Relações internacionais e política externa do Brasil (Editora da UFRGS, 1998)
Prefácio à primeira edição:
Na diplomacia, entre a história e as ciências
humanas
Este livro foi concebido como uma síntese teórico-prática
situada na confluência intelectual da academia com a diplomacia. Ele também
pode ser visto como uma espécie de condensado literário da obra
de um “agente duplo” ou, ainda, como um retrato em branco e preto
de um escriba informatizado que é também, embora muito modestamente,
um ator coadjuvante da política exterior brasileira. Com efeito, os trabalhos
aqui reunidos constituem o resultado parcial de mais de dez anos de pesquisas
e de reflexões acadêmico-funcionais sobre a natureza essencial
e o sentido profundo da atividade diplomática, considerada não
só do ponto de vista “externo” da pesquisa bibliográfica
e da consulta às fontes primárias, mas também da perspectiva
“interna” de quem vive, literal e diuturnamente, do exercício
dessa mesma atividade diplomática.
Estes ensaios se situam, portanto, no próprio âmago da política
externa prática, interpretada teoricamente por um profissional da diplomacia
que também reivindica, talvez deliberadamente, um estatuto de outsider
no confronto com a aparente rigidez hierárquica de uma Casa mais do que
centenária, o Itamaraty. A experiência não é sem
riscos: seria como se este “espectador engajado” – o copyright
da expressão pertence a Raymond Aron – do serviço exterior
brasileiro procurasse analisar o objeto de seu trabalho corrente de um ângulo
externo, com o distanciamento ideológico de um cientista imparcial que
devesse dissecar as entranhas de sua própria instituição.
Mas, sob o risco de decepcionar os críticos da Casa de Rio Branco e contrariamente
ao que poderia indicar esse animus dissecandi do autor, deve-se desde logo advertir
que seu bisturi analítico não está dirigido à alma
mater da instituição diplomática brasileira. Como se poderá
facilmente constatar por uma simples consulta ao sumário, não
se tentou fazer aqui qualquer anatomia do próprio Itamaraty, o volume
não comporta nenhum perfil sociográfico dos diplomatas, nem se
pretendeu elaborar uma antropologia do serviço exterior brasileiro, com
a mesma eventual meticulosidade de um etnólogo isolado entre tuaregues
(muito embora estudos desse tipo devessem talvez figurar nas estantes da politicamente
correta biblioteca do Ministério das Relações Exteriores).
O próprio autor, que já passou por ritos de iniciação
antropológicos em terras belgicanas e que, em priscas eras, prestou solidariedade
clânica à tribo dos sociólogos paulistas, à qual
legitimamente pode reivindicar sua appartenance, se compromete em proceder,
no futuro, a esses exercícios de sociologia da vida quotidiana que encantariam
um espírito anárquico e multidisciplinar ao estilo de um Gilberto
Freyre. Tal exercício, que poderia igualmente tocar nos “mitos
fundadores” do Itamaraty, representaria algo como um ensaio de biografia
coletiva para explicar, talvez, “como e porque sou e não sou diplomata”,
temperado obviamente pelo espírito de autocontenção que
costuma caracterizar todo freqüentador habitual da Casa do Barão.
O que vai se ler aqui, portanto, não são estudos de diplomacia
brasileira, mas ensaios sobre as relações internacionais em geral
e sobre a política externa brasileira em particular, pelo ângulo
de um servidor da circunspecta burocracia diplomática que também
freqüenta os anfiteatros algo mais barulhentos das instituições
universitárias. Eles não foram, de nenhuma maneira, redigidos
sob a oportunística forma de memorandos de serviço, mas concebidos
e elaborados com a dedicação metódica de alguém
que sempre esteve voltado às pesquisas arquivísticas e às
atividades docentes, levadas regularmente a cabo no Brasil e nos intervalos
de uma vida seminômade no exterior.
Eles representam, num certo sentido, o resultado de uma união intelectual
entre o professor ocasional e o burocrata do serviço exterior, entre
o acadêmico amador e o diplomata profissional, entre uma atividade que
busca explicações sobre os meios legítimos da racionalidade
estatal e outra que persegue os fins últimos da razão do Estado,
entre o trabalho intelectual do especialista universitário em dedicação
parcial e a atividade analítica em tempo integral em uma das corporações
reconhecidamente mais intelectualizadas de nossa burocracia governamental, entre
a ética de convicção e a ética de responsabilidade,
entre a aparente “imparcialidade” do livre-arbítrio acadêmico
e a afirmada “objetividade”, forçosamente generalista e recorrente,
de uma das mais weberianas instituições públicas. Em contraposição,
contudo, ao trabalho exclusivamente acadêmico, os textos aqui compilados
apresentam uma differentia specifica, a de que foram elaborados não apenas
da perspectiva puramente universitária da sociologia das relações
internacionais ou, ainda, da política, da economia ou da história
da política exterior do Brasil, mas, essencialmente, no contexto funcional
do serviço exterior brasileiro e tendo presente, sobretudo, a necessidade
de se fazer a “anatomia intelectual” da diplomacia brasileira, como
forma de seguir seu itinerário histórico e de determinar seus
fundamentos de atuação.
Ambas as vertentes acima mencionadas, o trabalho profissional na diplomacia
brasileira e a dedicação, quase que monástica, ao estudo
das origens e desenvolvimento dessa mesma diplomacia, geralmente vista na perspectiva
diacrônica da longue durée, devem ser consideradas como absolutamente
complementares, no sentido em que elas constituem o suporte necessário
(mas nem sempre suficiente) uma da outra. Elas conformam, uma e outra, os pilares
de uma “visão do mundo” que se pretende abrangente –
poder-se-ia dizer compreensiva, no sentido weberiano do conceito – e original,
na medida em que os textos reunidos neste volume não traduzem o mero
produto intelectual de pesquisas empreendidas num contexto exclusivamente acadêmico
e tampouco se situam numa perspectiva unicamente institucional ou oficial. Esses
textos são o resultado de preocupações historiográficas
e sociológicas próprias de seu autor, não com a diplomacia
brasileira, propriamente dita, mas com o Brasil em primeiríssimo lugar:
eles pretendem investigar o passado de nossa inserção internacional
para melhor compreender o presente das relações externas do País
e preparar o futuro da Nação no mundo.
Assim, os trabalhos de metodologia das relações internacionais,
de história diplomática e de “economia política”
da política externa aqui compilados representam, antes de mais nada,
uma espécie de bridge-building entre a academia e a diplomacia, às
quais o autor se vincula por manifesto interesse pessoal e em virtude do exercício
de atividade profissional. Eles também se pretendem portadores e veiculadores
dessa multidisplinariedade que se tornou virtualmente emblemática e mesmo
necessária nos modernos estudos de relações internacionais
e de política externa dos Estados contemporâneos.
Cabe, contudo, antes de deixá-lo penetrar sem armas e bagagens nas florestas
ainda pouco freqüentadas das relações internacionais e da
política externa do Brasil, oferecer ao leitor eventualmente desprevenido
uma honesta advertência heurística. Estes trabalhos sobre a diplomacia
brasileira estão fortemente impregnados de História, mais do que
de qualquer outra disciplina acadêmica aqui presente e figurando a título
de “interpretação setorial” dessa diplomacia (economia,
política, sociologia ou mesmo “ideologia” da política
externa). Como justificar o deliberado viés metodológico em favor
de uma abordagem específica dessa complexa realidade, como explicar essa
“opção preferencial” por uma interpretação
histórica das relações internacionais do Brasil?
Não há, obviamente, uma explicação simples a essa
espécie de a priori weberiano, mas posso tentar legitimar meu approach,
servindo-me das palavras de um outro diplomata que, ele sim, é um treinado
cultor das pesquisas arquivísticas e um refinado e elegante historiador
de nosso passado colonial e oitocentista. Ao apresentar a segunda edição
de seu consagrado e provavelmente já clássico estudo sobre o imaginário
da restauração pernambucana, Rubro veio, Evaldo Cabral
de Mello assim se pronuncia sobre a especificidade e a irredutibilidade do método
histórico em face das demais ciências humanas:
Este esforço se inspirou [...] nos gêneros historiográficos mais diversos, a história política, econômica ou das mentalidades, sem preferências exclusivistas. A ele também subjaz uma certa idéia da história que a vê não como a grande sintetizadora com que sonhou imperialmente Braudel, nem como mero repositório de dados empíricos à disposição de sociólogos, antropólogos e economistas, mas, ao contrário, como uma maneira específica de abordar a realidade social [...]. Nesse sentido, pode-se dizer que a história situa-se não na vanguarda mas na retaguarda das ciências humanas, não para seguir-lhe docilmente os passos mas para dinamitar suas excessivas pretensões teóricas. O papel do historiador consistiria, em boa parte, em explodir os mitos que, a despeito dos seus objetivos científicos, as ciências humanas continuam a engendrar e que são passíveis de produzir curtocircuitos duradouros no conhecimento histórico. O historiador seria assim o sabotador nato do sociólogo, do antropólogo, do economista. (Cf. Evaldo Cabral de Mello, Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana. 2. ed. rev. e aumentada, Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 14-15.)
Sem pejo do empréstimo intelectual involuntário, subscrevo inteiramente
a opinião de meu colega de carreira, tal como acima exposta, quanto ao
papel da História enquanto destruidora de mitos fáceis e de verdades
inquestionadas. Estes ensaios se colocam, ou pretendem se ver, na perspectiva
saudavelmente iconoclástica de uma obra original, fruto de honesto trabalho
intelectual conduzido nos intervalos irregulares de uma intensa atividade profissional
durante todo o período de sua elaboração. Eles também
têm a pretensão, talvez exagerada, de oferecer um esforço
de interpretação histórico-sociológica eventualmente
desbravadora de novos caminhos analíticos que visam enriquecer o estudo
global das relações internacionais e da política externa
do Brasil. Sua contribuição a tal projeto multidisciplinar de
amplo escopo deve, assim, ser julgada em seus próprios méritos,
e jamais como pretenso elemento informador de um “pensamento oficial”
em história diplomática que não faz parte de seus objetivos
constitutivos.
Quanto à eventual alegação de algum leitor apressado, no
sentido de que este autor se estenderia em demasia sobre determinados eventos
ou processos do passado da diplomacia brasileira, antes de penetrar no atual
labirinto das relações internacionais contemporâneas, permito-me
recuperar, da mesma forma, os saborosos argumentos de um predecessor que também
era um diplomata-historiador. Oliveira Lima, esse Dom Quixote Gordo, no dizer
do mesmo Gilberto Freyre, ao discorrer sobre a densidade analítica dos
antigos despachos de legações (ele se reportava ao período
da Independência do Brasil), assim comparou a verbosidade dos antigos
“escribas” diplomáticos à suposta parcimônia
redacional de seus modernos sucessores:
O telégrafo ainda não existia. Os jornais não eram tão admiravelmente informados quanto hoje, quando eles se acham em condições de se informar nas próprias chancelarias. Os diplomatas eram pois forçados a escrever volumosos relatos, que nada perderam de seu interesse, pois que neles se encontravam coisas que não se encontravam alhures. É esse último traço de escrevinhadores, digamos antes de escritores, a fim de não amarrotar-lhes a memória, que distingue principalmente os agentes políticos de outrora de seus confrades atuais, aos quais a vida intensa e perfeitamente aparelhada tem feito perder esse honesto costume. (Cf. Oliveira Lima, Formação histórica da nacionalidade brasileira, 2. ed., Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 192)
Operando uma “resenha do passado” e retomando a seu favor o discurso
de Oliveira Lima, o autor destas linhas também gostaria de se ver como
um “diplomata d’antanho” – mas, de maneira alguma, como
um representante da diplomacia ornamental e aristocrática do ancien régime
–, pelo menos no que se refere ao “honesto costume” de ler,
observar, pesquisar e informar sobre o universo mais vasto das relações
exteriores do País e, em especial, sobre as relações econômicas
internacionais do Brasil. Oliveira Lima, por exemplo, era um crítico
severo do diplomata apenas “político”: não se vende
café, cacau ou açúcar, dizia ele, “enfiando meias
de seda para ir a concertos de Buckingham Palace ou envergando uma casaca irrepreensível
nos cotillons de New-port”, completando sua opinião ao afirmar
que, assim como o cônsul carecia de “mover-se na alta sociedade”,
também o diplomata deveria “aprender o caminho das bolsas de comércio”;
ironicamente, ele se perguntava em que poderia “um secretário de
legação revelar sua capacidade, a não ser a caligráfica?”
(Cf. Cousas diplomáticas, [s. l.]: [s.n.], 1907, p. 15 e 17.
Ele também aspira seguir o saudável exemplo de todos aqueles colegas diplomatas, do passado e do presente, que também foram ou são “escrevinhadores” das “cousas diplomáticas” do Brasil, como queria Oliveira Lima. Descartando por enquanto a redação de “volumosos relatos” profissionais, estão aqui enfeixados alguns modestos escritos acadêmicos abordando a notável continuidade histórica das relações internacionais e da política externa do Brasil.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, setembro de 1998