Astrologia diplomática
Especulações sobre a política internacional em 2004 (e
além)
Paulo Roberto de Almeida
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)
Todo fim de ano é a mesma história: os jornais e revistas trazem
aquelas previsões dos astrólogos para o começo do próximo
ano, e tome promessa de catástrofes, mortes, assassinatos, traições,
acidentes terríveis e outras pragas anunciadas previamente. O problema,
atualmente, é que esses “astrólogos de carteirinha”
já não se contentam mais com o menu habitual dos ricos e famosos,
dos artistas de Hollywood (ou de novela) e um ou outro político. Não:
eles já deixaram a seara das catástrofes naturais, dos acidentes
de avião e das mortes das vedetes, para enveredar pelos arcanos da alta
política e da política econômica oficial. Eles se profissionalizaram
e se especializaram, como convém a toda economia moderna funcionando
a plena carga da divisão social do trabalho (Durkheim que me perdõe,
mas os astrólogos contribuem para reduzir o grau de “anomia”
social).
Deve ter gente que coleciona as previsões mais picantes para conferir
até o final do ano, mas confesso que eu sempre perco os recortes no meio
do caminho. Quando a pilha geológica dos meus materiais “para ler
depois” deixa o pré-cambriano de janeiro para o jurássico
de maio a memória enfraquece; quando chega então no pleistoceno
de novembro, já não há jeito de encontrar mais nada: tudo
está soterrado e será descartado na próxima mudança.
Por isso, desta vez resolvi fazer diferente: vou criar minhas próprias
previsões, num terreno que é o meu, obviamente, pois que eu não
tenho permissão do sindicato dos astrólogos para invadir sua reserva
de mercado e fazer previsões estapafúrdias sobre os temas que
lhes são caros. Vou ficar na minha própria selva, que é
muito mais complicada do que o mundo de Hollywood e dos cenários de novelas,
e vou fazer mais: vou deixar minha lista afichada na minha página (www.pralmeida.org)
o ano inteiro, mas sem qualquer garantia de satisfação ou seu
dinheiro de volta. Fica valendo apenas como exercício de imaginação
criadora, num mundo que se repete a cada ano.
Aqui está, portanto, minha astrologia diplomática para o ano de
2004 (e além), com a ressalva de que eu não consultei as entranhas
de nenhum animal, não tracei mapas astrais de nenhum líder da
política mundial, não segui o curso zodiacal de países
ou organizações. Tudo é resultado da mais pura e anárquica
especulação, sem compromisso de cumprimento. Como se trata da
primeira tentativa, a margem de erro supera 60%, mas prometo melhorar o grau
de acerto antes do Brasil ingressar no Conselho de Segurança, o que deve
me dar uns vinte anos de aperfeiçoamento. Sem mais delongas, eis minha
lista:
ONU:
Enfrentará uma nova crise financeira em 2004 e não terá
recursos para mais de duas missões de paz e meia. Convocará uma
conferência de chefes de Estado para discutir o problema da fome e das
epidemias que atingem os países mais pobres: todos prometerão
ajudar e o mundo continuará igual ao que sempre foi. Haverá discussões
(intermináveis) sobre a reforma da Carta e a ampliação
do Conselho de Segurança, sem conclusões firmes, porém.
Aprovará um sem número de resoluções para resolver
os mais variados problemas da humanidade: metade delas terá os Estados
Unidos como único opositor (por vezes acompanhados de Israel e do Reino
Unido). O Brasil abrirá o debate anual na Assembléia Geral, com
um discurso no qual defenderá o multilateralismo.
Império:
Aprofundará o seu comportamento imperial, mas com algumas sutilezas,
em um ano eleitoral. Continuará a não ligar para o mundo, mas
fará de conta que está realmente interessado na paz e na cooperação
internacionais. Continuará caçando terroristas durante o ano e
alternando os alarmes amarelo e laranja. Vai legalizar imigrantes ilegais, mas
um número ainda maior de candidatos passará a demandar fronteiras
muito mais vigiadas. Algumas centenas de brasileiros serão deportados,
gentilmente, e outros milhares continuarão tentando entrar, de forma
pouco gentil. O presidente republicano será reeleito, ou então
tomará seu lugar um candidato democrata. O Congresso confirmará
que deseja a Alca mas que não pretende fazer nenhum esforço para
abrir suas fronteiras agrícolas ou desmantelar os protecionismos setoriais.
Aumentará a exportação de enlatados de Hollywood e a importação
de cérebros do resto do mundo.
Europa:
Continuará tendo problemas de formação de maiorias para
decidir a introdução do décimo-quinto tratado de reforço
de uma união cada vez mais estreita entre seus povos, desta vez em número
de 45 (contando as minorias), o que deve dar algo como 82 traduções
cruzadas na Comissão, inclusive do grego para o finlandês e do
sueco para o esloveno. Suas famílias continuarão não fazendo
filhos, e por isso recorrerão aos imigrantes para manter a oferta de
mão-de-obra barata. Continuarão enchendo a paciência do
resto do mundo para que este reconheça exclusividade de apelações
de origem (em queijos, bebidas e outras especialidades) que eles mesmos exportaram
para o resto do mundo, com os seus emigrantes, cem anos atrás. Continuarão
a manter vacas com contas em banco, porcos com talão de cheques e agricultores
com cartões de crédito da própria Comissão, esperando
que agricultores do Terceiro Mundo se contentem com algumas migalhas que vão
jogar pela janela. Ainda assim, será um ótimo lugar para se fazer
turismo cultural e gastronômico.
África:
Terá cessado duas guerras, mas começado outras três, com
combatentes cada vez mais jovens (alguns empunharão a AK-47 com uma mão
e a mamadeira com a outra). A entrada de recursos públicos para combater
a Aids será compensada pela exportação de capitais privatizados
para aumentar contas nos bancos off shore. Continuará fornecendo candidatos
à imigração nos países europeus. Trapaceiros nigerianos
continuarão enviando milhões de mensagens eletrônicas para
confirmar que o tio ex-presidente ou o ministro da construção
desejam lhe tranferir 25% do seu patrimônio desde que você consinta
em lhes passar o número de sua conta em banco: será a contribuição
africana para resolver em parte o problema da má distribuição
de renda no mundo.
Brasil:
Apesar da reforma ministerial, a imprensa continuará especulando sobre
a entrada de novos ministros na equipe de assessores do presidente. Também
se discutirá muito o crescimento da economia, o aumento da oferta de
empregos, a reforma trabalhista, a política e a crise das universidades,
a redução dos impostos e o aumento das prestações
sociais, bem como dos investimentos do governo em obras de infraestrutura. Haverá
troca-troca partidário logo depois das eleições municipais
e nova mudança de regras para as eleições de 2006. A próxima
novela do horário nobre se espelhará na vida política do
País, o que fará, pela primeira vez na história, decrescer
o nível de audiência desse tipo de programa. Os discursos ainda
serão superiores ao número de medidas-provisórias, com
previsão de equilíbrio em 2005. Continuará em seu esforço
para ingressar no Conselho de Segurança e para liderar a América
do Sul, com progressos sensíveis nas duas frentes
.
Mercosul:
A união aduaneira se reforçará, mas antes haverá
um curto estágio de cinco anos por um espaço de preferências
tarifárias e mais três numa zona de livre comércio. Sua
expansão recomendará reuniões de cúpula de dois
dias, para dar tempo a todos os discursos, mas a Secretária Administrativa
comprará um avião próprio para seguir todas as reuniões
de todos os subgrupos técnicos do mercado comum (em preparação).
O grupo de educação começará a redação
de um manual de portunhol e a própria Secretária Administrativa
de um Mercosur for beginners ou de um Idiot’s Guide to Mercosur.
Anti-globalizadores:
Continuarão com suas ruidosas reuniões, mas cada vez mais globalizadas
e mais capitalizadas. Com isso conseguirão prolongar a vida útil
do Fórum de Davos, que já vinha cansando empresários e
acadêmicos. Também estimularão o turismo alternativo, as
edições alternativas e os discursos alternativos, criando uma
pujante economia de iniciativas anti-globalização que conseguirá,
finalmente, salvar o capitalismo de sua atual fase de estagnação
econômica e de baixo crescimento. Serão lançados derivativos
financeiros do Fórum Social Mundial, para os que desejam aplicações
alternativas, com dinheiro não contaminado pelo desejo de lucro e pelo
vício da exploração do homem pelo mundo. Serão os
únicos fluxos financeiros a recolher a Tobin Tax, num esquema administrado
pela ONU, que vai reverter em benefício de organizações
alternativas do Terceiro Mundo, isto é, para eles mesmos.
Comércio internacional:
Continuará sendo uma guerra por outros meios, ou continuará tendo
mais a ver com a política do que com a economia. As vantagens comparativas
ricardianas terão uma nova interpretação, patrocinada pela
Comissão Européia e pelo Congresso americano, que tentarão
modificar simultaneamente todos os livros textos de economia. Seus autores se
refugiarão numa ilha deserta, reproduzindo a simulação
do Robinson Crusoé que figura nesses livros textos, como exemplo de economia
fechada e sem trocas. A despeito disso, as trocas se farão cada vez mais
entre multinacionais, que serão em sua maioria ocidentais intercambiando
produtos chineses. Indianos também vão começar a exportar
uma parte de sua mão-de-obra para a Rússia, que padece de demografia
declinante. Haverá dumping de ministros social-democratas, numa primeira
antecipação da aplicação da cláusula social
em escala universal.
Meio Ambiente:
Cada vez mais protegido, por discursos, de dirigentes políticos, e na
prática, por barcos e aviões armados de radares e mísseis
das organizações não-governamentais mais agressivas. Povos
indígenas, por sua vez, contarão com dirigíveis nao-poluentes
para supervisionar suas explorações minerais e agrícolas
(sustentáveis). Técnicas de clonagem ressuscitarão espécies
desaparecidas, mas as ONGs ecológicas alertarão para os desequilíbrios
para o meio ambiente do século 21, não acostumado com predadores
do passado. Desaparecerá a agricultura tradicional e os supermercados
serão divididos em seções de transgênicos e de orgânicos,
com filas separadas nos caixas para evitar contaminação recíproca.
Direitos Humanos:
Serão inclusivos, com os aspectos psicológicos contemplados em
nova convenção da ONU. Animais clonados também serão
incluídos na categoria. O direito à democracia derrubará
o último ditador asiático, mas uma ilha do Caribe continuará
resistindo aos ditames do Império. Todos os habitantes do planeta terão
direito a uma renda mínima, cujo programa será universalizado
graças aos esforços de um senador brasileiro, e a ONU supervisionará
sua aplicação até o ano de 2075, quando se espera que o
último pobre poderá adquirir uma bicicleta chinesa movida a hidrogênio.
Astrólogos diplomáticos:
Serão uma categoria reconhecida e cada vez mais disseminada, antes mesmo
da formalização da profissão de “internacionalista”.
Terão seu próprio sindicato e sua colônia de férias
e farão congressos anuais para trocar previsões sobre os países
em que vivem. O mundo será muito mais divertido e feliz com eles, pois
eles poderão abolir completamente as guerras e as epidemias de suas previsões,
aproveitando para abater o preço dos manufaturados e para elevar os das
commodities. Ou não?
A conferir no começo de 2005.
Paulo Roberto de Almeida
(Brasília: 1176, 11 de janeiro de 2004).