A Política exterior do Império para as repúblicas do Pacífico
Paulo Roberto de Almeida
Prefácio a
Luis Cláudio Villafañe Gomes Santos
O Império e as repúblicas do Pacífico: as relações do Brasil com o Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, 1822-1889
(Curitiba: Editora da UFPR, 2002, 178 pp; ISBN: 85-7355-100-4), pp. 7-11.
De forma similar ao conceito empregado, até o final do século
XIX, nos mapas dos colonizadores ocidentais para descrever territórios
desconhecidos no interior da África ou da América do Sul, este
livro penetra em terras incógnitas para a historiografia brasileira.
Com efeito, o jovem historiador Luis Cláudio Villafañe Gomes Santos
decidiu explorar terras e povos que não costumam frequentar o cenário
da produção histórica brasileira, ou pelo menos não,
com tal grau de detalhe, o cahier de route de nossa história diplomática
do Oitocentos. Ao que eu saiba, trata-se do primeiro estudo abrangente, sistemático
e de longa duração, sobre como, porquê e sob quais condições
a diplomacia imperial formulou e executou uma política externa especificamente
desenhada para as repúblicas americanas do Pacífico, em estreita
simbiose com aquela que era posta em marcha no Prata e levando em consideração
as ações e motivações das grandes potências
na região (em primeiro lugar, os imperialismos europeus, mas crescentemente
também a grande república do Norte).
Um tal desconhecimento histórico surpreenderia, entretanto, nossos diplomatas
do Império que, depois obviamente das principais potências européias
e das “repúblicas” do Prata (concedamo-lhes este epíteto
por vezes pouco adequado para a primeira metade do século), atribuíam
grande importância ao relacionamento da monarquia bragantina com esse
conjunto heteróclito de países unidos pelo mesmo movimento independentista
(de inspiração bolivariana), mas separados pela geografia e por
uma história de pequenas querelas intestinas e muitas tendências
ao caudilhismo.
Essas repúblicas tinham relevância não tanto pelo que pudessem
representar como oportunidades de comércio ou de intercâmbios humanos
– de fato muito poucas, pois vastas florestas, pântanos pestilentos
e escarpas íngremes as separavam do Brasil – mas pela potencial
ameaça política e ideológica que poderia representar para
a única monarquia do hemisfério (aliás unida por laços
familiares e de identidade cultural a casas reinantes, e reivindicantes, da
velha Europa) um grupo de Estados de certa forma animados pelo fervor revolucionário
e pelos ideais republicanos que os tinham visto nascer. Não por acaso,
o grande historiador José Honório Rodrigues insistia em enfatizar,
nas aulas de história diplomática dadas em meados dos anos 1950
no Instituto Rio Branco, o que lhe parecia ser os três grandes princípios
de nossa política exterior desde 1822: a) a preservação
de nossas fronteiras contra as pretensões de nossos vizinhos e a política
do status quo territorial; b) a defesa da estabilidade política contra
o espírito revolucionário, interna (revoltas e secessões)
e externamente (caudilhos do Prata) e, c) a defesa contra a formação
de um possível grupo hostil hispano-americano e uma política de
aproximação com os Estados Unidos.
Como relata Villafañe, o Brasil, “por suas instituições
monárquicas e por sua origem lusa, em contraposição às
repúblicas hispânicas, era visto com desconfiança”,
mas o próprio Bolivar reconhecia, contudo, que o regime monárquico
tinha livrado o Brasil da guerra civil e da anarquia, o que não era o
caso dos demais países da região. A diplomacia imperial, liberada
nas regências das aventuras cisplatinas e das lutas pelo trono português
que tinham paralizado por quase dez anos as iniciativas diplomáticas
do Primeiro Reinado, passa a deitar os olhos sobre os vizinhos americanos. O
Império, preocupado com as fronteiras e a navegação fluvial,
sente a necessidade de um trabalho persistente e tenaz de desarme dos espíritos
e de busca de uma política de “boa vizinhança”, ainda
que em face de uma escassez notória de quadros e de recursos financeiros.
É na região que seriam testados vários princípios
de política externa – como a doutrina do uti possidetis, por exemplo
– que depois seriam incorporados ao patrimônio diplomático
republicano.
Essa orientação americana da política externa imperial
se faz desde a minoridade. No primeiro relatório apresentado pelo titular
da Repartição dos Negócios Estrangeiros à Assembléia
Legislativa em 1831 — para atender a lei da Regência de 14 de junho
de 1831 que determinava a aprovação pelas Câmaras de todo
e qualquer ato internacional bem como a apresentação anual de
informe pertinente —, o Secretário de Estado Francisco Carneiro
de Campos declarava o seguinte: “O Governo, de ora em diante mais franco
e livre em suas deliberações e arbítrios, conta poder fazer
ainda algumas outras economias nas Missões européias, para melhor
estabelecer e dotar as da América. Estou convencido que conquanto nós
tenhamos tido até agora, e talvez por muito tempo ainda devamos continuar
a ter, as maiores relações com o antigo mundo, convém todavia
principiar desde já a estabelecer e apertar com preferência os
vínculos, que no porvir devem ligar muito estreitamente o sistema político
das associações do hemisfério americano, partes componentes
deste grande todo, aonde a natureza tudo fez grande, tudo estupendo; só
poderemos ser pequenos, débeis e pouco respeitados, enquanto divididos.
Talvez uma nova era se aproxima, em que as potências da América,
pejando-se de suas divisões intestinas à vista do exemplo de concórdia,
que nós lhes oferecemos, formem uma extensa família, e saibam
com o vigor próprio da liga robusta de tantos povos livres repelir com
toda dignidade o orgulho, e pretensões injustas das mais infatuadas nações
estranhas. O continente imenso, que banhado pelos dois grandes mares, quase
toca ambos os pólos, oferece na grande variedade das suas latitudes e
climas, distintíssimos produtos, que dando sempre o necessário
à vida, podem ainda fornecer matéria e alimento ao mais extenso
comércio: a colocação de cônsules inteligentes nos
lugares apropriados animará a concepção e desenvolvimento
das mais acertadas especulações mercantis”.
As “especulações mercantis” continuaram modestíssimas
por muitos anos ainda – praticamente até o advento da ALALC, em
1960, e, mais perto de nós, do Mercosul nos anos 90 – mas o intercâmbio
de diplomatas, pelo menos, começou a se fazer de maneira mais freqüente.
Em algumas épocas, porém, o despacho de missões diplomáticas
mais se assemelhava ao das “embaixadas renascentistas” – isto
é, o envio com uma certa pompa de uma delegação que passava
meses viajando de um lado a outro, sem dispor de uma chancelaria fixa, como
ocorreu com Duarte da Ponte Ribeiro – do que propriamente à designação
formal de um residente permanente em cada uma das capitais dessas repúblicas
bolivarianas. A comparação era inclusive destacada pela própria
diplomacia imperial, como lembra ainda Villafañe a partir do historiador
Amado Cervo: “Considera-se a diplomacia americana simples, porém
eficiente, características que a distanciam do fausto e da inutilidade
da escola européia. As relações com os jovens Estados americanos
seriam menos onerosas e trariam mais dividendos ao Brasil”.
No contexto da ordem internacional da primeira metade do século XIX,
ademais dos tratados de “amizade, comércio, navegação
e limites”, que mais prometiam do que cumpriam, o Império necessitava
de capitais e de braços para a lavoura (escravos ou de colonos europeus),
dois elementos fundamentais ao progresso da nação brasileira que
eram ainda mais escassos nos vizinhos sul-americanos. De fato, as jovens repúblicas
americanas, da mesma forma como os Estados Unidos dessa época, não
tinham condições de fornecer os produtos ou os capitais de que
necessitava o Brasil. Daí a persistência da hegemonia européia
(em primeiro lugar da supremacia inglesa) em matéria de manufaturas importadas,
de capitais de risco ou de empréstimo, assim como nossa dependência
absoluta dos mercados europeus, até que a ascensão do café
deslocasse o eixo do intercâmbio comercial para os Estados Unidos. A baixa
incidência das repúblicas do Pacífico nas trocas externas
do Brasil não impedia, porém, um atento seguimento por parte da
diplomacia imperial de sua política interna e, sobretudo, de suas relações
regionais (o poderio chileno logo desponta com toda força) e internacionais,
como evidenciado pela análise atenta e pela reconstituição
histórica cuidadosa de Villafañe.
Quando Luis Cláudio defendeu esta obra como dissertação
de mestrado na UnB, lá se vão praticamente mais de dez anos, reconhecendo
imediatamente o valor do trabalho (que em muito transcendia as modestas dimensões
da monografia que normalmente se exige de um candidato a mestre), eu lhe disse
de chofre: “Mas isto é praticamente uma tese de doutorado!”,
o que lhe arrancou um sorriso de satisfação. Talvez por isso ele
me tenha dado agora o prazer de prefaciar um estudo original que merece, tanto
quanto outras teses de doutoramento porventura laborando em terreno virgem,
figurar entre as obras de referência fundamentais de nossa parca historiografia
diplomática sobre as relações regionais.
A tese de doutoramento viria mais tarde, estando hoje consolidada num importante
trabalho sobre o Império e o interamericanismo, cobrindo o período
que se estende do congresso do Panamá, em 1826, até a primeira
conferência americana de Washington, em 1889-1890 (na qual o Brasil entrou
como monarquia e saiu como república). Dotada de igual profundidade analítica
e recorrendo a uma documentação primária que já
lhe era familiar desde meados dos anos 80, essa nova obra, sob o título
de A Invenção do Brasil, promete consagrar Luis Cláudio
Villafañe Gomes Santos como o grande historiador de nossa diplomacia
para a América do Sul. Num momento em que o Brasil pretende criar um
novo sistema de relações regionais que supere o difuso conceito
de América Latina em favor da noção bem mais concreta de
América do Sul, os estudos históricos de Luis Cláudio dão
a base indispensável a partir da qual analisar nossos interesses permanentes
numa vasta região que constituiu, nas palavras de Celso Lafer, nossa
circunstância geográfica incontornável. Espero que dentro
em breve, com a possível publicação dessa nova obra em
edição comercial, os estudiosos dessa problemática possam
ter a satisfação de ler a continuidade deste excelente trabalho
de pesquisa histórica que agora tive o privilégio de prefaciar.
Paulo Roberto de Almeida
Washington, novembro de 2001