A globalização e as desigualdades:
quais as evidências?
Capítulo 8 do livro de
Paulo Roberto de Almeida:
A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição
política no Brasil
(São Paulo: Editora Códex, 2003; pp. 117-122)
link: http://www.pralmeida.org/htmlLivros/2FramesBooks/58GrdeMudanca.html
Uma das primeiras e mais persistentes acusações lançadas contra a globalização pelos movimentos filosoficamente contrários a esse processo de integração econômica mundial refere-se ao aumento contínuo das desigualdades, tanto entre países como entre os estratos sociais. De fato, ainda que sem muitas provas empíricas para tal afirmação, os críticos da globalização declaram peremptoriamente que ela é não apenas responsável pelo aumento das desigualdades na distribuição mundial da riqueza, como também provoca, naturalmente, a concentração da renda nas mãos dos grupos sociais já abastados, ou seja a minoria de 1% dos privilegiados da liberalização financeira, da abertura comercial e da desregulação estatal.
1. Tendências à divergência e à concentração
na economia mundial
Existiriam evidências concretas nesse sentido? Pode-se atribuir ao
processo de globalização tais efeitos deletérios em termos
de concentração da renda? Comecemos por examinar os dados do problema
e enfoquemos em seguida suas causas prováveis ou mais plausíveis.
Seria preciso adotar uma visão mais histórica e estrutural do
que circunstancial ou conjuntural, uma vez que a globalização
corresponde a um fenômeno histórico que se desenvolve no médio
e no longo prazo, não apenas no curto intervalo das últimas duas
décadas, que correspondem ao final da guerra fria e à eliminação
do desafio socialista seria essa a alternativa efetiva dos adeptos do
slogan um outro mundo é possível? ao modo capitalista
de produção.
Os dados mais consistentes compilados por economistas independentes e pelos
organismos multilaterais encarregados da temática social indicam que
as duas últimas décadas foram marcadas por uma tendência
aparentemente irresistível ao crescimento das desigualdades no plano
global, movimento observável tanto na divergência cada vez maior
entre países ricos e pobres como no aumento da concentração
de renda nos estratos já ricos das populações nacionais.
São fatos que não podem ser negados por estudiosos responsáveis,
ainda que muitas dúvidas persistam quanto à interpretação
dessas tendências de curto (?) prazo. Numa perspectiva de mais longa duração,
porém, observa-se que a distância entre países pobres e
ricos vinha seguindo um padrão uniforme desde o final das sociedades
agrárias e o início das diversas etapas da chamada revolução
industrial, mas o processo se acelerou entre o final da segunda (eletricidade
e automóvel) e o deslanchar da terceira revolução industrial
(informática, biotecnologia). Em outros termos, a distância entre
a sociedade mais rica e a mais pobre do planeta não de todo insuperável
quando todas as economias partilhavam de um mesmo perfil agrícola de
subsistência começou a aumentar ao final do século
XIX e aprofundou-se dramaticamente nas últimas décadas do XX.
Se, digamos, o diferencial entre os Estados Unidos e a Somália representava
algo como 1-80 em 1870, essa proporção deve ter aumentado para
1-250, por exemplo, no começo do século XXI.
O mesmo fenômeno não ocorreu, entretanto, no que diz respeito à
distribuição intersetorial (ou interclasses) da renda disponível.
A curva foi persistentemente no sentido da redução das desigualdades
nacionais entre o final do século XIX e os três primeiros quartos
do XX, com uma inversão da tendência desde então. Ou seja,
a renda tornou-se mais desigualmente distribuída nas duas últimas
décadas, que correspondem, grosso modo, à aceleração
da terceira onda da globalização capitalista (após a primeira
fase das grandes descobertas e estabelecimento dos impérios coloniais,
e a segunda fase de expansão capitalista durante a belle époque,
até 1914). Dessa evidência os detratores da globalização
retiram elementos para responsabilizá-la pelas tendências à
concentração de renda e sua má distribuição
no plano global.
2. O peso da demografia: a globalização promove a transição
Quais seriam os fatores estruturais e conjunturais de fato
responsáveis pelo aumento na desigualdade mundial da renda? Em primeiro
lugar, os diferenciais de natalidade entre os países já medianamente
desenvolvidos no final do século XIX e os mais pobres, taxas que chegam
ao dobro, ou mais que isso, entre países da Europa e as nações
menos desenvolvidas da África, por exemplo. Ou seja, isso é algo
que a globalização não pode ser acusada de ter provocado,
pois que corresponde a uma evolução histórica estrutural
das sociedades nacionais, no sentido de uma transição demográfica
quando a própria sociedade ingressa num determinado patamar de desenvolvimento.
De fato, a globalização tem servido para diminuir as altas taxas
de natalidade e de mortalidade nos países dramaticamente empobrecidos,
ao disseminar remédios, métodos de prevenção de
doenças e, de forma geral, ao permitir a expansão do saneamento
básico via programas do Banco Mundial e dos bancos regionais, ademais
do próprio desenvolvimento da cooperação bilateral de caráter
assistencial e humanitário. Nunca, como na globalização,
as ONGs foram tão ativas nos cantos mais recuados e mais miseráveis
do planeta.
3. Mudanças tecnológicas: os fatores determinantes são
domésticos
Em segundo e mais importante lugar, a mudança tecnológica
e os diferenciais de produtividade entre as economias já avançadas
e aquelas que simplesmente não contam com a mínima infra-estrutura
material e humana para fazê-las avançar na escala do desempenho
econômico. Trata-se, provavelmente, do fator mais determinante das desigualdades
acumuladas ao longo da segunda e da terceira etapa (em curso) da revolução
industrial entre países ricos e pobres. Como se trata de um fator cumulativo
e auto-reforçado, a escalada no processo de agregação de
valor tende a ser contínua numa economia dominada pela inteligência,
daí a enorme (e crescente) distância registrada nas últimas
décadas entre uma sociedade desse tipo e outra caracterizada por baixos
padrões educacionais e reduzida capacitação técnica.
Muito embora a globalização possa ter algo a ver com o desempenho
relativo de uma e outra economia (na medida em que a tecnologia pode ser transferida
de um lado a outro), a base é dada no interior das fronteiras, uma vez
que se trata basicamente de formação de recursos humanos.
4. O mito do intercâmbio desigual
Em terceiro lugar, a deterioração dos termos de intercâmbio
(ou a contínua queda nos preços dos produtos primários
em comparação aos dos manufaturados) é usualmente citada
como outro fator de divergência entre economias ricas e pobres, mas trata-se
aqui de fator imanente, tradicional na relação entre
produtores primários e economias sofisticadas, não de realidade
nova, criada pela globalização das duas últimas décadas.
Ainda assim, não há nada de provado na chamada teoria do intercâmbio
desigual, e tampouco essa realidade impediria a agregação
de valor na produção primária (via pesquisa genética,
melhoria dos cultivos e processos produtivos etc., algo mais suscetível
de ocorrer na globalização do que fora dela), de maneira a aumentar
a competitividade desse tipo de produção. De toda forma, a elasticidade-renda
da oferta agrícola (inferior a um) recomendaria a passagem a linhas produtivas
com maior capacidade de agregação de valor, o que, manifestamente,
só pode ser feito dentro da globalização, não à
sua exclusão.
5. Globalização financeira: para o bem e para o mal
Em quarto lugar, os problemas financeiros decorrentes da abertura aos capitais
internacionais também costumam ser apontados como fonte de fragilização
e de crises, usualmente sob a forma de armadilha da dívida
(juros altos provocando exposição ainda maior e daí nova
deterioração das condições de crédito), processo
efetivamente vinculado à globalização financeira. Como
se trata de opção, antes que obrigação, nada nem
ninguém comanda um alto endividamento aos países que se abrem
aos fluxos financeiros, a menos, é claro, que haja uma deterioração
das contas internas, algo mais rapidamente sancionável em ambiente globalizado
do que no isolamento nacional. A correlação desse fator
que está, sim, vinculado diretamente à globalização
com o aumento das desigualdades é, assim, puramente circunstancial,
já que a ampliação do mercado de capitais traz, por definição,
uma melhoria de bem-estar aos que dele se beneficiam. A distribuição
dos benefícios e seus efeitos redistributivos, no entanto, têm
a ver com outro conjunto de políticas fiscais, tributárias,
regulatórias ou setoriais, na indústria, nos serviços etc.
que escapam do ambiente globalizado e se situam inteiramente no quadro
da competência nacional.
Ou seja, a maior parte dos fatores que detectamos como vinculados a um eventual
aumento das desigualdades no plano internacional tem pouco a ver com a globalização
em si, sendo mais tributários de políticas nacionais do que da
importação imaginária de capitais voláteis,
das chamadas perdas internacionais ou de outros elementos como a
tão vilipendiada quanto incompreendida internacionalização
financeira. Esta poderia ser combatida, dizem alguns proponentes da antiglobalização,
por uma taxa sobre os fluxos de capitais voláteis, a chamada taxa Tobin.
Mas, se formos examinar o funcionamento desse novo imposto, seremos forçados
a constatar que independentemente de sua operacionalização
ele apenas teria como conseqüência prática o aumento
dos custos de transação, onerando um pouco mais países
tomadores de recursos como o Brasil, sem diminuir em nada a volatilidade,
que está mais embutida nas economias nacionais do que agregada ao capital
internacional.
6. A globalização como bode expiatório de políticas
nacionais
Finalmente, não se deve deixar de reconhecer o aumento das desigualdades
de renda nos próprios países desenvolvidos, nas duas últimas
décadas. Mas essa realidade parece estar mais vinculada a outros fatores
dentre os quais, por exemplo, a extensão e a cobertura das políticas
domésticas com impacto social indireto (saúde, educação,
habitação etc.) ou direto na área distributiva (alocações
sociais, progressividade tributária) , que muitas vezes independem
do grau de abertura da economia ou da chamada globalização para
produzir efeitos nefastos do ponto de vista da distribuição de
renda. A globalização gera, sim, novas oportunidades de criação
e apropriação de renda, na medida em que amplia mercados, movimenta
capitais de um lado a outro do planeta, aproveita ganhos de escala, remunera
os mais aptos ou os mais competitivos (que por vezes podem ser trabalhadores
com salários relativamente mais baixos, ou menos tributados, do que seus
equivalentes nos países desenvolvidos) enfim, é um processo
que redistribui riquezas, independentemente de seu grau de concentração.
No mais das vezes, ela é neutra do ponto de vista distributivo, e cabe
aos países e às sociedades nacionais aproveitarem as oportunidades
abertas por ela para que seus cidadãos tenham o maior nível de
remuneração possível.
Infelizmente, não se descobriu ainda a fórmula mágica que
fará com que a riqueza criada pelo modo de produção capitalista
seja distribuída de maneira mais equânime entre todos os participantes
do novo jogo econômico planetário. Os estadistas e formuladores
de políticas públicas estão contudo livres para tentar
encontrar a maneira mais eficiente de realizar esse objetivo, manipulando o
conjunto de instrumentos fiscais, tributários, alocativos, assistenciais,
educacionais à disposição dos economistas, sejam
eles keynesianos ou não. Uma coisa porém é
certa nesse arsenal de medidas de efeito indutivo do jogo econômico: a
globalização pode complicar um pouco mais o cálculo econômico
nacional, mas, sem ela, nas condições da economia mundial do século
XXI, dificilmente haverá riqueza para ser distribuída.