ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil. As Relações Econômicas Internacionais no Império. São Paulo, Ed. SENAC, Brasília: FUNAG, 2001. 675 p.

Publicado na revista

Política Externa (vol. 11, nš 1, jun-jul-ago 2002, pp. 131-134)

Paulo-Edgar Almeida ResendeÚ

 

Paulo Roberto de Almeida é Ministro Conselheiro da Embaixada Brasileira em Washington, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas, mestre em economia internacional. Coordena projeto de pesquisa de documentos das relações Brasil-Estados Unidos em arquivos norte-americanos. Tem várias obras publicadas, relacionadas com o tema em pauta. É recorrente, em toda a bibliografia do autor, o foco nas relações econômicas internacionais do Brasil, na perspectiva de médio e longo prazo. Anotamos: Relações Internacionais e Política Externa do Brasil dos descobrimentos à globalização (Ed UFRGS, 1998); Mercosul: fundamentos e perspectivas ( LTr, 1998); O Brasil e o multilateralismo econômico (Liv. do Advogado Editora, 1999); Velhos e Novos Manifestos: o socialismo na era da globalização (Oliveira Mendes, 1999); O Estudo das Relações Internacionais do Brasil ( Editora Unimarco, 1999).

Estudo das Relações Internacionais do Brasil[1] faz balanço da produção acadêmica e profissional, elaborada ao longo das últimas décadas. Propicia-nos uma espécie de câmara de compensação informativa dos múltiplos enfoques possíveis das Relações Internacionais no Brasil, conforme Celso Lafer [2] postulava, em 1980, na Universidade de Brasília.

Velhos e Novos Manifestos. O Socialismo na Era da Globalização –Ed. Juarez de Oliveira, 1999 - é obra esclarecedora de sua perspectiva teórico-metodológica. Declara-se resolutamente marxista. Relê o Manifesto do Partido Comunista, e o encontra surpreendentemente atual, da perspectiva de esquerda, de transformação radical das atuais condições deploráveis, que ainda caracterizam o Brasil, transcorridos 170 anos de sua independência política. Mas há importante correção em sua visada dialética: deve-se aceitar, segundo ele, algo da mensagem propriamente messiânica do velho Marx, no sentido de continuarmos a acreditar que uma sociedade mais justa é possível. Deve-se, no entanto, recusar o messianismo irracional da vertente poética do marxismo, tendente a acreditar que grandes transformações sociais podem ser efetuadas em passe de mágica social: Marx pode ter estudado a economia política dos velhos clássicos, mas certamente nunca soube fechar um balanço contábil, e tinha uma visão ingênua sobre a efetiva administração das coisas ou sobre como efetuar uma adequada gestão de homens. Paulo-Roberto de Almeida confessa ter herdado de seu mestre Sérgio Buarque de Holanda o ceticismo sadio na recepção de verdades reveladas.[3] O autor tem o dom de fazer afirmações peremptórias, como provocação, para, logo à frente, surpreender o leitor com nuances, atenuando o anteriormente dito, ou, dialeticamente, chegando à síntese. Em Velhos e Novos Manifestos, faz o elogio da exploração (pag. 41), como sendo elemento da organização social, de força agregadora e de vitalidade institucional Na linha de seu raciocínio, para evitar o escândalo, que poderia ser provocado pela citação isolada de seu sutil raciocínio, poderíamos fazer menção ao próprio Marx, quando trata da incorporação de território mexicano pelos EUA, como fator importante de avanço histórico, não obstante o custo social.

Formação da Diplomacia Econômica no Brasil – As Relações Econômicas Internacionais no Império, volume de 675 páginas, tem como foco o Império. A República aparece no último capítulo. Na intenção do autor, virá publicação posterior, a partir de 1889, recuperando e sistematizando sua coleção de ensaios, que surpreende pelo volume, o que não afeta a qualidade, graças ao fato da cuidadosa referência a fontes primárias. A avaliação do material em mãos é na perspectiva de continuidades, predominando sobre descontinuidades. De modo geral, preserva de críticas seus antepassados da diplomacia, com precauções profissionais, de modo semi-oficial, por estar na ativa. Mantém-se, todavia, atento para os limites mais amplos com que o Brasil se insere no sinuoso contexto internacional.

O embaixador Alberto da Costa e Silva, no prefácio, detecta a tônica básica da obra, o que lhe dá conotação de distanciamento crítico: o sentimento de que estamos sempre a chegar depois, haja vista, emblematicamente, a diplomacia da força de trabalho. Fomos dos últimos a abolir a escravidão.

Como lições de história econômica externa do Brasil, o autor menciona:

-a extrema cautela nos processos de liberalização comercial, alternada por fases de abertura unilateral;

-fragilidade financeira, com insuficiência da poupança interna, acompanhada da despoupança estatal;

-sucesso reduzido nos investimentos diretos estrangeiros e na captação de tecnologia;

-fraca absorção de mão de obra e lacuna de investimentos no seu próprio capital humano;

-inserção nos foros do multilateralismo econômico, ainda que com reduzida participação decisional;

-excelente instrumento diplomático profissional;

-permanência e continuidade da diplomacia econômica;

-papel estratégico desempenhado pelo Estado em escolhas dramáticas, como o conflito entre liberalismo e protecionismo na política comercial; abertura ou fechamento aos interesses estrangeiros; indecisão quanto às relações sociais na estrutura produtiva.e no grau de profissionalismo burocrático a ser imprimido à representação externa do governo, em contraste com a maior osmose – no passado – do corpo diplomático em relação à sociedade civil;

Em síntese, a política exterior brasileira agrega à diplomacia do primário, a afirmação da diplomacia do secundário, nos moldes da industrialização substitutiva e da capacitação tecnológica. Sem negar esta dupla vocação, emerge hoje a diplomacia do terciário.Ressalva original da obra é a menção do papel do Brasil como credor, no âmbito latino.

Tendo como eixo a economia, com a clara opção teórico-metodológica, segundo a qual, em última instância, o econômico determina a superestrutura, afasta-se contudo o autor de qualquer veleidade reducionista, mesmo porque duelam em seu texto o marxismo sui generis e o estado que chega antes. Aspectos políticos, culturais e sociais vêm à tona, em complexas e imbricadas teias de relações, que identificam o Brasil no contexto internacional. Não se trata, tecnicamente, de história da diplomacia econômica brasileira. É ensaio histórico, elaborado por profissional da diplomacia, com farta documentação. O destaque é dado à diplomacia comercial, financeira, dos investimentos, da mão- de- obra e da diplomacia multilateral, com a respectiva conformação institucional da política externa brasileira. O objetivo expresso é o de nos oferecer a primeira pesquisa sistemática sobre o conjunto das relações econômicas internacionais do Brasil no século XIX, com apresentação sinóptica esmerada.

A grande contradição: a  diplomacia em vantagem com relação ao estado e à sociedade

Aceitando o convite do autor, é importante que seu leitor se arme do mesmo ceticismo sadio e da mesma atitude crítica em relação a algumas de suas afirmações sobre as qualidades da diplomacia brasileira. A sensação, que às vezes o texto suscita, é a de que ela está em vantagem com relação ao estado e à sociedade.Nós a cremos indiscutivelmente competente, exemplo a ser seguido no recrutamento tecno-profissional do funcionalismo público no Brasil, mas incapaz de suportar a linearidade ascendente que lhe é atribuída. Sem divisar no texto visão edificante do passado diplomático, as sinuosidades, enquanto desvios, sem ruptura, nem sempre são acompanhadas em texto tão abrangente

. No todo, a obra é recuperação positiva da representação do passado no presente, viabilizando, de modo arguto, o acompanhamento do processo de building state e building society, do melhor ângulo, no caso do Brasil, o da diplomacia econômica. A importância de ensaio, com tais características, é a de enriquecer o debate sobre o conhecimento do processo de construção, não apenas do estado, mas da própria sociedade brasileira. Se admitirmos que strictu sensu o Estado Brasileiro precede à Nação, a política externa brasileira, no período analisado, condensa, como acentua Demétrio Magnoli[4], a noção de soberania e exerce função simbólica crucial. O Brasil, sobretudo na primeira metade do século XIX, apresentava-se internamente desintegrado. Enquanto nação, institucionalmente, a ordem emanada do Centro Imperial chegava esgarçada na periferia, com território liberado para o exercício do Mandonismo local. Vejam-se a Inconfidência Mineira, a Conjura dos Alfaiates nos estertores do século 18; a Revolução Pernambucana, a Confederação do Equador, a República de Piratini, a Sabinada, nas três primeiras décadas do século 19. Mas, em que pese tal fragilidade interna, o Brasil se apresentava, extra-muros, como unidade. O efeito simbólico desta imagem exterior facilitou a construção do interior, ocupando lugar primordial na construção do território brasileiro no espaço continental. Com efeito, o corpo diplomático brasileiro, pela metade do século XIX, organizado através da Lei n. 614 de 1851, já se apresentava com relativo prestígio externo.

Trata-se de um marco de nossa historiografia diplomática. O que prevalece é a abordagem interdisciplinar, em que  várias áreas de saber, mesmo que apenas tangenciadas, permitem-nos acompanhar as vicissitudes por que passa o país em sua complexa inserção no contexto mundial.

A obra se inscreve em contexto acadêmico de efervescência recente no estudo das Relações Internacionais no Brasil. Coloca-se na biblioteca de História das Relações Internacionais do Brasil, perfilando-se ao lado de títulos prestigiados.



Ú Professor   Pós-Graduação de Ciências Sociais ( área de concentração de Relações Internacionais) e Coordenador Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional- PUC/SP: membro GACINT/USP e Grupo de Conjuntura Internacional do IEEI.

[1] ALMEIDA, Paulo Roberto. O Estudo das Relações Internacionais do Brasil. São Paulo, Unimarco editora, 1999.

[2] LAFER, Celso. O Estudo das Relações Internacionais. Brasília, UNB, 1980 ( texto de aula).

[3] ALMEIDA, Paulo Roberto. Velhos e Novos Manifestos. O Socialismo na Era da Globalização. São Paulo, Ed. Juarez de Oliveira.p. IX.

[4] MAGNOLI, Demétrio. O Corpo da Pátria. Imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo, UNESP1997, pág. 131.