A pesquisa
histórica sobre o Brasil nos arquivos americanos:
o resgate de fontes
primárias na perspectiva das relações Brasil-EUA
Paulo Roberto de Almeida
Doutor em Ciências Sociais, diplomata
(http://pralmeida.tripod.com; pralmeida@brasilemb.org)
Francisco Rogido Fins
Mestre em História pela UFRJ (rogido@earthlink.net)
Revista
Brasileira de Política Internacional
(Ano 44, n. 1, 2001, pp. ; http://www.ibri-rbpi.org.br)
Via Mundi, Boletim de análise
do estado da arte em relações internacionais
(Brasília: Rel-UnB; nº 4,
abril-junho 2001, pp. 2-6, www.relnet.com.br)
A identificação e a recuperação, em benefício dos pesquisadores brasileiros, das fontes primárias dos Estados Unidos relativas à história do Brasil independente devem ser vistas na perspectiva das relações políticas, econômicas e culturais, entre os dois maiores países do hemisfério americano, como apresentado na presente nota. A implementação de um projeto sistemático de levantamento e reprodução dessas fontes confirma sua importância para a pesquisa sobre a história econômica, política e social do Brasil, sobre o relacionamento bilateral do País com a potência americana e com os demais parceiros regionais, assim como sobre suas relações internacionais de modo geral.
Os arquivos tradicionais e a hegemonia
das fontes européias na pesquisa histórica
O primeiro representante
diplomático do Brasil nos Estados Unidos, José Silvestre Rebelo,
ministro em Washington de 1824 a 1829, pediu, de volta ao País, que o
Legislativo autorizasse o Ministro dos Negócios Estrangeiros a mandar
adidos ao estrangeiro a fim de copiar manuscritos importantes relativos ao
Brasil. A proposta, junto com as instruções para o primeiro
adido, foi aprovada, segundo consta da ata de uma das primeiras sessões
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838 em
torno da idéia de promover a história e o conhecimento
geográfico da Pátria. [1]
Rebelo tinha em mente antes os
países ibéricos e os demais países europeus do que os
Estados Unidos, já que a jovem república americana ostentava,
então, uma história de autonomia política apenas algumas
décadas mais longa do que a do próprio Império do Brasil.
Assim foi feito: o primeiro pesquisador público brasileiro, José
Maria do Amaral, foi removido da Legação em Washington, por
decreto de 23 de agosto de 1939, para as representações em Madri
e Lisboa, a fim de, segundo informa José Honório Rodrigues,
“coligir documentos que pudessem interessar à história do
Brasil, na conformidade das instruções que enviaria o Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, com o qual deveria manter-se
em constante e direta correspondência”. Mas Amaral, nas palavras de
Honório, “não estava preparado para essas tarefas, ao
contrário de Varnhagen, que o [iria] substituir”. [2]
Varnhagen, nomeado adido de primeira classe em Lisboa em 1842, passa o restante
dessa década na capital portuguesa e em Madri, fazendo
anotações nos arquivos e copiando documentos que ele julgava
relevantes para a nossa história política. Daí resultaria
a História Geral do Brasil, publicada entre 1854 e 1858, quando Varnhagen
já tinha sido nomeado secretário do Instituto.
De fato, as principais fontes
para a história colonial brasileira encontram-se nos arquivos
portugueses e espanhóis, complementados pelos da França, dos
Países Baixos, da Inglaterra e da Itália, como confirmado pela
seleção de países integrantes da primeira fase do Projeto
Resgate “Barão do Rio Branco” que, sob a
coordenação do Ministério da Cultura (contando com a
orientação técnica de Esther Caldas Bertoletti), vem
efetuando a compilação da documentação
histórica sobre o Brasil colonial existente no exterior. O Projeto
Resgate, estimulado pelas comemorações dos 500 anos do
descobrimento, realizou um magnífico empreendimento que resultou na
publicação, em cooperação com as secretarias
estaduais de cultura, fundações locais e universidades, de
coleções inteiras de documentos manuscritos avulsos e em
códices, coletados basicamente nos arquivos portugueses. Os documentos
originais foram microfilmados e depois digitalizados, tendo sido oferecidos a
bibliotecas e universidades em formato de CD-ROMs, acompanhados dos respectivos
catálogos impressos. O Projeto Resgate encontra-se igualmente publicando
guias das fontes primárias sobre o Brasil colonial nos arquivos europeus
mais importantes nessa área: holandeses, espanhóis, franceses e
italianos.
Se a história colonial
do Brasil pode, a rigor, dispensar a consulta a arquivos americanos (a despeito
de algumas excelentes coleções de manuscritos e de obras raras
relativas ao período, existentes na Library of Congress ou em
bibliotecas universitárias como a John Carter Brown ou a Oliveira Lima),
o período independente e, sobretudo, o republicano não podem, em
qualquer hipótese, excluir as fontes primárias existentes nos
Estados Unidos. Os dois países têm uma longa história de
relações diplomáticas, que vem desde antes da
independência (o primeiro ministro americano se instalou no Rio de Janeiro
em 1809) e se prolonga até os dias de hoje (com algumas breves
interrupções no período monárquico). Dada a
intensidade dos vínculos econômicos, culturais, militares e de
vários outros tipos, não se pode negar a importância dos
Estados Unidos para a história brasileira, sobretudo ao longo do
século republicano.
Com efeito, as
relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos no
século XX passaram por diferentes situações e atitudes por
parte dos dois governos, da aproximação à
indiferença, da desconfiança à aliança militar, de
uma cooperação tida por exemplar à
competição desigual, nas diversas fases de um relacionamento que
constituiu um elemento central da diplomacia brasileira, mas que representou,
para os EUA, um aspecto secundário de sua afirmação hegemônica
no mundo contemporâneo. Na esfera da sociedade, da economia e da
projeção estratégica, a “presença
americana”, na expressão de Moniz Bandeira, [3]
é propriamente avassaladora e as relações bilaterais
tornaram-se crescentemente intensas, sobretudo nas áreas cultural e dos
investimentos privados, à medida em que o Brasil se inseria cada vez
mais nos circuitos internacionais. Essas diversas fases do relacionamento
bilateral estão perfeitamente consignadas nos arquivos americanos, como
um levantamento preliminar permitiu detectar.
A Embaixada do Brasil em
Washington — que por iniciativa do Embaixador Rubens Antônio
Barbosa já lançou programas ou centros de estudos brasileiros nas
universidades de Georgetown e Columbia e está coordenando a
edição do Guide to the Study of Brazil in the United States,
1945-2000 (em
fase de publicação no Brasil pela Editora Paz e Terra, sob o
título provisório de O Brasil dos Brasilianistas: um guia dos
estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos, 1945-2000) — está propondo
a abertura de um novo capítulo no Projeto Resgate, dedicado desta vez
às fontes primárias existentes nos arquivos americanos. Como
escreveu o representante diplomático brasileiro junto ao governo dos
Estados Unidos, “São milhares de páginas — a maior
parte já microfilmada — que, pela densidade analítica e por
sua importância intrínseca (dada a centralidade dos EUA na
história brasileira, sobretudo depois dos anos 30), apresentam interesse
para os pesquisadores dedicados ao estudo da inserção do Brasil
no cenário mundial e a questões variadas do próprio
ambiente doméstico”. [4]
Os Estados Unidos — enquanto primeira potência hemisférica no século XX e principal potência planetária desde o final da Segunda Guerra Mundial — estiveram presentes em todos os lances importantes da diplomacia brasileira nesse período, assim como ocuparam grande parte da interface externa do Brasil no campo econômico, científico, cultural e tecnológico no último meio século. As relações foram (ainda são) marcadas por uma evidente assimetria nos planos econômico, tecnológico e militar, ainda que o Brasil tenha buscado introduzir, no plano diplomático, maior equilíbrio político, com base na reciprocidade e na igualdade de tratamento.
Uma agenda de pesquisas, tomando
como base os papéis disponíveis para consulta nos arquivos
americanos, abriria espaço para novas interpretações sobre
a história interna e sobre a inserção externa do Brasil ao
longo do século XX, com ênfase no relacionamento bilateral. Os
avanços concentuais e metodológicos da disciplina
histórica no Brasil, assim como a superação de velhos
preconceitos políticos justificam essa “revisão” das
imagens recíprocas, geradas ao longo do regime varguista, nas crises
político-militares da presidência Kubitschek e em especial na
transição para um regime de força e na
construção de um regime autoritário-modernizador no
Brasil, na primeira metade da ditadura militar. Para esse período, os
arquivos americanos estão praticamente abertos. Quais seriam, em
consequência, os grandes temas de interesse no relacionamento bilateral
nos primeiros oitenta anos do século XX, a partir de uma
utilização extensiva dos arquivos americanos?
Os desníveis de desenvolvimento entre os dois países já eram evidentes entre o final do século XIX — quando se assistiu a uma primeira tentativa de integração comercial hemisférica patrocinada pelos EUA, na primeira conferência internacional americana de 1889-1890, um precedente histórico para a Alca — e o início do século XX. A partir de 1902, o Barão do Rio Branco, armado de uma concepção diplomática baseada no equilíbrio de poderes (competição com a Argentina pela hegemonia regional), opera uma política de aproximação com os EUA. Brasil e Argentina buscarão em vários momentos capturar a atenção dos EUA na busca de uma “relação especial” que sempre revelou-se ilusória. O gigante do Norte tinha proclamado o corolário Roosevelt à doutrina Monroe, justificando suas intervenções no entorno imediato como o exercício de um papel de polícia segundo “padrões de civilização” estabelecidos de comum acordo com as potências européias. Alguns dos papéis mais relevantes para o estudo dessas questões não se encontram necessariamente no chamado Record Group 59 – papéis diplomáticos do Departamento de Estado – mas no grupo 43 – conferências internacionais – onde a série 43.2.7 cobre os primeiros dez encontros do sistema interamericano.
A República brasileira introduziu princípios alternativos de política externa, como o pan-americanismo, área na qual o Império tinha mantido um relativo isolamento em relação às repúblicas do hemisfério. O relacionamento tem uma boa partida nos episódios iniciais de afirmação da República, quando, por ocasião das intervenções estrangeiras durante a revolta da Armada, os EUA vêm em auxílio do novo regime, contra as inclinações monarquistas de algumas potências européias. Na vertente comercial, um primeiro sucesso é registrado com a assinatura do acordo comercial de 1891, garantindo o acesso do café e do açúcar em condições favorecidas no mercado americano, com a contrapartida da redução das tarifas brasileiras aplicadas a manufaturas e farinhas dos EUA. Esse acordo não vigorou por muito tempo, uma vez que, em 1895, o presidente McKinley, sob pressão de lobbies setoriais, introduzia uma tarifa protecionista terminando assim com os regimes preferenciais negociados anteriormente. As pesquisas respectivas de Steven Topik, pelo lado americano, e de Clodoaldo Bueno, pelo lado brasileiro, já desvendaram vários meandros diplomáticos da primeira década republicana, mas uma nova consulta aos papéis diplomáticos desse período certmente trará novas luzes sobre uma fase extremamente complexa da história brasileira. [5]
Pelo resto da República velha, as relações bilaterais serão distantes, operando-se, contudo, a gradual substituição de hegemonias na esfera financeira e dos investimentos, a partir do momento em os EUA se convertem em exportadores de capitais, inclusive para o Brasil, que passa do domínio da libra ao do dólar. Credores americanos participam do esquema financeiro do primeiro plano de apoio ao café (1906), que constitui um exemplo de política anti-cíclica para resolver uma crise de demanda. Essa política de retenção de estoques para sustentação dos preços externo do café despertou entretanto a ira de importadores e grupos de consumidores dos EUA, que exigem de seu Governo ações concretas contra a política oficial brasileira a pretexto de práticas anti-concorrenciais. As pesquisas nos arquivos americanos para essa fase são dificultadas pelo fato de que, entre 1906 e 1910, o Departamento de Estado introduziu um confuso sistema de classificação de documentos, o que fez com que os expedientes relativos ao Brasil ficassem dispersos em diferentes maços, que cumpriria, precisamente, identificar, reunir e copiar.
A República dos
“bacharéis” busca inserir o Brasil no “concerto das
nações”, mediante o envolvimento na Guerra e na ulterior
experiência da Liga das Nações, motivo de uma das grandes
frustrações na história da diplomacia brasileira. Os EUA,
que tinham patrocinado o surgimento da Liga, mantêm-se contudo fora dela,
tendo o Brasil abandonado o órgão em 1926. Tanto por parte das
grandes potências européias, como no caso dos EUA, o Brasil se
vê confrontado a posturas externas que vão do desprezo e da soberbia
ao que mais tarde se chamaria de benign neglect. O período de Roosevelt —
que coincide grosso modo com a era Vargas — modificará em parte a
postura isolacionista de seus predecessores, buscando uma nova
relação com os vizinhos da América Latina, mas ele
também coincide com a crise econômica, o fechamento dos mercados e
a ruptura dos equilíbrios internacionais. Os EUA emergem como a
potência militar incontrastável do pós-Segunda Guerra e o
Brasil fará as apostas corretas ao se aliar aos esforços de guerra
e consolidar seu alinhamento ideológico desde o início da Guerra
Fria. É o começo da americanização do Brasil,
processo já analisado por pesquisadores dos dois países. [6]
O Brasil participa, desde a
conferência de Bretton Woods (1944), da construção de uma
nova ordem econômica mundial dominada pelos princípios do
liberalismo de tipo americano. Aqui, novamente, a série 43, relativa
às conferências internacionais, é extremamente rica para
uma pesquisa cuidadosa sobre muitos dos temas em relação aos quais
o Brasil participava como mero espectador, apresentando, se tanto, propostas
tendentes à simples estabilização dos preços das
“matérias-primas”, vale dizer, o café. A
“opção americana” assumida com maior ou menor
ênfase pelos governos brasileiros na era da bipolaridade não
impediu a emergência de uma diplomacia do “desenvolvimento”
no Brasil, como revelado nos diversos maços de conferências
econômicas do imediato pós-guerra, sobretudo no contexto hemisférico.
No mesmo contexto diplomático, seria preciso consultar e recuperar os
papéis relativos ao Brasil do Escritório
de Assuntos Inter-Americanos, que, entre 1937 e 1951, foi politicamente
proeminente nas relações dos Estados Unidos com os países
do hemisfério.
Não obstante a doutrina
da “segurança nacional”, o panamericanismo justifica os
esforços da diplomacia para a “exploração” da
carta da cooperação com a principal potência
hemisférica e ocidental. É nesse quadro de barganhas políticas
e de interesse econômico bem direcionado que o Brasil empreenderá
sua primeira iniciativa multilateral regional, a Operação
Pan-Americana, proposta pelo Governo Kubitschek em 1958 e da qual
resultará, numa primeira etapa, o Banco Interamericano de
Desenvolvimento e, mais adiante, a Aliança para o Progresso. Mais uma
vez, as séries relativas ao relacionamento diplomático bilateral
e às conferências americanas são extremamente relevantes
para uma nova análise dessa fase de grandes inovações na
diplomacia brasileira.
A prática da
política externa independente, nos conturbados anos Jânio
Quadros-João Goulart, representa uma espécie de parênteses
inovador num continuum
diplomático dominado pelo conflito Leste-Oeste. O impacto da
revolução cubana e o processo de descolonização
tinham trazido o neutralismo e o não-alinhamento ao primeiro plano do
cenário internacional, ao lado da competição cada vez mais
acirrada entre as duas superpotências pela preeminência
tecnológica e pela influência política junto às
jovens nações independentes. Não surpreende, assim, que a
diplomacia brasileira comece a repensar seus fundamentos e a revisar suas
linhas de atuação, em especial no que se refere ao tradicional
apoio emprestado ao colonialismo português na África e a recusa do
relacionamento econômico-comercial com os países socialistas. A
aliança preferencial com os Estados Unidos é pensada mais em
termos de vantagens econômicas a serem negociadas do que em
função do xadrez geopolítico da Guerra Fria. Para esse
período, novos papéis estão sendo continuamente trazidos
à luz pelo projeto de pesquisa histórica da Guerra Fria, mediante
o apelo sistemático ao Freedom of Information Act (FOIA). Esse projeto (Cold War
International History Project, www.cwihp.si.edu), administrado pelo
Woodrow Wilson International Center for Scholars, funciona desde 1991 numa base
inter-universitária, podendo abrir novas vertentes para a pesquisa sobre
o envolvimento da América Latina e do Brasil nas peripécias
político-militares da Guerra Fria.
A situação de
ambigüidade nas relações diplomáticas com os Estados
Unidos ao longo da “democracia populista” dura pouco, uma vez que
já em 1964 se opera uma volta ao alinhamento. Entretanto, o reenquadramento
do Brasil no “conflito ideológico global” representa mais
uma espécie de “pedágio” a pagar pelo apoio dado
pelos Estados Unidos no momento do golpe militar contra o regime populista do
que propriamente uma operação de reconversão
ideológica da diplomacia brasileira. Os papéis americanos
revelam, contrariamente a certas correntes de interpretação
histórica no Brasil (que tendem a ver uma “uniformidade
adesista” na orientação pró-americana do novo
regime), um jogo sutil, bastante complexo, entre diplomatas ideologicamente
comprometidos com a “nova aliança” e outros, provavelmente a
maioria, favoráveis à continuidade de uma postura própria
nos assuntos internacionais e regionais. Em todo caso, os papéis
diplomáticos precisam nesse particular ser complementados por documentos
da área de inteligência, para um panorama mais detalhado do
período.
Em todo caso, observa-se um
curto período de “alinhamento político”, durante o
qual o Brasil adere estritamente aos cânones oficiais do panamericanismo,
tal como definidos em Washington. Ocorre, numa seqüência de poucos
meses, a ruptura de relações diplomáticas com Cuba e com a
maior parte dos países socialistas, assim como a
participação na força de intervenção por
ocasião da crise da República Dominicana. A política
multilateral, de modo geral, passa por uma “reversão de
expectativas”, para frustração da nova
geração de diplomatas que tinha sido educada nos anos da
política externa independente. Os arquivos diplomáticos
são excepcionalmente prolíficos nesse período inicial do
regime militar, que assiste à conversão do ex-embaixador
americano no Brasil, Lincoln Gordon, antigo acadêmico convertido à
diplomacia, em Secretário de Estado Assistente para Assuntos
Interamericanos. [7]
No plano econômico, a
volta à ortodoxia na gestão da política econômica
permite um tratamento mais benigno da questão da dívida externa,
seja no plano bilateral, seja nos foros multilaterais do Clube de Paris ou nas
instituições financeiras internacionais, como o FMI. É
sintomático que a única assembléia conjunta das
organizações de Bretton Woods a realizar-se no Brasil, tenha tido
por cenário o Rio de Janeiro da primeira era militar, em 1967, quando se
negocia a instituição de uma nova liquidez para o sistema
financeiro internacional, o Direito Especial de Saque do FMI. Os papéis
relevantes para essas questões não são mais os
diplomáticos e sim os do Departamento do Tesouro, que conformam uma
série à parte dos arquivos americanos, com
subseções para os assuntos internacionais, em especial para as
assembléias das instituições de Bretton Woods.
Tem início no Brasil, a
partir de 1967, uma fase de “revisão ideológica” e de
busca de autonomia tecnológica. A atitude “contemplativa” em
relação aos EUA cede lugar a uma diplomacia profissionalizada,
preocupada com a adaptação dos instrumentos de ação
a um mundo em mutação, e instrumentalizada para o atingimento dos
objetivos nacionais de crescimento econômico. Praticou-se uma
“diplomacia do desenvolvimento”, consubstanciada na busca da
autonomia tecnológica, inclusive nuclear, com a afirmação
marcada da ação do Estado no plano interno e externo, mesmo
à custa de conflitos com os EUA (denúncia, em 1977, do acordo
militar de 1952, por motivo de interferência nos “assuntos
internos” do País, de fato na questão dos direitos
humanos). Observa-se no período a confirmação da
fragilidade econômica do País, ao não terem sido eliminados
os constrangimentos de balança de pagamentos que marcaram historicamente
o processo de desenvolvimento: as crises do petróleo, em 1973 e 1979,
seguida pela da dívida externa, em 1982, marcam o começo do
declínio do regime militar.
Em contraste favorável
com a relativa dispersão dos arquivos europeus, os mais importantes
papéis americanos encontram-se concentrados nos National Archives and
Records Administration (NARA), localizado em College Park, no estado de
Maryland, região metropolitana de Washington (ver a disponibilidade de
documentos microfilmados por país no link: http://www.nara.gov/publications/microfilm/diplomatic/diplo-7.html).
Graças aos esforços empreendidos em meados dos anos 80 pelo
sociólogo Luciano Martins, hoje embaixador do Brasil em Havana, boa
parte dessa documentação microfilmada já se encontra
disponível no Brasil. O Arquivo Histórico Diplomático, no
Itamaraty do Rio de Janeiro, possui os papéis diplomáticos
relativos ao século XIX, na verdade de 1809 a 1906, ademais de
expedientes consulares emanados de dez postos, com destaque para o próprio
Rio de Janeiro. O Arquivo Nacional conserva outra série de papéis
diplomáticos, desde 1910 até 1959, com exceção dos
expedientes relativos ao período da Segunda Guerra e do período
1906-1910. Os microfilmes faltantes (algumas dezenas, num total aproximado de
89 rolos) estão disponíveis para aquisição junto
à administração do NARA, ao custo de 34 dólares
cada rolo (o que representaria um volume de recursos equivalente a pouco mais
de 3 mil dólares). O material já disponível no Brasil pode
ser conferido no link http://www.brasilemb.org/arquivos/.
Uma outra parte da
documentação do NARA com relevante potencial para uma pesquisa
sobre aspectos diversos da história do Brasil ainda não foi
totalmente microfilmada ou não está devidamente catalogada em
bases geográficas e, de toda forma, não se encontra
disponível para consulta no Brasil. Encontram-se eventualmente nessa
situação papéis do Tesouro (os arquivos se estendem de
1775 a 1990), do Departamento do Comércio (1898-1982), do Eximbank
(1933-1975), da Comissão de Energia Atômica (1923-75), da
International Trade Commission (1882-1971), dos antecessores do US-Trade
Representative (1934-78), sem esquecer os arquivos presidenciais (como os de
Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Carter e Reagan, para ficar nos mais
conhecidos) e os papéis da própria CIA, cujos antecedentes
funcionais remontam a 1894. Estes últimos podem ser requisitados para
consulta mediante o dispositivo do FOIA, mas o prazo para que os documentos
sejam liberados após a requisição pode variar, por
razões administrativas, de três a seis meses. A
implementação do Projeto Resgate-EUA poderia completar as lacunas
existentes na documentação, por meio de um apelo sistemático
ao FOIA nas séries relevantes.
A Embaixada em Washington está realizando um levantamento preliminar sobre o conjunto das fontes documentais do NARA sobre o Brasil e pretenderia, mediante a implementação do Projeto Resgate-EUA, realizar as seguintes tarefas:
(c) identificação precisa dos arquivos existentes e sua quantificação preliminar, nos formatos disponíveis (microfilmes, textuais, iconografia, audiovisuais);
(b) preparação de um Guia
sintético realizando esse inventário para fins de
informação dirigida à comunidade dos pesquisadores
brasileiros e à sociedade civil;
(c) catalogação precisa dessas fontes primárias, envolvendo, numa primeira etapa, a documentação diplomática, estendendo-se posteriormente a arquivos adicionais;
(d) aquisição dos microfilmes
disponíveis no NARA, bem como reprodução de material
relevante ainda não microfilmado, segundo escala de prioridades a ser
definida (iniciando provavelmente pelo material dos anos 60).
Com base na
catalogação será possível iniciar-se a
reprodução dos documentos ainda não disponíveis no
Brasil, sua transferência a arquivos brasileiros e sua
transposição em formato digital. A documentação
assim recolhida poderá ser colocada à disposição
dos arquivos brasileiros (Arquivo Nacional e Arquivo Histórico Diplomático),
da Biblioteca Nacional, bem como, mediante sua reprodução em meio
eletrônico, de outros centros de pesquisa e universidades interessadas.
Ele deverá igualmente integrar a base de dados do Projeto Resgate, que
está sendo preparada pelo MinC para divulgação via
Internet. O Projeto Resgate-EUA, cuja efetivação depende da
obtenção de recursos de fontes oficiais e privadas, pode ser
visto como uma demonstração da dedicação e
seriedade com que iniciativas de tipo acadêmico vem sendo conduzidas pela
Embaixada do Brasil em Washington.
18 de Abril de 2001
Revisão: 6 de Junho de 2001
[1] Sessão de 7 de junho de 1839, in Revista do IHGB, t. 1, pp. 151, 257-59, apud José Honório Rodrigues, A Pesquisa Histórica no Brasil, 3ª ed., São Paulo : Companhia Editora Nacional; Brasília, INL, 1978, p. 39.
[2] Cf. Rodrigues, op. cit., p. 39.
[3] L. A. Moniz Bandeira, Presença dos Estados Unidos no Brasil: dois séculos de história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973; 2ª ed., rev.: Relações Brasil-EUA no contexto da globalização: I - Presença dos EUA no Brasil. São Paulo: Editora SENAC-São Paulo, 1998.
[4] Cf. Rubens A. Barbosa, “A história do Brasil nos arquivos dos Estados Unidos”, Folha de São Paulo, 16.02.2001, p. 3, artigo disponível em: http://www.brasilemb.org/arquivos/01_apresenta.htm.
[5] Cf. Steve Topik, Trade and Gunboats: The United States and Brazil in the Age of Empire. Stanford, Calif.: Stanford University Press, 1996; Clodoaldo Bueno, A República e sua Política Exterior (1889 a 1902). São Paulo: Universidade Estadual Paulista; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1995.
[6] Cf. Gerson Moura, Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. São Paulo: Brasiliense, 1986; Gerald K. Haines, The Americanization of Brazil: a study of U.S. cold war diplomacy in the Third World, 1945-1954. Wilmington, Del.: SR Books, 1989
[7] O ex-embaixador americano no Brasil (1961-1966) Lincoln Gordon acaba de publicar nos Estados Unidos, com previsão de rápida tradução e edição no Brasil, seu esperado livro sobre o desenvolvimento político e econômico do Brasil no último meio século, Brazil’s Second Chance: En Route toward the First World (Washington, D.C.: Brookings Institution Press, 2001), no qual inseriu uma seção sobre a questão da participação americana no momento do golpe militar de 1964.