evoluirá (ou será levado) para essa situação de gradual enquadramento em regras multilaterais consensualmente acordadas. No mundo anárquico da atualidade, o império americano ainda não parece disposto a renunciar a seu papel de polícia global, o que é compreensível do seu próprio ponto de vista. Os demais atores podem não aceitar tal privilégio, mas no mundo da Realpolitik é o que se pode ter nos dias que correm.

A despeito, portanto, de todas essas demonstrações de arrogância imperial e de unilateralismo na atualidade, vistos de uma perspectiva histórica mais ampla, os EUA são, de fato, a mais poderosa força transformadora da humanidade desde o início do século XX e assim deverão permanecer no futuro previsível. Essas mudanças não se conformam necessariamente ao padrão que gostaríamos de ver prevalecer no plano internacional, isto é, um modelo vagamente kantiano de paz durável e de respeito mútuo pelas soberanias dos estados nacionais num quadro de democracias estáveis voltadas, não para a afirmação de seu próprio poderio mas, para a cooperação entre os povos e o desenvolvimento econômico e social. Estas não são, ou não são ainda, as grandes linhas dos eventos que se sucedem no plano internacional no período recente. Pouco a pouco, porém, esse padrão mais kantiano emergirá gradualmente, sepultando com ele os elementos mais brutalmente hobbesianos que ainda possam subsistir no comportamento do Leviathan benevolente com que nos confrontamos atualmente.

O próprio da História é percorrer caminhos contraditórios e atuar de maneira aparentemente paradoxal. Esperemos que desta vez também seja assim.

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Washington, 28 de agosto de 2002

 



[1] Remeto a neu artigo “O boletim do império”, Correio Internacional, coluna semanal do boletim eletrônico do Relnet (Brasília: link: http://www.relnet.com.br/pgn/colunaaj80.lasso, em 9.05.02).