Tiroteio na Torre de Marfim

sobre manifestos econômicos de "oposição"


Paulo Roberto de Almeida
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)


Nota Introdutória:


Desde o início do atual governo, antigos militantes e velhos aliados da causa transformadora do Brasil vêm expressando preocupação com o que pensam ser um "desvio" de conduta do grupo agora no poder. Muitos entendem que houve renúncia — em alguns casos pior do que isso, traição — em relação aos antigos compromissos de "ruptura com o modelo excludente", de "mudar tudo isso que está aí", enfim de instauração de um "novo paradigma".

As críticas, veiculadas em diversos manifestos, abaixo-assinados, cartas ao presidente, entrevistas e artigos individuais nos meios de comunicação, partem de uma posição acadêmica — sem estereótipo aqui —, isto é, principista, abstrata e totalmente alheia às responsabilidades executivas dos que assumiram efetivamente as rédeas do poder e que não podem, ipso facto, ficar fazendo ensaios e simulações teóricas, como se dispusessem de liberdade para tanto em face de compromissos orçamentários, limitações fiscais, constrangimentos impostos pela realidade, enfim.

Por isso mesmo, me surpreende que pessoas normalmente bem informadas e dotadas, ao que parece, dos melhores dados disponíveis sobre a realidade econômica do Brasil, possam formular tantas recomendações irrealistas, inexequíveis ou desprovidas de factibilidade. Não que não possa haver opções de política econômica, pois sempre as há em quaisquer circunstâncias, mas essas propostas alternativas teriam de vir, pelo menos, sustentadas em argumentos empiricamente embasados, considerando custos e benefícios das medidas sugeridas e antecipando seu possível impacto no mundo real.

Não é o que se vê, porém, para angustia dos que como eu convivem com a academia, labutam no Estado mas que ao mesmo tempo têm contato com o mundo empresarial e com a realidade das relações econômicas internacionais do Brasil e sabem o quanto determinadas "opções" podem precipitar um curso indesejável no Brasil, feito de descontrole inflacionário, fuga de capitais, agravação dos desequilíbrios internos e externos, perda de credibilidade junto aos mercados — esta expressão dá calafrios em certas almas cândidas da academia, que preferem esquecer que existe, sim, um mercado, ou vários mercados, que medem o elemento fundamental nas relações econômicas: a confiança —, enfim, um destino feito daquelas mesmas coisas que tanto prejudicaram o Brasil no passado.

Por isso mesmo, afirmo expressa e claramente: a irresponsabilidade de certos acadêmicos com a governança no Brasil, em nome de opções teóricas e de teses duvidosas, me surpreende e me angustia. A academia, que deveria ser parte da solução dos problemas do Brasil, acaba se convertendo em parte importante do problema.

Não estou interditando, nem censurando um debate responsável sobre as opções de política econômica, ao contrário: gostaria de estimulá-lo da forma mais ampla e mais fundamentada possível. Todos devem expor suas teses e esperar que outros as debatam, apontando "fortalezas" e fragilidades dos argumentos assim expostos.

De minha parte, exponho nas páginas seguintes os principais elementos do debate em curso sobre a política econômica da atual administração, tanto as peças "alternativas", como minhas críticas a elas.

Figuram aqui alguns textos aparentemente inúteis do ponto de vista de um debate de qualidade sobre a política econômica atual, mas reveladores do estado de espírito que reina atualmente em nossa academia em relação às orientações gerais do governo Lula.


Textos disponíveis neste dossiê:

1) Carta-manifesto, de 1o. de maio de 2003, assinada por um grupo de intelectuais, seguida de "Uma segunda carta de 1º de maio ao Presidente Lula", por Paulo Roberto de Almeida, comentando a primeira e oferecendo diversas retificações de fato e de opinião..

2) Crítica de Paulo Roberto de Almeida ao "manifesto dos economistas" (Um manifesto econômico de “inversão”: Análise de um documento político com pouca consistência econômica”, 13-14 junho 2003), seguida do texto original dos economistas, chamado "Uma agenda interditada". Também disponível no website O Economista (http://oeconomista.com/wm/wmview.php?ArtID=545).

3) “Abaixo-assinado pede mudança na política econômica de Lula”, de autoria de 107 acadêmicos, divulgado no Jornal da Ciência e-mail (nr. 2416, de 27 de novembro de 2003; link: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=14530 )


4) “Uma nova traição dos clérigos?: Comentários a um novo manifesto em prol de mudanças na política econômica”, de Paulo Roberto de Almeida (Brasília, 27 novembro 2003, 3 p.), consistindo de observações críticas ao abaixo-assinado dos acadêmicos. Publicado no Jornal da Ciência e-mail (nr. 2417, 28.11.03; link: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=14573 )


5) “Da diferença entre acadêmicos autoritários e acadêmicos democratas”, comentários críticos a meu texto anterior, por parte do Professor do IUPERJ José Eisenberg, veiculado no Jornal da Ciência e-mail (nr. 2419, 2.12.03), link: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=14643)


6 ) “A toda ação corresponde uma reação, e o seu contrário”, Resposta, bem humorada, de Paulo Roberto de Almeida, ao Prof. José Eisenberg (Brasília, 2 dezembro 2003, 5 p.) Publicado no Jornal da Ciência e-mail (nr. 2421, 4.12.03; link: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=14707).

 

Dossiê preparado por Paulo Roberto de Almeida em 6 e 7 de dezembro de 2003, com base em documentação selecionada.

 

Outras seções desta área:

História política brasileira

Desenvolvimento político

Organização política

Política contemporânea

Estado e governo

Controvérsias e debates

 

Observação: Alguns desses trabalhos e outros aqui não compilados encontram-se disponíveis em meu livro A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003), enquanto que vários outros, talvez de caráter mais polêmico ou sensível, não se encontram momentaneamente disponíveis.

 

Como a página está em construção, agradeceria se você pudesse me reportar links quebrados ou defeituosos no seguinte contato:

pralmeida@mac.com