Roberto Campos: dois anos sem bons combates de idéias
Paulo Roberto de Almeida
Dia 9 de outubro marca a passagem do falecimento, em 2001, de Roberto Campos,
seminarista, diplomata, economista teórico, burocrata, economista prático
– dirigente do primeiro órgão público de planejamento
econômico no Brasil, o BNDE –, professor, empresário, embaixador,
ministro de Estado, diretor de banco de investimento, articulista, embaixador,
político, parlamentarista monarquista e aposentado, nessa ordem. Se não
bastassem todas essas atividades públicas, e não considerando
seu apego a alguns dos prazeres da vida, ele ainda seria um dos mais importantes
representantes de uma espécie em desaparecimento no Brasil: o tecnocrata
de alto coturno, não apenas um técnico, mas um verdadeiro conselheiro
do Príncipe, um insigne pensador e formulador de políticas, um
tomador de decisões, um reformista radical, um hábil articulista,
um polemista, enfim, um sábio.
São poucos os que podem ser igualados a esse genial “policrata”,
uma mistura de político e tecnocrata, como ele mesmo se definia, que
ademais de todas as suas muitas qualidades sabia também ser um frasista
e um humorista sem igual, inventando “leis” que tinham, em alguns
casos, alcance universal, mas que no mais das vezes eram o resultado obrigatório
de suas conclusões lógicas a partir de uma realidade econômica
e política brasileira propriamente surrealista. Com todo o seu espírito
crítico, sua pena afiada e suas reações rápidas
e desconcertantes, ele conseguia ser mais inovador e criativo do que essa mesma
realidade de um Brasil sempre surpreendente, tanto para o mais pacato dos economistas,
como para o mais afoito dos revolucionários. De fato, Roberto Campos,
popularmente conhecido como “Bob Fields” durante minha juventude,
nunca perdeu um debate para ninguém, mas ele devia se confessar uma frustração:
perdeu para o Brasil, esse gigante desengonçado que desarma o mais agudo
espírito cartesiano.
Roberto Campos atravessou por inteiro um breve século XX que começou
com o fim do laissez-faire e o começo do socialismo real – nasceu
durante a Primeira Grande Guerra, no ano da revolução bolchevique
– e terminou com o fim do mesmo sistema que interrompeu, por um “breve”
período de apenas setenta anos, o processo de globalização
capitalista que já tinha sido analisado por Marx no Manifesto de 1848.
Ele assistiu à derrota ideológica, econômica e prática
de um sistema que, como ele mesmo alertou ainda em sua fase triunfante, tentou
distribuir riquezas com uma incompetência ímpar, quando comparado
a todos os outros modos de produção. Ele só não
assistiu à vitória do bom senso, em favor do qual ele clamou durante
três ou quatro repúblicas brasileiras e mais de uma dúzia
de governos, aos quais ele serviu, criticou e tentou ajudar.
Roberto Campos deve ter descoberto que o bom senso é a coisa mais difícil
de ser alcançada, num mundo que só conheceu o fim das ideologias,
das religiões ou da própria história nos escritos dos intelectuais.
Fundamentalismos de todos os gêneros, sobretudo econômicos e políticos,
se encarregam de enterrar as ilusões de todos aqueles que, como ele,
acreditaram ser possível, um dia, fundar as políticas públicas
sobre um modesto conjunto de regras simples e auto-evidentes: a escassez dos
recursos, o caráter inelástico dos orçamentos, a necessidade
de fazer as escolhas dotadas de maior liberdade e de concorrência em mercados
semi-livres, os limites do distributivismo, do emissionismo e da regressividade,
a preferência pelo multiplicador, em lugar do divisor (daí a insistência
no controle de natalidade), enfim, umas poucas verdades que deveriam ser de
ampla aceitação entre pessoas medianamente bem informadas como
são os políticos, mas que padecem terrivelmente nas mãos
de “planejadores sociais” animados do desejo de “fazer o bem”
com o dinheiro dos outros.
Parece incrível que com toda a sua prolífica produção
de textos, idéias, aforismas, artigos polêmicos e estudos sérios,
Roberto Campos só tenha sido objeto de dois livros algo desiguais: um
estudo muito bem embasado sobre o seu “pensamento político”
(por Reginaldo Teixeira Perez; Editora FGV) e um outro sobre sua própria
vida e “tiradas” geniais (o “retrato” de Olavo Luz;
Editora Campus), além de exposições e análises em
obras de caráter geral (como em Bielschowsky). Talvez as suas volumosas
memórias tenham intimidado eventuais candidatos, mas nada justifica que
ele permaneça sem um livro de depoimentos e um outro de excertos de suas
obras (como se fez recentemente para Mário Henrique Simonsen, por exemplo).
Num país que possui mais editoras do que livrarias, não deveria
portanto ser difícil de encontrar um editor inteligente – a começar
pelo que “obrigou” Roberto Campos a terminar suas memórias
– que se dispusesse a editar um volume de testemunhos e estudos analíticos
sobre sua obra e um outro de textos escolhidos dentre as dezenas de escritos
inteligentes que ele produziu ao longo de uma vida útil que se estende
do começo da ditadura Vargas até o final de uma ditadura ainda
mais ampla, a das falsas idéias. Nem todas ele conseguiu eliminar com
sua pena acerada e língua rápida, mas ele pelo menos forneceu
princípios claros e raciocínios diretos a todos aqueles dispostos
a aprender a partir da experiência pessoal, de alguma matemática
elementar e da simples observação da realidade ambiente, como
aliás este que aqui escreve. Roberto Campos foi provavelmente mais atacado
do que incensado, num país que ainda ostenta economistas macunaímicos,
como talvez ele dissesse, com sua irreverência sempre em riste.
Sim, confesso que fui um daqueles muitos que, no frescor da militância
juvenil, se compraziam em chamá-lo de “Bob Fields” e em considerá-lo
um “entreguista” a serviço de uma ditadura militar comprometida
com o grande capital monopolista internacional. Quanta bobagem podia se abrigar
nas mentes e escritos de “solucionistas” ideológicos, como
éramos todos aqueles que pretendiamos escapar da aridez pouco complacente
da “ciência lúgubre”, em favor de duas ou três
receitas de “desenvolvimentismo acelerado”. Aliás, ainda
pode. Mas, confesso também que, entre a leitura árida do PAEG,
nos meus dezesseis anos incompletos, e o sabor de seus artigos cortantes no
Estadão, eu aprendi muito rapidamente a respeitar um “adversário”
que me ensinou os primeiros rudimentos de economia (e de lógica “sociológica”).
Por isso mesmo, o retorno a alguns dos textos desse humanista tecnocrático
e humorístico talvez nos ajudasse a atravessar, sem muitos desgastes,
uma nova fase de transição entre algumas poucas verdades incertas
de um passado ainda recente e um presente animado por algumas grandes certezas
de um passado não muito remoto, mas que não quer passar.
A racionalidade iconoclástica de Roberto Campos anda fazendo falta. Onde
está o editor que poderia trazer de volta uma nova lufada de brisa inteligente
ao atual pântano (ou deserto, como queiram) de idéias curtas e
soluções rápidas? Que venha o Festschrift, o Mélanges,
um In praise of Roberto Campos, com todas as orientações econômicas
e políticas a que ele teria direito em vida: ele adoraria assistir a
mais algumas polêmicas em torno de suas idéias: E provavelmente
continuaria corrigindo admiradores e adversários com seus argumentos
de puro bom senso, como só cabe aos grandes pensadores.
Paulo Roberto de Almeida, sociólogo, diplomata.
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)