Reflexões sobre processos decisórios
(ou sobre algumas razões para NÃO voltar atrás naquilo
que já foi decidido)
Paulo Roberto de Almeida
1. Se a decisão representou o resultado de um objetivo e ponderado processo
de reflexão, é porque ela representa aquilo que efetivamente deve
ser feito, e qualquer volta atrás significa reabertura, por vezes penosa,
de velhas questões que já deveriam ter sido deixadas de lado.
2. Em algum momento do processo decisório, a reflexão, a reconsideração,
as hesitações naturais e as muitas idas e vindas sobre os aspectos
positivos e negativos de qualquer questão que está sendo objeto
de consideração, todos esses elementos precisam ser deixados resolutamente
de lado, em favor de uma ação, decidida, resoluta, definitiva,
favorecendo um determinado curso futuro ou orientação geral quanto
à postura a ser doravante adotada. Não se deve prolongar indefinidamente
essa tomada de ação, nem se angustiar inutilmente com a decisão
tomada, e sim assumi-la, total e integralmente.
3. Indecisões e angústias geralmente resultam de sentimentos confusos
ou indefinidos, quanto ao objeto em si ou quanto ao melhor curso de ação
numa relação envolvendo outros atores. Esses sentimentos podem
ser objetivos, isto é, derivados totalmente de circunstâncias externas
e de condições não controladas pelo tomador da decisão,
mas também podem resultar de dúvidas intrínsecas quanto
ao interesse próprio no caso, que pode permanecer envolto em brumas e
em confusão. Neste caso, o melhor a fazer é justamente adotar
a decisão e deixar sentimentos confusos de lado, pois existem poucas
chances de que eles venham a se tornar menos confusos no prolongamento da mesma
situação.
4. Dúvidas quanto ao acertado da decisão tomada também
podem emergir a partir de motivações obscuras quanto ao conteúdo
do processo decisório, que nunca reflete, ou é raramente controlado
apenas pelas motivações de uma das partes envolvidas nesse processo.
Nesse caso, o melhor a fazer é partir de suas próprias motivações
e deixar os interesses de outros atores de lado. Por maior poder que se tenha,
nunca se consegue controlar todos os aspectos de uma situação,
o que recomenda, portanto, uma atuação não em bases relacionais
ou pretensamente altruísticas, mas a partir das motivações
conhecidas e controladas pelo próprio tomador da decisão.
5. Diferenças estruturais no status dos atores envolvidos devem
ser pesadas e computadas para fins do processo de tomada de decisão.
Raramente ou muito dificilmente se trata de uma situação de igualdade
e de identidade de propósitos entre os atores envolvidos, pois as assimetrias
são inevitáveis em qualquer relação social ou humana.
Assimetrias estruturais não conseguem ser vencidas apenas pela reconsideração
da decisão tomada, o que recomenda, portanto, adesão à
decisão e sua implementação de forma resoluta.
Brasília, 21 de novembro de 2004