Relações internacionais e política externa do Brasil (Editora da UFRGS, 1998)

Apresentação à segunda edição:


Avanços metodológicos, diversidade analítica, produção em alta

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Tenho um especial apreço por esta obra, de certo modo meu primeiro livro “diplomático”. Com efeito, até 1998, eu já tinha publicado uma boa quantidade de ensaios sociológicos, de artigos históricos e de textos econômicos, em revistas do Brasil e do exterior, bem como dois ou três livros sobre o Mercosul e o comércio internacional. Contudo, não tinha tido ainda a oportunidade de compilar num único volume destinado a publicação comercial meus diversos trabalhos tratando de questões de relações internacionais e de política externa do Brasil, temas a que vinha me dedicando desde finais da década anterior.


Esta oportunidade surgiu em 1998, quando a Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por iniciativa do professor Paulo Vizentini, decidiu criar, na área de ciências humanas, uma coleção voltada precipuamente para temas de relações internacionais e de integração. Este meu livro teve, portanto, o privilégio de inaugurar essa nova série e de passar a integrar, desde então, a bibliografia indicativa em muitos cursos de relações internacionais que foram surgindo em diversos Estados do Brasil a partir dessa época. Esgotada a tiragem e avolumando-se as cobranças dos muitos alunos (e professores) que me diziam não conseguir mais encontrá-lo, a Editora alertou-me para a necessidade de preparar uma segunda edição com a possível brevidade, o que me obrigou a deixar temporariamente de lado vários outros trabalhos urgentes para revisar este livro em sua totalidade.


Optei primeiramente por preservar a estrutura básica da primeira edição, considerando-a ainda plenamente válida, dedicando-me essencialmente a atualizar os capítulos que necessitavam de aggiornamento bibliográfico ou documental. Após reflexão, todavia, decidi proceder a uma substituição e a um desdobramento. Por um lado, preferi suprimir o ensaio histórico sobre a “diplomacia dos descobrimentos” (que deve agora integrar volume independente) por um outro, de mais urgente atualidade: as relações do Brasil com o Fundo Monetário Internacional, desde a emergência da instituição, no seguimento da conferência monetária e financeira de Bretton Woods, em 1944, até os mais recentes acordos de sustentação financeira negociados pelo Brasil entre 1998 e 2003. Por outro lado, o já longo capítulo sobre a interação entre os partidos políticos e a política externa a partir de 1930 teve destacada de seu corpo a parte final, relativa aos temas de relações internacionais nas campanhas presidenciais da pós-redemocratização, em esforço de reformulação que resultou na composição de novo capítulo independente, todo ele voltado para essa problemática nas eleições de 1989 a 2002; a ele agreguei, mais recentemente, um retrospecto da “política externa” do partido vencedor das eleições de outubro desse ano e uma análise dos problemas imediatos da agenda diplomática do Brasil. No mais, o livro preserva seu caráter basicamente didático e informativo, inclusive porque completei, justamente, a leitura e seleção de novos livros brasileiros publicados no intervalo, bem como procedi à atualização da listagem de atos internacionais que enquadram o sistema econômico multilateral de que participa nosso País.


O que posso constatar, de forma satisfatória, é o crescimento razoável da produção brasileira nessa área, a extensão dos avanços metodológicos alcançados no quadro da disciplina acadêmica (em história e em ciência política) e o aprofundamento analítico da maior parte desses estudos nacionais em relações internacionais e em política externa do Brasil. A começar pela minha própria produção nessa área, a produtividade acadêmica bem como a participação dos diplomatas nessa oferta conheceram certamente uma boa expansão na última década do século XX e no início do século XXI, com uma crescente osmose entre ambos os setores. O foco dos estudos ampliou-se, igualmente, deixando a antiga ênfase na história diplomática para uma saudável diversidade de abordagens e de temas, o que evidencia, obviamente, uma correspondente complexidade da agenda diplomática brasileira. Creio poder compartilhar – sem qualquer falsa modéstia ou exercício déplacé de auto-elogio – de um certo sentimento congratulatório ao observar como todos nós, os “trabalhadores” das relações internacionais contribuímos para esse progresso notável do estudo e da prática dessa área no Brasil.


Se ouso retomar agora o tom mais confessional do prefácio à primeira edição seria para tentar explicar, à maneira de Gilberto Freyre, e usando literalmente suas palavras, como e por que sou e não sou diplomata. Com efeito, assim como o mestre de Apipucos não pretendia ser mero sociólogo, não sou nem pretendo ser diplomata puro. Os ensaios aqui compilados revelam um pouco dessa dupla condição de diplomata nada ortodoxo e de acadêmico contestador, com exigências metodológicas de trabalho sério e aplicado em cada uma dessas “profissões” e um certo sentido de “autocrítica” em cada uma das instituições.
Dessa condição tão desajeitadamente multidisciplinar, como diria Gilberto Freyre, de cientista social, de historiador e, talvez, de “escrevinhador”, é que eu retiro o necessário estímulo para continuar lendo, pesquisando e escrevendo durante longas horas noite adentro, depois de uma jornada de trabalho profissional geralmente estafante. Se faço isso, enfrentando uma dupla e até tripla jornada de tarefas, é porque me coloco na perspectiva de que os modestos resultados desse ativismo múltiplo possam contribuir para a elevação educacional de muitos jovens (e de outros, não tão jovens) voltados para os estudos acadêmicos de relações internacionais ou para as lides da diplomacia prática.


O possível “escrevinhador” político aqui comparece, representado por uma série de ensaios unidos por um mesmo enfoque analítico e uma mesma vocação didática: os trabalhos têm a pretensão de apresentar as pesquisas e reflexões de um diplomata prático, de um cientista social certamente heterodoxo, de um historiador algo improvisado e de um possível “pensador” autoproclamado da inserção internacional do Brasil. Se eu tivesse de resumir o conjunto, eu diria que, na verdade, o que caracteriza o autor destes trabalhos é uma condição de autodidata nunca recusada e de certa forma sempre buscada.


Não sou, de fato, um pesquisador profissional, pois que não tenho meu ganha-pão principal nessas demais ocupações acadêmicas e sim na condição primeira de diplomata. Nem estou, efetivamente, “burocratizado” nesta ou naquela atividade diplomática, pois que tenho podido combinar diferentes orientações temáticas na carrière com essas outras atividades paralelas de pesquisador irregular, de professor bissexto e, sobretudo, de escrevinhador constante. Sou um ser livre, tanto quanto me permite o pertencimento a uma instituição bissecular, altamente burocratizada, hierarquizada e disciplinada a ponto de enquadrar seus membros numa teia de comprometimentos diretos e indiretos com o chamado esprit de corps, que confesso possuir no grau mais tênue possível.


Os ensaios que se seguem, sobre o universo cada vez mais rico e complexo constituído pelas relações internacionais e pela política externa do Brasil, não poderiam ter sido escritos e revistos, originalmente, ou ampliados e atualizados, no período recente, sem a ajuda inestimável e a compreensão de Carmen Lícia, de Pedro Paulo e de Maíra, que foram excessivamente tolerantes com este diplomata doublé de acadêmico que tem plena consciência de que alguns cadernos de notas deveriam estar, talvez, menos voltados para resumos de leituras e bem mais para jogos, distrações e programas conjuntos. A eles, portanto, dedico esta nova produção, com todo amor e carinho.


Paulo Roberto de Almeida
Washington, setembro de 2003