O Sociólogo Aprendiz
reminiscências de um outro século
 


Livro em preparação
Paulo Roberto de Almeida
www.pralmeida.org
pralmeida@mac.com

Índice Provisório


Pro patria semper: quase um prefácio
(ver abaixo)


Primeira Parte:
Manuscritos, alfarrábios, cadernos e papéis avulsos

1. Em busca do manuscrito perdido...
(Nota Liminar ao Volume I: Trabalhos dos Anos 1968 a 1974)
2. Em busca da perfeição acadêmica...
(Nota Liminar ao Volume II: Trabalhos dos Anos 1974 a 1976)
3. Le grand tournant...
(Nota Liminar ao Volume III: Trabalhos dos Anos 1977 a 1979)
4. Revisando conceitos
(Nota Liminar ao Volume IV: Trabalhos dos Anos 1980 a 1983)
5. Como terminar (e sobreviver a) uma tese
(Nota Liminar ao Volume V: Trabalhos dos Anos 1983 a 1984)
6. Trading places: academia e diplomacia
(Nota Liminar ao Volume VI: Trabalhos dos Anos 1985 a 1987)
7. New chips in the block: na era do computador
(Nota Liminar ao Volume VII: Trabalhos dos Anos 1987 a 1990)
8. Integração e relações internacionais
(Nota Liminar ao Volume VIII: Trabalhos dos Anos 1990 a 1992)
9. “Editor” do Mercosul...
(Nota Liminar ao Volume IX: Trabalhos do Ano de 1992)
10. Do Mercosul à política internacional...
(Nota Liminar ao Volume X: Trabalhos do Ano de 1993)
11. Last text in Paris
(Nota Liminar ao Volume XI: Trabalhos dos Anos 1993 a 1995)
12. Balanço da produção acadêmica
(Introdução ao Volume XII, Paris, 1995; Relações de Trabalhos de 1968 a 1995)
13. Globalizando minha produção
(Nota liminar ao tomo 1 do Volume XIII, 1995-1996)
14. Retraçando o itinerário das relações internacionais do Brasil
(Nota liminar ao tomo 2 do Volume XIII, setembro e dezembro de 1997)
15. Num exercício acadêmico, surpresas diplomáticas...
(Nota liminar ao tomo 3 do Volume XIII, 1997; tese sobre Brasil e OCDE)
16. Uma interação sempre necessária...
(Novo prefácio à tese “O Brasil e a OCDE”, para edição encadernada, junho 1997)

Segunda Parte:
Resenhas, notas, artigos, ensaios e livros publicados

1. Iniciando a produção: o Brasil como problema
(Nota Liminar ao Volume I: Trabalhos Publicados nos anos 1973 a 1976)
2. Movimento operário e revisionismo histórico
(Nota Liminar ao Volume II: Trabalhos Publicados nos anos 1978 a 1983)
3. Capitalismo, socialismo e democracia
(Nota Liminar ao Volume III: Tese na Universidade de Bruxelas em 1984)
4. A hegemonia da sociologia política
(Nota Liminar ao Volume IV: Trabalhos Publicados nos anos 1986 e 1987)
5. Diversificando a produção literária
(Nota Liminar ao Volume V: Trabalhos Publicados nos anos 1987 a 1990)
6. O Brasil como grande potência
(Nota Liminar ao Volume VI: Trabalhos Publicados nos anos 1990 e 1991)
7. Intensificando a produção...
(Nota Liminar ao Volume VII: Publicados entre março e outubro de 1992)
8. A quase hegemonia do Mercosul e a RBPI
(Nota Liminar ao Volume VIII: Trabalhos Publicados em 1992 e 1993)
9. Relações internacionais e integração
(Nota Liminar ao Volume IX: Trabalhos Publicados de abril a julho de 1993)
10. O Mercosul pelo método acelerado
(Nota Liminar ao Volume X: Livro sobre o Mercosul publicado em 1993)

Apêndices:
1. Vivendo com livros: um Dom Quixote das bibliotecas
2. A educação de Maurício Tragtenberg
3. Mania de Brasil: reminiscências de um século a outro
Biobibliografia de Paulo Roberto de Almeida
 
-------------------------

 
The average university is “a sanctuary
in which exploded systems and obsolete prejudices
find shelter and protection,
after they have been hunted out of every other corner of the world.”
Adam Smith (após sete anos passados em Oxford)
Apud Arthur Herman,
How the Scots Invented the Modern World:
The True Story of How Western Europe’s Poorest Nation
Created our World and Everything in It

(New York: Three Rivers Press, 2001), p. 198

 

In a Library
A precious, mouldering pleasure ‘t is
To meet an antique book
In just the dress his century wore;
A privilege, I think.
----
His venerable hand to take,
And warming in our own,
A passage back, or two, to make
To times when he was young.
----
His quaint opinion to inspect,
His knowledge to unfold
On what concerns our mutual mind
The literature of old;
(…)
He traverses familiar,
As one should come to town
And tell you all your dream were sown.
----
His presence is enchantment,
You beg him not to go;
Old volumes shake their vellum heads
And tantalizes, just so.


Emily Dickinson, Poems
Edited by Johanna Brownell
(Edison, N.J.: Castle Books, 2002)

 

--------------------
 
Pro patria semper: quase um prefácio


 
“A man only learns two things.
One is reading, and other is association with smarter people.”
Will Rogers, apud Frank Keating:
Will Rogers (San Diego: Silver Whistle, 2002)


 
Tomei conhecimento desta “recomendação” de Will Rogers, um autêntico cowboy do século XX, apenas no século XXI, mas ela poderia facilmente aplicar-se ao meu velho (e instintivo) método de aprendizado no decorrer da segunda metade do século anterior, quando comecei meu itinerário de “sociólogo aprendiz” (condição que, de certa forma, continuo a ostentar ainda hoje). Em todo caso, ao percorrer de modo improvisado o fio da memória, desde muito antes da primeira adolescência (quando supostamente se acredita que são formadas as concepções que ostentaremos pelo resto da vida), o que constato é que eu efetivamente aprendi o essencial do que sei nos livros, um pouco mais na atenta observação da realidade que me cerca, desprovido de amarras mentais, e um outro tanto, se não bastante, na interação (direta e indireta) com gente mais esperta do que eu.

Relatei um pouco do meu aprendizado com os livros, desde a primeira infância, no prefácio que elaborei em 1994 a uma coleção de resenhas críticas de livros, Vivendo com Livros, que vai aqui reproduzido como um dos apêndices ao que é basicamente uma obra de prefácios (no caso, as notas liminares à minha Gesamtwerke, ou uma compilação de trabalhos). O que aprendi com gente mais esperta do que eu constitui o objeto do segundo apêndice, também de caráter memorialístico, e o que eu pretenderia sintetizar como conhecimento do mundo está esboçado no meu terceiro apêndice, um plano de trabalho para uma futura “biografia intelectual”, até aqui um simples esquema de trabalho que pretendo desenvolver um dia (provavelmente na aposentadoria).

Aguardando que eu possa escrever essas “reminiscências de um século a outro”, resolvi coletar vários materiais de caráter biográfico-recapitulativo que se encontravam dispersos em dezenas de arquivos eletrônicos e alguns outros volumes encadernados. Se ouso escolher um critério unificador de todos esses trabalhos acabados ou por completar ele seria colocado sob o signo da “mania de Brasil”, que constitui o título de meu terceiro apêndice, justamente por traduzir minha obsessão intelectual dos últimos 40 anos (ou seja, de toda minha vida ativa como “pensador” dos problemas brasileiros). Arquivos eletrônicos são uma realidade relativamente recente numa vida de leituras e reflexões que se estende praticamente desde o começo dos anos 1960, ocupando apenas os últimos 16 anos de uma trajetória de intensas leituras e notas em cadernos, nem sempre sistemáticas, nem sempre organizadas, mas sempre voltadas para esse obscuro objeto de interpretações sociológicas (desencontradas) que se chama Brasil.

O Brasil enquanto nação constitui, de fato, o centro obsessivo de minhas atenções e preocupações intelectuais desde que comecei a tomar contato com os seus intérpretes “clássicos”, os “pais fundadores” de nossas ciências sociais, que comecei a ler muito antes de frequentar universidades. Constitui ele a “personagem” central destas minhas leituras, anotações e escritos, o que justifica tanto o título do livro, como o deste prefácio e, possivelmente, o de um futuro livro de “memórias intelectuais de um século a outro”. Bem antes de começar a digitar em teclado eletrônico, eu preenchi muitos cadernos e incontáveis folhas avulsas de notas manuscritas, todos com resumos e extratos de leituras ou esquemas de trabalhos, sempre motivado pela busca de uma “explicação” tentativa do Brasil. Essas intensas e extensas anotações à margem e a partir dos livros sempre foram feitas com o objetivo de, não apenas “interpretar” o Brasil, como pretendia Marx em relação ao mundo, como sobretudo com a finalidade de, se possível, “transformá-lo”.

Esta a razão do mote pro patria, semper, com a devida permissão dos leitores pelo acesso de ufanismo patriótico.Alguns poderão se perguntar por que um profissional maduro se classifica como um “sociólogo aprendiz”? Por dois motivos básicos: por um lado, a despeito de minha qualificação formal nas artes e técnicas dessa tribo de ideólogos, adquirida no Brasil e no exterior no período mais duro da ditadura militar, eu nunca exerci, de verdade, essa profissão de certa forma “glamourizada” durante boa parte da existência desse regime no Brasil. Ao “aderir”, logo depois de voltar do exílio, a uma profissão respeitável na burocracia do Estado, deixei a sociologia de lado e fui cuidar das relações exteriores do País, o que justifica que eu continue sendo, um quarto de século depois, apenas um “aprendiz de sociólogo”.

Por outro lado, eu, junto com dezenas de outros estudiosos e praticantes dessas artes oferecemos explicações parciais sobre, e “soluções” incompletas para, os problemas da Nação, o que também justifica que devamos todos ser classificados como meros “aprendizes”. Aliás, como já dizia o “aprendiz” de poeta Mário de Andrade, a sociologia é a arte de salvar rapidamente o Brasil, e é isso que venho tentando fazer desde que me entendo como pessoa consciente e cidadão participante no jogo da política.

Em qualquer hipótese, já não exibo hoje as mesmas certezas de antigamente sobre a “natureza” dos nossos problemas e a melhor forma de solucioná-los, pois já não estão mais em voga aquelas receitas simplistas do capitalismo nacional e do papel do Estado que todos nós, sociólogos ou não, ostentávamos numa fase em que o desenvolvimento do Brasil não parecia um processo tão complicado. Com a idade, e uma acumulação pouco primitiva de leituras, fiquei mais modesto, tanto em relação à qualidade dos meus “diagnósticos” d’antanho, como em relação às virtudes prescritivas do método socialista (ou planejador-estatal) como fórmula ideal para curar todas as mazelas da desigualdade social e do subdesenvolvimento econômico.Estas “reminiscências de um outro século” têm portanto o objetivo de reconstituir um pouco do itinerário “explicativo” que cumpri desde muito cedo (pessoalmente ou através dos livros), aqui registrado mediante as listas dos trabalhos originais e publicados entre 1968 e 1996-97, cada uma delas introduzida por uma nota liminar (ou “prefácio”) que justamente permite retomar as condições materiais e intelectuais que presidiram à sua produção ou publicação.

Trata-se, portanto, de mera “matéria prima” para o trabalho propriamente biográfico que ocorrerá oportunamente e que poderá (mas não de forma obrigatória) seguir o esquema traçado no apêndice 3. Até lá, tenho ainda muito trabalho por fazer, a começar pela coleta, organização e apresentação dos trabalhos produzidos e publicados, compilação que deve agora estender-se ao período 1997-2003.

A elaboração de uma lista exaustiva deveria, na verdade, estender-se igualmente às dezenas, ou mesmo centenas, de working files, ou seja, de trabalhos incompletos ou em processo de redação que mantenho ainda em forma manuscrita ou que já se acumulam em dossiês eletrônicos (ao lado de outras centenas, ou milhares, de “arquivos-subsídios” para trabalhos futuros). Eis aí, ao mesmo tempo, uma demonstração das glórias e misérias da era digital, pois que temos de aprender a conviver com a riqueza de dados acumulados e a impossibilidade material, ou a falta de tempo, para processá-los de forma conveniente.

Sou daqueles que guardam um pouco de tudo para ler ou “usar” depois, desde livros que pretendo ler “um dia”, a papéis e recortes de “notícias importantes”, até os cada vez mais numerosos files de computador que servirão para “aquele trabalho genial” que será feito assim que surgir um tempinho para sistematizar os dados e puder sentar para redigir. Eterna batalha contra o tempo, contra as obrigações concorrentes e contra o sono, quando não contra a “família”, que reclama a merecida atenção conjugal e a dedicação paterna. A única solução a esse incômodo problema parece ser a “napoleônica”, ou seja, comprimir as horas de sono para fazer “render” um pouco mais uma já longa jornada de leituras e de consultas à Internet.

Não se veja neste volume um esboço biográfico ou qualquer projeto de memórias intelectuais. Trata-se tão simplesmente de uma coleção de “retalhos” introdutórios ao conjunto de minha produção escrita que pôde ser registrada de forma sistemática, e como tal destinada a servir de subsídio àquele tipo de trabalho no futuro. Resolvi juntar o que se encontrava disperso em muitos volumes encadernados e em diferentes arquivos de computador, para facilitar aquela tarefa quando chegar o momento. Nesse sentido, este volume não se destina à divulgação pública, mas pode eventualmente servir de referência caso uma consulta tenha de ser feita ao conjunto de meus trabalhos. Um segundo volume procederá à compilação da produção mais recente, com o que terei à mão uma espécie de “guia” para uma produção que já ultrapassa mil trabalhos (completados). Não há nenhum sentido “quantitativista” nesse ordenamento sistemático, apenas o simples desejo de não me perder num conjunto considerável de escritos cuja inspiração constitui uma segunda natureza de minha inserção social. Eu me fiz pela leitura e me revelo pelos meus escritos: voilà, as simple as that!

Uma última pergunta poderia se insinuar aqui: essa “mania de Brasil” resultou em algum benefício visível para o personagem principal? Difícil dizer, pois que, depois do entusiasmo juvenil com as “grandes causas”, a vida nos tece uma rede de compromissos sociais (familiares, profissionais, contratuais) que de certo modo nos “desviam” dos objetivos “grandiosos” da “grande transformação” sonhada anteriormente, em favor de atividades mais prosaicas, ligadas ao chamado “ganha-pão”, à educação dos filhos e a uma miríade de outras obrigações talvez bem menos charmosas do que o chamado da mudança mas certamente mais importantes na perspectiva da “vida normal”.

Tenho procurado, em todo caso, manter acesa a chama do aprendizado constante, do estudo infatigável em relação às “coisas do Brasil” e do desejo de participação na melhoria social, ética e material de um país sabidamente desigual, injusto mesmo com uma grande maioria de seus cidadãos e ainda muito aquém de realizar aquele “índice de felicidade humana” que seu povo está em direito de esperar. Tenho sincera e honestamente procurado contribuir com esses objetivos, não apenas porque eles seriam “nobres”, mas porque isso corresponde à minha maneira de ser. Nos últimos anos, afastada aquela perspetiva romântico-revolucionária do período juvenil, tenho feito isso mesmo no terreno de minha especialidade: a sistematização e a disseminação do conhecimento sobre as relações internacionais e a política externa do Brasil e sobre as melhores formas de “extrair” recursos externos em favor do processo de desenvolvimento econômico e social do País.

Tenho atuado, portanto, basicamente na formação de quadros e de recursos humanos, direta e indiretamente, buscando afastar explicações simplistas e ingênuas – talvez como aquelas que eu um dia ostentei – sobre as melhores “soluções” para os problemas apontados e propondo as vias dotadas de maior racionalidade instrumental para os objetivos desejados. Quando, e se, for chamado a desempenhar atividades executivas mais diretamente vinculadas ao processo decisório que determina as políticas setoriais envolvidas nesse processo, creio que vou estar relativamente bem aparelhado, técnica e intelectualmente, para um melhor desempenho de minhas funções.

Até lá vou continuar escrevendo e publicando sobre os temas de meu interesse, que suspeito sejam também os de interesse de milhares de outros brasileiros. A melhor forma de submeter-se a um “teste de realidade” é garantir transparência nesse processo de avaliação: este volume, assim como outros livros meus, de caráter mais substantivo, fazem parte desse controle de qualidade do material oferecido. Aos leitores, ou aos simples curiosos, de julgar.

Washington, 26 de maio de 2003