Introdução aos documentos
O "espectro" da internacionalização da
Amazônia, agitado por um grupo misterioso de supostos "nacionalistas",
tenta, de forma recorrente, alarmar os brasileiros com boatos a respeito
da ameaça de um alegado "desmembramento" da região
do resto do Brasil . Para avançar essa hipótese, no
mínimo fantasiosa e no mais das vezes paranóica, essas
pessoas, atuando sob cobertura do anonimato, não hesitam em
recorrer a fraudes grosseiras, forjando documentos e inventando livros
inexistentes.
Assim ocorreu em diversas oportunidades desde pelo
menos o primeiro semestre de 2000. Talvez despeitados pelo fato de a
propaganda enganosa não surtir os efeitos desejados disseminada
apenas passivamente num site quase desconhecido, esse grupo obscuro
de agitadores da mentira decidiu empregar meios ativos, contra os mais
elementares princípios da ética na Internet: disseminar
mensagens em corrente tentando fazer ganhar foros de "verdade"
o boato sobre uma suposta ameaça americana contra a soberania
amazônica, mediante a fraude deliberadamente construída
em torno de livros escolares empregados nos EUA que conteriam a tese
da "internacionalização" da Amazônia.
Assim ocorreu com uma primeira onda de boatos que circulou
em boletins eletrônicos no primeiro semestre de 2000, acolhida
de forma inocente, mas ingênua, pelo "Jornal da Ciência
e-mail". Nessas fase, apenas a notícia da existência
de livros escolares circulou, sem maiores "provas materiais",
o que deu-me um certo trabalho até constatar a fraude deliberada.
Em 2000, a corrente pode ser traçada até
o site http://www.brasil.iwarp.com/,
cujos responsáveis assumiram diretamente a autoria dos boatos,
muito embora a identidade exata de seus autores tivesse permanecido
incógnita. O site é colocado sob a rubrica "Brasil,
ame-o ou deixe-o", o que permite facilmente supor a afiliação
ideológica de seus autores, nostálgicos da ditadura militar.
O site não parece ter sido atualizado desde então e aparentemente
está abandonado desde essa época, talvez por lhe faltar
credibilidade, ao ter sido desmascarado fraudando deliberadamente a
realidade, com o fito de alarmar ou enganar cidadãos brasileiros.
Novamente, em novembro de 2001, uma nova série
de mensagens eletrônicas voltou a capturar a atenção
dos brasileiros com essas alegações sem fundamentos. Compreende-se
a preocupação de muitos cidadãos brasileiros, quando
apresentados à afirmação, aparentemente credível,
de que interesses externos, identificados com a potência imperial,
estaria tentado assenhorear-se dos "fabulosos" recursos da
Amazônia brasileira. Novos desmentidos refrearam parcialmente
a corrente de mentiras.
De forma totalmente fraudulenta, essas notícias
infundadas sobre supostos livros utilizados em escolas secundárias
dos Estados Unidos tentaram fazer acreditar a concepção
altamente paranóica de que estaria em curso um "plano"
para amputar a Amazônia da soberania brasileira. O mais curioso
da história é que, originando-se na extrema direita, os
boatos encontraram terreno fértil numa certa esquerda, que acredita
estar fazendo obra "antiimperialista".
Assim, em 2001, paradoxalmente, a notícia acabou
sendo disseminada por professores da UNESP e da UniCamp, alguns supostamente
militantes de esquerda, na verdade atuando aqui como "inocentes
inúteis" dos mesmos manipuladores da direita. Desta vez,
porém, o requinte da equipe de fraudadores atingiu novos patamares
de "aperfeiçoamento": foi fabricada, por meios grosseiros
, uma página de um suposto livro escolar americano, com texto
e imagens relativos à "internacionalização"
da Amazônia.
De péssima qualidade gráfica e escrito
num "ingrêis" macarrônico, a página não
resistiu a um exame mais acurado, mas ela conseguiu enganar um número
razoável de estudantes e cidadãos brasileiros, dotados
compreensivelmente de parcos conhecimentos de inglês e provavelmente
não advertidos para os mais elementares requisitos de um livro
didático de nível médio.
Indignados com a "nova" e suposta "prova",
muitos desses estudantes contribuiram involuntariamente para a disseminação
da fraude, ademais de endereçarem dezenas de mensagens às
autoridades -- geralmente Palácio do Planalto e Itamaraty --
incitando-as a defender a soberania da Amazônia e a denunciar
mais essa "vil cilada imperialista". Foi preciso esclarecer,
uma vez mais, de que se tratava de fraude, criminosa ou inocentemente
disseminada nesse meio poderoso que constitui a Internet.
Durante o ano de 2002, numa quarta onda de boatos
desprovidos de qualquer imaginação criadora, tratou-se
de oferecer a mesma mistura requentada de "mapas" e "livro-texto",
sem qualquer originalidade aliás. Aparentemente, desta vez, um
maior número de brasileiros está alertado para esse tipo
de montagem grosseira, pois que os efeitos dessa quarta onda não
causaram as mesmas comoções sociais das três primeiras,
quanto até jornais aparentemente sérios se deixaram enganar
pelos fraudadores ainda misteriosos.
Em fevereiro de 2003, uma carta supreendente veio introduzir
um pouco mais de suspense a um assunto que eu julgava próximo
da extinção geológica: ofensas e ameaças
pessoais e um suposto convite a briga (?), o que não deixa de
ser preocupante para um espírito pacato como o meu. Em todo caso,
incorporei essa nova peça acusatório ao Dossier nr. 4,
junto com minha própria resposta a esse missivista até
aqui desconhecido.
Finalmente, em junho de 2003, no que parece ser o início
de uma quinta onda de boatos, o que se procura disseminar desta vez
nao são mapas ou paginas de livros, mas supostos relatos de "viajantes"
à região de Roraima, onde foi detectada a presença
de inúmeros estrangeiros, que circulariam livremente, ao passo
que os brasileiros têm seus movimentos restritos.
Para esclarecer os incautos ou aqueles legitimamente
preocupados com essas supostas ameaças à integridade da
Amazônia brasileira, que nada mais são do que fraudes deliberadas
disseminadas sem qualquer tipo de comportamento ético de maneira
clandestina e subreptícia, coletei os documentos relevantes em
quatro dossiês, que coloco à disposição daqueles
que pretendem obter um esclarecimento sobre a questão.
Índice
Geral da coleção de documentos sobre a "fraude amazônica"
1.
Primeira onda de boatos, maio-junho de 2000
2. Segunda onda de boatos, outubro
de 2000
3. Terceira onda de boatos, novembro-dezembro
de 2001
4. Quarta onda de boatos, junho
julho de 2002; nova peça bizarra em fevereiro de 2003
5.
Possível começo de um quinta onda de boatos: 1º de junho
de 2003
Eu não teria feito esse dossier, que roubou-me um tempo precioso
de meus estudos e pesquisas, se eu mesmo, na tentativa de investigar
as origens dessa fabricação grosseira, não tivesse
sido deliberada e grosseiramente tratado por alguns desses disseminadores
irresponsáveis, aliás pretendidamente acadêmicos,
que acreditavam estar travando um combate real contra o "dragão
do imperialismo". Como tenho uma certa alergia à burrice
e acredito que a honestidade intelectual deva ser um critério
mínimo de trabalho de qualquer universitário que se tome
por tal, resolvi compor o dossier -- na verdade, um conjunto de mensagens
eletrônicas --- para tentar expor alguns dos mecanismos utilizados
nesse tipo de boato. Acredito que o conjunto de documentos ofereça
matéria prima aos estudantes de jornalismo que eventualmente
desejem estudar como se disseminam boatos na Internet.
Aliás, depois de preparada uma primeira versão deste
dossier (com perdão do galicismo), cheguei a retirá-lo,
entre a segunda e a terceira onda de boatos, de minha página,
por acreditar que a boataria tinha passado de vez e que os brasileiros
já estivessem "vacinados" contra esse tipo de boato
sem fundamento. Qual não foi minha surpresa,porém, a constatar
seu reaparecimento poucos meses depois. Pode-se constatar que certos
mitos são duros de morrer e o da "internacionalização"
da Amazônia promete figurar ainda durante muitos anos no "folclore
nacional", agora já incorporado às "lendas da
Internet".
Esta experiência também demonstra a todos nós,
trabalhadores intelectuais ou simples usuários da Intenet, nossa
própria responsabilidade e um certo cuidado com a ética
pública e pessoal na disseminação involuntária
de "notícias" ou "informações"
aparentemente seguras e fiáveis, sem o cuidado de checar a origem
e a consistência das mensagens que passamos adiante via Internet,
um meio fabulosamente democrático, mas que se presta também
às piores fraudes e desinformações. A última
peça do dossier, de 9 de fevereiro de 2003, revela, aliás,
que as paixões em torno do tema podem ser terríveis, justificando
inclusive ofensas e ameaças pessoais como ali revelado.
Aos interessados em uma informação de base científica
sobre os problemas da Amazônia brasileira, como podem ser os muitos
estudantes que se sentiram atraídos por essas "notícias"infundadas,
esclareço que vale a pena consultar o conjunto de documentos
que coletei com base nas matérias publicadas em cadernos especiais
da revista de divulgação científica da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência, Ciência Hoje,
seja como arquivo ".doc", para download ("A
Amazônia em debate"), seja como
arquivo em html, para consulta local.