Dossier Amazônia: anatomia de uma fraude

Estabelecido por Paulo Roberto de Almeida

 

Introdução aos documentos

O "espectro" da internacionalização da Amazônia, agitado por um grupo misterioso de supostos "nacionalistas", tenta, de forma recorrente, alarmar os brasileiros com boatos a respeito da ameaça de um alegado "desmembramento" da região do resto do Brasil . Para avançar essa hipótese, no mínimo fantasiosa e no mais das vezes paranóica, essas pessoas, atuando sob cobertura do anonimato, não hesitam em recorrer a fraudes grosseiras, forjando documentos e inventando livros inexistentes.

Assim ocorreu em diversas oportunidades desde pelo menos o primeiro semestre de 2000. Talvez despeitados pelo fato de a propaganda enganosa não surtir os efeitos desejados disseminada apenas passivamente num site quase desconhecido, esse grupo obscuro de agitadores da mentira decidiu empregar meios ativos, contra os mais elementares princípios da ética na Internet: disseminar mensagens em corrente tentando fazer ganhar foros de "verdade" o boato sobre uma suposta ameaça americana contra a soberania amazônica, mediante a fraude deliberadamente construída em torno de livros escolares empregados nos EUA que conteriam a tese da "internacionalização" da Amazônia.

Assim ocorreu com uma primeira onda de boatos que circulou em boletins eletrônicos no primeiro semestre de 2000, acolhida de forma inocente, mas ingênua, pelo "Jornal da Ciência e-mail". Nessas fase, apenas a notícia da existência de livros escolares circulou, sem maiores "provas materiais", o que deu-me um certo trabalho até constatar a fraude deliberada.

Em 2000, a corrente pode ser traçada até o site http://www.brasil.iwarp.com/, cujos responsáveis assumiram diretamente a autoria dos boatos, muito embora a identidade exata de seus autores tivesse permanecido incógnita. O site é colocado sob a rubrica "Brasil, ame-o ou deixe-o", o que permite facilmente supor a afiliação ideológica de seus autores, nostálgicos da ditadura militar. O site não parece ter sido atualizado desde então e aparentemente está abandonado desde essa época, talvez por lhe faltar credibilidade, ao ter sido desmascarado fraudando deliberadamente a realidade, com o fito de alarmar ou enganar cidadãos brasileiros.

Novamente, em novembro de 2001, uma nova série de mensagens eletrônicas voltou a capturar a atenção dos brasileiros com essas alegações sem fundamentos. Compreende-se a preocupação de muitos cidadãos brasileiros, quando apresentados à afirmação, aparentemente credível, de que interesses externos, identificados com a potência imperial, estaria tentado assenhorear-se dos "fabulosos" recursos da Amazônia brasileira. Novos desmentidos refrearam parcialmente a corrente de mentiras.

De forma totalmente fraudulenta, essas notícias infundadas sobre supostos livros utilizados em escolas secundárias dos Estados Unidos tentaram fazer acreditar a concepção altamente paranóica de que estaria em curso um "plano" para amputar a Amazônia da soberania brasileira. O mais curioso da história é que, originando-se na extrema direita, os boatos encontraram terreno fértil numa certa esquerda, que acredita estar fazendo obra "antiimperialista".

Assim, em 2001, paradoxalmente, a notícia acabou sendo disseminada por professores da UNESP e da UniCamp, alguns supostamente militantes de esquerda, na verdade atuando aqui como "inocentes inúteis" dos mesmos manipuladores da direita. Desta vez, porém, o requinte da equipe de fraudadores atingiu novos patamares de "aperfeiçoamento": foi fabricada, por meios grosseiros , uma página de um suposto livro escolar americano, com texto e imagens relativos à "internacionalização" da Amazônia.

De péssima qualidade gráfica e escrito num "ingrêis" macarrônico, a página não resistiu a um exame mais acurado, mas ela conseguiu enganar um número razoável de estudantes e cidadãos brasileiros, dotados compreensivelmente de parcos conhecimentos de inglês e provavelmente não advertidos para os mais elementares requisitos de um livro didático de nível médio.

Indignados com a "nova" e suposta "prova", muitos desses estudantes contribuiram involuntariamente para a disseminação da fraude, ademais de endereçarem dezenas de mensagens às autoridades -- geralmente Palácio do Planalto e Itamaraty -- incitando-as a defender a soberania da Amazônia e a denunciar mais essa "vil cilada imperialista". Foi preciso esclarecer, uma vez mais, de que se tratava de fraude, criminosa ou inocentemente disseminada nesse meio poderoso que constitui a Internet.

Durante o ano de 2002, numa quarta onda de boatos desprovidos de qualquer imaginação criadora, tratou-se de oferecer a mesma mistura requentada de "mapas" e "livro-texto", sem qualquer originalidade aliás. Aparentemente, desta vez, um maior número de brasileiros está alertado para esse tipo de montagem grosseira, pois que os efeitos dessa quarta onda não causaram as mesmas comoções sociais das três primeiras, quanto até jornais aparentemente sérios se deixaram enganar pelos fraudadores ainda misteriosos.

Em fevereiro de 2003, uma carta supreendente veio introduzir um pouco mais de suspense a um assunto que eu julgava próximo da extinção geológica: ofensas e ameaças pessoais e um suposto convite a briga (?), o que não deixa de ser preocupante para um espírito pacato como o meu. Em todo caso, incorporei essa nova peça acusatório ao Dossier nr. 4, junto com minha própria resposta a esse missivista até aqui desconhecido.

Finalmente, em junho de 2003, no que parece ser o início de uma quinta onda de boatos, o que se procura disseminar desta vez nao são mapas ou paginas de livros, mas supostos relatos de "viajantes" à região de Roraima, onde foi detectada a presença de inúmeros estrangeiros, que circulariam livremente, ao passo que os brasileiros têm seus movimentos restritos.

Para esclarecer os incautos ou aqueles legitimamente preocupados com essas supostas ameaças à integridade da Amazônia brasileira, que nada mais são do que fraudes deliberadas disseminadas sem qualquer tipo de comportamento ético de maneira clandestina e subreptícia, coletei os documentos relevantes em quatro dossiês, que coloco à disposição daqueles que pretendem obter um esclarecimento sobre a questão.

Índice Geral da coleção de documentos sobre a "fraude amazônica"

1. Primeira onda de boatos, maio-junho de 2000

2. Segunda onda de boatos, outubro de 2000

3. Terceira onda de boatos, novembro-dezembro de 2001

4. Quarta onda de boatos, junho julho de 2002; nova peça bizarra em fevereiro de 2003

5. Possível começo de um quinta onda de boatos: 1º de junho de 2003

Eu não teria feito esse dossier, que roubou-me um tempo precioso de meus estudos e pesquisas, se eu mesmo, na tentativa de investigar as origens dessa fabricação grosseira, não tivesse sido deliberada e grosseiramente tratado por alguns desses disseminadores irresponsáveis, aliás pretendidamente acadêmicos, que acreditavam estar travando um combate real contra o "dragão do imperialismo". Como tenho uma certa alergia à burrice e acredito que a honestidade intelectual deva ser um critério mínimo de trabalho de qualquer universitário que se tome por tal, resolvi compor o dossier -- na verdade, um conjunto de mensagens eletrônicas --- para tentar expor alguns dos mecanismos utilizados nesse tipo de boato. Acredito que o conjunto de documentos ofereça matéria prima aos estudantes de jornalismo que eventualmente desejem estudar como se disseminam boatos na Internet.

Aliás, depois de preparada uma primeira versão deste dossier (com perdão do galicismo), cheguei a retirá-lo, entre a segunda e a terceira onda de boatos, de minha página, por acreditar que a boataria tinha passado de vez e que os brasileiros já estivessem "vacinados" contra esse tipo de boato sem fundamento. Qual não foi minha surpresa,porém, a constatar seu reaparecimento poucos meses depois. Pode-se constatar que certos mitos são duros de morrer e o da "internacionalização" da Amazônia promete figurar ainda durante muitos anos no "folclore nacional", agora já incorporado às "lendas da Internet".

Esta experiência também demonstra a todos nós, trabalhadores intelectuais ou simples usuários da Intenet, nossa própria responsabilidade e um certo cuidado com a ética pública e pessoal na disseminação involuntária de "notícias" ou "informações" aparentemente seguras e fiáveis, sem o cuidado de checar a origem e a consistência das mensagens que passamos adiante via Internet, um meio fabulosamente democrático, mas que se presta também às piores fraudes e desinformações. A última peça do dossier, de 9 de fevereiro de 2003, revela, aliás, que as paixões em torno do tema podem ser terríveis, justificando inclusive ofensas e ameaças pessoais como ali revelado.

Aos interessados em uma informação de base científica sobre os problemas da Amazônia brasileira, como podem ser os muitos estudantes que se sentiram atraídos por essas "notícias"infundadas, esclareço que vale a pena consultar o conjunto de documentos que coletei com base nas matérias publicadas em cadernos especiais da revista de divulgação científica da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Ciência Hoje, seja como arquivo ".doc", para download ("A Amazônia em debate"), seja como arquivo em html, para consulta local.

 

Paulo Roberto de Almeida

(4 de julho de 2002; 10 de fevereiro de 2003)

(Novamente em 1º de junho de 2003)