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Retrato
do diplomata, quando maduramente reflexivo
Paulo Roberto de Almeida
Eu
nasci na exata metade do século XX, em São Paulo,
capital. Sou descendente, tanto por parte dos avós paternos
como maternos, de imigrantes pobres, respectivamente de Portugal
e da Itália, todos chegados ao Brasil no início do
século, para trabalhar nas fazendas de café da então
aristocrática elite cafeeira de São Paulo e do sul
de Minas. Meu pai nasceu em Rio Claro, interior de São Paulo,
no ano da revolução russa, antes da revolução
bolchevique e depois da revolução de fevereiro, que
derrubou o tzar e a monarquia dos Romanov. A primeira revolução
ocorreu em fevereiro, a segunda revolução em outubro
(ou em novembro, dependendo se o calendário é o juliano
ou o gregoriano), e meu pai nasceu entre as duas. Minha mãe
nasceu em Poços de Caldas, MG, alguns anos mais tarde. Ambos
vieram pequenos para São Paulo, com meus avós –
mas eles ainda não eram meus avós, obviamente –,
que se mudaram para a capital paulista por motivos que desconheço,
mas que deve ter algo a ver com o abandono das terríveis
condições de trabalho na lavoura cafeeira, onde os
imigrantes europeus eram tratados um pouco melhor, mas só
um pouco, do que os escravos que eles vieram substituir a partir
de 1888.
Não sei como meus
pais se conheceram, mas sei, em todo caso, que eles não chegaram
a terminar a escola primária, tendo ambos de começar
a trabalhar desde muito cedo para ajudar nas despesas domésticas,
nas casas dos meus avós, obviamente (que só mais tarde
se tornaram meus avós). Eu também comecei a trabalhar
muito cedo, para ajudar em casa, na casa dos meus pais, evidentemente,
depois que eles se tornaram meus pais, na exata metade do século
XX, como já disse. Até onde alcançam minhas
lembranças de infância, eu sempre trabalhei, mas pelo
menos terminei a escola primária, a secundária, a
pós-graduação e tudo o mais que tive direito
a fazer numa vida de estudos, que infelizmente começou muito
tarde paraa meus padrôes atuais. Sim, só aprendi a
ler na tardia idade dos sete anos, que foi quando eu finalmente
entrei para a escola, como acontecia com o sistema de ensino público
nos anos 1950. Antes disso freqüentei o parque infantil e,
bem mais importante, a biblioteca pública infantil, pertos
de minha casa, no bairro paulistano do Itaim-Bibi, naquela época
chamado de “chácara Itaim” (um pequeno aglomerado
de casas humildes, ruas de terra e muitos terrenos baldios, onde
jogávamos “peladas” de futebol).
Comecei a freqüentar
a biblioteca infantil “Anne Frank” ainda antes de aprender
a ler, para jogos e sessões de cinema (Oscarito e Grande
Otelo eram os meus heróis cinematográficos). Quando
chegou a hora de começar o primário, no ano em que
completei sete anos, ensaiei um movimento de recusa, no que fui
questionado pela minha mãe sobre a razão de não
querer ir para a escola. O motivo, bastante plausível, já
demonstrava minha responsabilidade em face do estudo e da minha
condição de “analfabeto” até então:
“Não posso ir para a escola”, respondi, “porque
eu não sei ler”. Motivo recusado, fui inscrito compulsoriamente
no “Grupo Escolar Aristides de Castro”, onde passei
os cinco anos do primeiro ciclo: quatro obrigatórios da escola
primária e um quinto ano de “admissão”
(ao ciclo médio, então chamado de ginasial, que fiz
no Vocacional).
O mais importante, porém,
foi que, assim que aprendi os rudimentos da leitura, passei a ler
todos os livros da biblioteca infantil, não apenas durante
tardes e tardes seguidas, mas também em casa, já que
eu sempre retirava livros para continuar a ler pela noite. Não
tínhamos televisão então, o que muito me ajudou
em meus hábitos de leitura. Monteiro Lobato, Emilio Salgari,
Jules Verne, Karl May, foram alguns dos autores que acompanharam
minha infância e a primeira adolescência e a eles devo
grande parte do meu enorme conhecimento do mundo, sua história
e geografia, além das ciências e das artes. Acho que
me tornei autodidata desde o primeiro livro, uma característica
que conservei durante toda a vida. A partir de um certo momento
deixei de prestar atenção ao que se dizia em aula,
desde a metade do “colegial” pelo menos, e passei inclusive
a não freqüentar as salas de aula: tudo o que sei, aprendi
nos livros, em todo tipo de leitura, da extrema esquerda à
suas antipodas, sem nenhum preconceito “religioso”.
Trabalhei desde muito
cedo, como disse, primeiro recolhendo sobras de metal de fábrica
para vendas ao “ferro velho”, a versão artesanal
do moderno sistema de reciclagem. Depois fui pegador de bolas de
tênis no Esporte Clube Pinheiros e empacotador no supermercado
Peg-Pag. Meu primeiro emprego com registro em carteira deve ter
sido aos 14 anos, como office-boy no Moinho Santista, no centro
da cidade. Nessa época passei a freqüentar a biblioteca
da Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, muito
mais interessante em termos de livros sérios do que a pequena
“Anne Frank”. Comecei a ler Celso Furtado, Caio Prado
Jr, os sociólogos paulistas e toda a literatura marxista,
a começar por um resumo do Capital por J. Duret, numa tradução
das Éditions Sociales. O golpe militar impulsionou minha
politização precoce e, em pouco tempo, eu já
estava nas ruas, protestando com outros jovens e adolescentes contra
a ditadura militar, contra o capital estrangeiro e o imperialismo
americano. O mundo era mais simples então: tínhamos
duas alternativas político-econômicas, e quem não
era revolucionário e socialista, como éramos nessa
juventude de rebeldia contra os poderes constituídos, a dominação
estrangeira e a situação de pobreza que caracterizava
grande parte da população (minha família, inclusive),
era apenas indiferente, pois poucos eram os que se proclamavam abertamente
capitalistas ou liberais. Essa segunda opção nunca
foi muito popular no Brasil, aliás até hoje.
Naturalmente impulsionados
pelo romantismo guevarista, radicalizamos na oposição
ao regime militar, recorrendo inclusive à luta armada, e
nisso fomos fragorosamente derrotados, mais por nossos próprios
equívocos políticos do que pela “repressão”
do regime militar. Alguns desapareceram, outros foram “eliminados”
– por diferentes vias – e muitos foram para o exílio,
eu inclusive, ainda que por vias legais e conservando o passaporte.
Primeiro, em 1971, passei pelo socialismo – na Tchecoslováquia
pós-repressão ao “socialismo de face humana”,
de 1968 – e constatei uma coisa da qual já suspeitava
bem antes: o socialismo, em sua versão soviética,
simplesmente não funcionava, era uma imensa mentira, uma
sociedade condenada ao passado, na qual as misérias morais,
humanas, eram ainda maiores do que as misérias materiais,
a da escassez cotidiana, a da penúria institucionalizada
em modo de produção. Enfim, uma verdadeira mentira,
com perdão pelo paradoxo. Depois, me instalei no capitalismo
– em Bruxelas, na Bélgica –, onde encontrei condições
de estudar e de trabalhar. Continuei em meu autoditatismo radical,
passando mais tempo na biblioteca do Instituto de Sociologia do
que nas aulas do curso de graduação em Ciências
Sociais (que eu tinha largado no segundo ano da USP, depois da cassação
dos mestres).
Foram seis anos e meio de intensas leituras, entre a graduação,
o mestrado – em economia internacional, na Universidade de
Antuérpia – e o começo de um doutorado, ao início
de 1977, interrompido pela minha volta ao Brasil. Daí ao
ingresso na carreira diplomática foram poucos meses, de muita
atividade e de muitos projetos. O regime ainda era autoritário,
mas na sua fase declinante. Em todo caso, dei início a uma
dupla carreira, a de servidor público federal e a de professor
universitário, que conservo até hoje, com satisfações
e decepções em ambas.
As lides diplomáticas
e as universitárias me confirmaram – como ocorre em
quase todas as atividades humanas – que coexistem excelências
e mesquinharias em todas as trajetórias permeadas por burocracias
relativamente auto-suficientes. Trabalhei, e continuo trabalhando,
intensamente em ambas, delas retirando gratificações
pessoais, profissionais e intelectuais. Também constatei
que pequenos ciumes e atos de puro despeito ocorrem das formas inesperadas.
Nunca escondi o que penso das coisas, na política e na economia,
o que nem sempre é recomendado em burocracias de tipo feudal
como podem ser as instituições nas quais trabalho.
Continuei refletindo, escrevendo e publicando o que penso ser um
reflexo honesto de minhas leituras e pesquisas em ambos ambientes
de trabalho. Nem sempre o que escrevo é bem recebido em cada
um desses meios. Atribuo isso mais à inveja, ou aos ciumes,
do que à oposição ao que tenho a dizer. Afinal
de contas, não creio escrever nada de muito extraordinário.
Se ouso agora fazer uma
síntese do que sou e do que penso, neste limiar do ano de
2007, eis aqui o que eu poderia dizer. Sou intensamente racionalista,
ou seja: não costumo refugiar-me em qualquer tipo de crença,
mas procuro descobrir as raízes e as razões das coisas,
pelas velhas regras do método científico, isto é,
a busca de correlações causais que possam ultrapassar
o impressionimo e o subjetivismo inerentes ao homem, a procura de
explicações que se submetam ao teste da realidade,
ao embasamento empírico, e a prática de um saudável
ceticismo quanto a respostas tentativas em quaisquer campos do conhecimento
humano. Duvidar é bom, buscar a verdade melhor ainda, mesmo
que ela esteja distante, ou seja impossível no momento.
No plano dos valores,
mantenho o otimismo de que a bondade não só é
possível, mas de que ela é capaz de superar a maldade
humana, e esta pode ser incrivelmente infinita. O mundo certamente
não é o lugar ideal que gostaríamos que fosse,
mas ele já melhorou muito em relação ao passado
de mortandades e injustiças. A pobreza ainda é um
fardo pesado para mais da metade da humanidade e todos os meus esforços
intelectuais e práticos estão dirigidos a reduzir,
um pouco que seja, essa fardo, a começar pelo meu país,
pela nação brasileira. Minhas contribuições
para que isso se faça se situam quase todas no plano da reflexão
individual e das proposições em termos de políticas
públicas, aqui num ambiente coletivo que ultrapassa o da
diplomacia. Não sei se tenho sido eficiente nessa “missão”
auto-atribuída, mas entendo que meus esforços didáticos
e o meu desempenho enquanto produtor de textos especializados não
sejam de todo inúteis.
Entendo que devemos procurar
fazer o bem, em quaisquer circunstâncias. Nisso vai até
algum grau de sacrifício pessoal, e talvez até familiar,
para tentar distribuir o bem em torno de si. Espero poder fazê-lo
ainda durante muito tempo, nas minhas formas habituais de atuação,
onde estão minhas “vantagens comparativas”: na
leitura, na reflexão crítica, na escrita, no ensino,
na publicação de textos que possam contribuir para
o aprendizado dos mais jovens.
Neste final de ano de
2006, quando faço um breve balanço de minhas atividades
e creio poder programar algo do que farei em 2007 e nos anos seguintes,
gostaria de resumir o sentido de minha ação da seguinte
forma: ser intelectualmente honesto é um dever das pessoas
que como eu trabalham sobretudo no plano das idéias e da
escrita. Prestar contas do que se faz com o dinheiro público
também é um dever, individual e coletivo, e nisso
sou de uma radical transparência. No mais, creio que devemos
procurar a felicidade e contribuir para a felicidade do maior número
de pessoas. Eu me esforço para contribuir para que esse objetivo
se cumpra na medida das minhas possibilidades, mas não tenho
certeza de ser o mais eficiente possível, ou eficaz, o tempo
todo. Gostaria de acreditar que, olhando para trás, agora
e mais adiante, se possa dizer de mim, um dia: ele fez alguma diferença
para diminuir o grau de sofrimento dos seus semelhantes, tanto quanto
para aumentar o quantum de felicidade humana possível nas
condições que nos são dadas pela história
e pelas circunstâncias nas quais vivemos.
Por fim: por que intitulei
este texto desta forma? Não sei. Talvez porque o ser diplomata
é minha condição atual, minha situação
presente, minhas circunstâncias de vida. O ser reflexivo já
é uma característica pessoal, um dado de minha personalidade,
naturalmente reservada e bastante introspectiva. Quanto ao “retrato”,
trata-se de uma radiografia do momento, uma pequena foto do presente,
que talvez não seja o melhor possível, daí
o relativo pessimismo que possa transpirar destas linhas. Acredito
que o Brasil, seu povo e sociedade (a começar pelos núcleos
dirigentes), estejam atravessando uma fase não propriamente
exitosa, caracterizada por baixo crescimento, por inúmeros
problemas acumulados – alguns se agravando –, com perspectivas
de “mais do mesmo” nos anos à frente. Talvez
seja passageiro, ou talvez se prolongue mais do que o desejado,
pois afinal de contas outras sociedades antes da nossa também
decairam relativamente, algumas até entraram em “colapso”.
O Brasil não será o primeiro exemplo conhecido de
estagnação ou de declínio, relativo ou mesmo
absoluto. Mas, tenho certeza de que reencontraremos o caminho do
crescimento, da prosperidade, da afirmação dos bons
valores humanos e sociais. Gostaria de poder contribuir para isso,
tanto quanto minhas forças intelectuais e a minha disposição
física o permitirem. Continuo otimista quanto à capacidade
das sociedades se regenerarem, a partir dos esforços individuais
de pessoas que têm algo a contribuir para o bem da humanidade.
As pessoas valem pelo que elas são e pelo que elas possam
fazer de bem para a felicidade do maior número.
Vale!
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 31de dezembro 2006
(pralmeida@mac.com;
www.pralmeida.org)
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