(Livro em preparação)
Paulo Roberto de Almeida
Índice Provisório
Prólogo brevíssimo (tanto quanto possível)
Primeira Parte: O Diplomata Acidental
1. Dez regras modernas de diplomacia
2. Aprenda diplomacia por sua própria conta (e risco), em apenas um dia
3. Macro e microeconomia aplicadas: a questão da produtividade diplomática
4. Imperial Regulamento Asylo dos Diplomatas da Corte
5. Treze resoluções de ano novo (à maneira de Benjamin
Franklin)
6. Teoria do capital bibliográfico: Teses marxianas sobre leitura e modo
de redação
7. Dicionário de disparates diplomáticos
Segunda Parte: Os Instrumentos do Métier
8. Diplomacia econômica brasileira: lições da história
9. Um Tocqueville avant la lettre: Hipólito José da Costa
10. Reflexões a propósito do centenário do Barão
11. Uma frase (in)feliz?: o que é bom para os EUA, é bom para
o Brasil?
12. Três vivas ao processo de globalização
13. Contra a corrente em relações internacionais: treze idéias
fora do lugar
Notas sobre os trabalhos
Biobibliografia de Paulo Roberto de Almeida
Vieux:
Diplomatie. Belle carrière (mais hérissée de difficultés,
pleine de mystères). – Ne convient qu’aux gens nobles.
– Métier d’une vague signification, mais au-dessus du commun.
– Un diplomate est toujours fin et pénétrant.
Gustave Flaubert, Le Dictionnaire des Idées Reçues (1850)
in Oeuvres Complètes, tome deux (Paris: Editions du Seuil, 1964),
p. 307.
Nouveau:
Diplomacy. The art of lying on behalf of his country.
Ambrose Bierce, The devil's dictionary (1911)
in The devil’s dictionary, with an introduction by Roy Morris,
Jr.
(New York: Oxford University Press, 1999)
Post-moderne:
Diplomates. Un bon diplomate à l’ancienne: cynique, tortueux,
lâche, hypocrite mais exquis.
Alain Schifres, Le nouveau dictionnaire des idées reçues,
des propos convenus et des tics de langage ou Le dîner sans peine
(Paris: Jean-Claude Lattès, 1998), p. 87
Apresentação Geral:
Na tradição de Mendes Fradique – na verdade o médico,
escritor, humorista e cronista José Madeira de Freitas (1893-1944) –
este livro combina o tratamento de questões sérias com uma abordagem
irreverente, por vezes iconoclástica, mas sempre desafiadora do senso
comum. Nada menos do que a política internacional, a economia mundial,
as artes da diplomacia e as relações exteriores de um certo país
emergente são aqui colocadas sob o implacável bisturi analítico
de um sociólogo que ocorre ser também doublé de diplomata.
Os trabalhos aqui reunidos traduzem uma visão do mundo não conformista,
ou talvez formas diferentes de representar a atividade diplomática, vista
pelo seu lado não enquadrado e não enquadrável, sem descurar
no entanto de alguns exercícios “sérios” de análise
política e econômica que destoam do déjà vu da diplomacia
corrente.
Ao lado de escritos contestadores de uma certa unanimidade fácil nos
discursos de política internacional, este livro também analisa,
em tom mais convencional, alguns dos problemas mais importantes ligados aos
processos de globalização e de inserção do Brasil
no mundo contemporâneo.
Paulo Roberto de Almeida é cientista social e diplomata, autor de diversos livros sobre as relações econômicas internacionais do Brasil, sua história econômica e sobre o processo de integração no Mercosul.
Quão desarmante pode ser uma falsa verdade diplomática?
Quais seriam as regras modernas da diplomacia? Existiria uma macro- e uma microeconomia
da atividade diplomática? Os diplomatas pobres podem ser recolhidos a
um asilo? Que disparates e idéias malucas já atravessaram a cabeça
de um diplomata? O que é bom para os Estados Unidos seria igualmente
bom para o Brasil, mesmo numa fase de unilateralismo galopante? A diplomacia
brasileira conseguiria resistir a um plebiscito organizado pela CNBB?
Num questionamento mais sério, a globalização representa,
efetivamente, esse monstro frio e dissolvente, destruidor de empregos e concentrador
de renda, tal como retratado usualmente nas matérias jornalísticas
e nas análises de um certo pensamento universitário? Estruturas
econômicas capitalistas são sempre injustas e perniciosas do ponto
de vista dos países em desenvolvimento? A volatilidade é um atributo
intrínseco aos capitais financeiros ou às instituições
políticas?
Paulo Roberto de Almeida destoa, neste novo livro, do pensamento convencional
aplicado às questões de economia política internacional,
praticando o que poderia ser chamado de saudável exercício de
“contrarianismo”. Novamente um livro provocador, armado de ceticismo
sadio em relação a alguns aspectos da realidade contemporânea.
Prólogo brevíssimo (tanto quanto possível)
Os que levam a sua profissão muito a sério correm um sério
risco de sair do sério quando da primeira contrariedade encontrada no
meio do caminho. Frustrações podem se apresentar muito antes do
esperado e, como já ensinava o poeta, quem muito espera raramente alcança
aquilo que deseja. Por isso tomei a decisão, muito cedo na vida, de sair
em busca de meus próprios objetivos em termos de “acumulação
primitiva” do Saber: parei de assistir aulas e fui aprender sozinho, nos
livros ou com pessoas mais espertas.
Este meu livro reflete um pouco do que aprendi, de maneira absolutamente auto-didática,
ao longo das últimas décadas de leituras intensas e atentas e
de uma ainda mais atenta observação da realidade. Embora ostentando
algumas deformações acadêmicas, aprendi, por exemplo, a
desconfiar da academia e de suas ininteligíveis (em todo caso para a
maior parte das pessoas normais) elocubrações teóricas,
que geralmente servem de cortina de fumaça em face de uma realidade usualmente
mais prosaica.
Reuni nesta coletânea alguns escritos temerários e outros bastante
pacatos, em ambas as categorias, porém, marcados por aquele ceticismo
sadio em relação às verdades reveladas que aprendi numa
visita juvenil ao velho mestre Sérgio Buarque de Holanda. Desconfie das
coisas, dizia ele, segundo minhas precárias recordações
da adolescência, mas não seja um “negacionista doentio”
(esta expressão não é dele, sendo o resultado de minha
própria interpretação do que aprendi com ele numa tarde
de “conversa leve” para ginasianos). Aperfeiçoando a técnica,
desenvolvi meu próprio método de contrarianismo argumentativo
(ou socrático): questione a realidade, e as interpretações
que dela fazem os intelectuais, e tente extrair algum elemento de racionalidade
do mar de dúvidas que cerca as “meias-verdades” que lhe são
apresentadas todos os dias por esses ideólogos.
Tudo isto lhe parece muito confuso? Não se preocupe, a intenção
é esta mesma, daí o subtítulo deste livro: a diplomacia
pelo método confuso, retomando uma tradição inaugurada
entre nós há quase um século pelo irreverente crítico
da realidade Mendes Fradique. Os textos estão agrupados em duas seções,
a primeira tratado do ser ou estar diplomata, a segunda se aplicando aos ossos
do ofício, mas em ambos os casos eles estão animados da mesma
vontade de explicar pela contestação, de esclarecer pelo argumento
contraditório, de ir às fontes e expor as raízes de cada
problema selecionado.
Os treze ensaios aqui reunidos partilham de uma mesma característica:
não tinham sido ainda objeto de publicação impressa, embora
possam ter circulado anteriormente em formato digital, ou disponibilizados em
minha própria página (www.pralmeida.org). Outros deixaram de entrar
por inadequação ao fio geral desta meada, ou porque não
estavam ainda prontos (como um “elogio da especulação”,
que deveria completar um já publicado “elogio da exploração”).
Vários terão desdobramentos futuros – como a macro e microeconomia
do diplomata, ou as treze idéias fora do lugar até aqui coletadas
– ao passo que outros se esgotam em si mesmos, como a proposta de se retomar
a benfeitoria imperial de um asilo para diplomatas desvalidos.
Depois de alguma hesitação, e um certo pesar, deixei de incluir,
por exemplo, uma coleção de “memórias e apontamentos
para servir à história da Lei da Mordaca”, que constitui,
de acordo com o seu subtítulo ainda provisório, uma “exposição
de fatos, [um] registro de opiniões e [uma] compilação
de documentos para melhor esclarecer os contemporâneos e ilustrar os futuros
diplomatas sobre os ditos e feitos dos tempos de censura na repartição
pública conhecida como Itamaraty”. O trabalho estava largamente
terminado, mas como vinha recheado de anexos e documentos de referência
– circulares burocráticas costumam ser de modo geral enfadonhas,
mas estas ostentavam pendores inclusive filosóficos – resolvi deixar
a publicação do alentado cartapácio a ocasião futura,
esperando que ele não fique entregue apenas à crítica roedora
dos ratos, como diria um finado filósofo de resultados.
Tenho ainda de cumprir minhas próprias resoluções e terminar
de escrever meu dicionário de disparates diplomáticos, mas prometo
também avançar em trabalhos mais sérios, como o de uma
nova história diplomática do Brasil, inclusive uma biografia não
autorizada do Itamaraty, uma Santa Casa, com a figura venerável do barão
como seu protetor. Não tenho a pretensão de agradar a todos, e
por isso mesmo já estou aguardando as críticas mais severas dos
conhecidos patrulheiros de plantão, sobretudo daqueles que se comprazem
em atacar de lança em riste o moinho de vento imaginário da globalização.
Sou o único responsável pelos acertos e desacertos deste livro
e por isso não adianta culpar minha veneranda instituição
por qualquer impropriedade que dele resulte. Um pecado confesso: o de ter copiado
o título deste compêndio de um célebre antecessor da belle
époque, Manuel de Oliveira Lima, um diplomata brasileiro que guardou
um jeito luso de ser em algumas das trapalhadas em que se meteu na vida. Não
tenho a intenção de copiá-lo, nos escritos ou na carreira,
mas gostaria sim -- por que não dizê-lo? --, de ostentar sua energia
escrevinhadora. Por enquanto, tenho de pagar-lhe o devido copyright
pelo uso da expressão, ou pelo menos os moral rights pelo empréstimo
deliberado.
O fato deste compêndio comportar apenas treze ensaios, e não quinze
ou vinte, foi totalmente involuntário e pode ser explicado pela mística
que cerca este número no país onde vivi os últimos quatro
anos: o treze simplesmente não existe nos edifícios ou na maior
parte das atividades correntes. É uma non entity, talvez como
este livro…
Paulo Roberto de Almeida
Washington, 22 de abril de 2003