Vivendo com Livros
Paulo Roberto de Almeida
Paris: Edição do Autor, 1994, 406 p.
Resenhas de livros, publicadas e inéditas: 1976-1994
À guisa de prefácio
Es, pues, de saber, que este sobredicho hidalgo, los ratos que estaba ocioso...
se daba a ler...; y llegó a tanto su curiosidad y desatino en esto, que
vendió muchas hanegas de tierra... para comprar libros... y así
llevó a su casa cuantos pudo haver dellos. (...) En resolución,
él se enfrascó tanto en su lectura, que se le pasaban las noches
leyendo de claro en claro, y los dias de turbio en turbio; y así, del
poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro, de manera que vino
a perder el juicio.
Miguel de Cervantes Saavedra
Ainda não me ocorreu, apesar do excesso de leituras, a fatalidade que
se abateu sobre o cavaleiro da Mancha. Em todo caso, meu cérebro não
parece ter secado pelo fato de também passar muitas noites na companhia
dos livros ou escrevendo sobre eles. Este livro, que fala exclusivamente de
outros livros, pode ser considerado como o resultado de algumas dessas noites
de leitura.
As resenhas de livros, como se sabe, têm geralmente o estranho hábito
de revelar não exatamente o conteúdo do livro examinado ou o que
diz o autor em causa, mas mais frequentemente o que pensa deles o próprio
resenhista. Este volume não pretende ser uma exceção a
essa regra não-escrita da prática do book-review, mesmo se ele
a implementa de uma maneira particular.
Com efeito, os resenhistas profissionais costumam ostentar um certo air blasé
ou de détachement vis-à-vis da obra resenhada, típicos
de quem se julga no direito de falar bem (ou mal) do autor, sem outros objetivos
que os de parecer erudito ou de impressionar o leitor. A grande vantagem desta
coletânea em relação às antologias de resenhistas
é talvez o fato de que ela não foi feita por um resenhista profissional,
mas sim por um simples amante dos livros.
Os trabalhos aqui coletados foram escritos não por encomenda de algum
editor ou diretor de folha literária, mas como resultado de minha livre
escolha, motivado única e exclusivamente pelo desejo de realizar eu mesmo
uma espécie de “homenagem voluntária” aos livros ou
aos autores selecionados. Essa postura é tanto mais defensável
e legítima que muitas das resenhas aqui incluídas não foram
escritas para serem publicadas e nem mesmo se referiam a obras do momento ou
a autores vivos. Motivou-me o simples gosto da palavra escrita, que responde,
neste caso, a meu incontrolável, constante e não tão secreto
vício da leitura.
Efetivamente, tenho vivido com livros, pelos livros e para os livros uma boa
parte de minha vida, provavelmente dois terços de uma existência
passada na atenta fixação do papel impresso. Entretanto, até
onde alcançam minhas lembranças da primeira infância, não
se pode dizer que o gosto da leitura constituísse uma espécie
de kismet pessoal ou que ele estivesse entranhado num certo ambiente familiar.
Não me lembro, por exemplo, que minha casa contivesse muitos livros,
pelo contrário, provavelmente muito poucos. Meus pais, típicos
filhos de imigrantes pobres, de extração camponesa portuguesa
e italiana, tinham sido criados entre o trabalho e a escola, processo que conduziu
a uma educação primária incompleta nos dois casos. Mas,
como todos os imigrantes, ambos davam uma importância muito grande à
educação formal dos filhos, o que, dadas as condições
de penúria material em que vivíamos, não necessariamente
se traduziu em aquisição voluntária de outros livros que
não, chegada a hora, os didáticos.
Foram circunstâncias fortuitas que me fizeram chegar aos livros e com
eles passar boa parte de minha vida. Minha casa, na então Chácara
Itaim, bairro paulistano do Jardim Paulista, ficava muito próxima de
uma biblioteca infantil, que eu passei a frequentar antes mesmo de estar formalmente
alfabetizado. Na “Biblioteca Anne Frank” passei todos os anos de
minha infância e os primeiros da adolescência. Uma vez treinado
nas primeiras letras, na “atrasada” idade dos sete anos, passei
a ler furiosamente: lia com avidez, não só na própria biblioteca,
como todos os dias retirava sistematicamente um ou dois livros para ler em casa,
à noite. Se não li todos os livros da biblioteca, devo ter chegado
muito perto disso.
Alguns anos depois, trabalhando durante o dia e estudando à noite, passei
a frequentar as bibliotecas do centro de São Paulo: a pública
“Mário de Andrade”, a liberal e circunspecta da Faculdade
de Direito do Largo de São Francisco, a especializada em economia do
Centro das Indústrias, a da USIS, junto ao Consulado dos Estados Unidos,
a da União Cultural Brasil-Estados Unidos e várias outras mais.
Também comecei a percorrer incessantemente as livrarias do centro da
cidade, em especial a velha Brasiliense, na Barão de Itapetininga, e
a Zahar, na Praça da República.
Enfim, foram anos e anos de contato com os livros, lendo em toda e qualquer
circunstância, em casa ou no trabalho, na escola e nos transportes públicos,
sob chuva ou sol quase se poderia dizer. Raramente, ou quase nunca, saía
de casa sem um livro na mão ou na pasta: qualquer oportunidade era boa
para se avançar na leitura, mesmo na fila do recrutamento militar (quando
estava acompanhado de Gustavo Corção, uma leitura insuspeita nos
anos do regime militar). Ao deixar o Brasil pela Europa, no começo dos
anos 70, arrastei comigo uma biblioteca que certamente deve ter intrigado diversos
agentes alfandegários. No velho continente, como não podia deixar
de ser, passei boa parte de uma longa estada de sete anos voluntariamente encerrado
em bibliotecas universitárias, sobretudo a do Instituto de Sociologia
da Universidade de Bruxelas. Continuei depois esse hábito nas demais
cidades a que fui levado por força de uma vida profissional sempre nômade.
Desde muito cedo, habituei-me também a fazer fichas de livros, sob a
forma de notas sintéticas, algumas compilações mais ou
menos longas ou mesmo resenhas críticas, em cadernos ou folhas esparsas.
Infelizmente, algumas dessas resenhas pioneiras foram perdidas com os papéis
da juventude, entre a partida e a volta da Europa. Minha primeira resenha publicada
parece ter sido a de uma obra do Erich Fromm, A Sobrevivência da Humanidade
(tradução brasileira, pela Zahar, de Can Man Survive?), que saiu
no jornal do centro acadêmico do Colégio Costa Manso, onde eu cursava
o Clássico (em torno dos 16 anos, portanto). Muitos outros trabalhos
dessa época, que precedeu minha saída do Brasil, se perderam:
lembro-me de extensos resumos de obras políticas, de leituras anotadas
de Sartre, Celso Furtado, Caio Prado, Florestan Fernandes e muitos outros autores
brasileiros ou estrangeiros.
Mais tarde, durante minha estada universitária na Europa, preenchi diversos
cadernos quadriculados, organizando-os por temas, ali compilando apreciações
críticas e resumos de dezenas de livros, sem considerar as simples notas
bibliográficas, que tinham seus cadernos especiais. Mas, essas anotações
não cobrem senão uma parte de minhas leituras, aquelas ligadas
diretamente ao estudo acadêmico ou às preocupações
políticas. Dezenas de outros livros, cujos títulos se perderam
em agendas extraviadas, permaneceram sem registro, sem falar dos muitos romances,
policiais ou literários, que nunca foram objeto de qualquer tentativa
de “crítica literária”. Se fosse possível fazer
uma lista mais ou menos abrangente de minhas leituras, ela certamente ocuparia
dezenas de páginas e nunca estaria completa.
A presente seleção de livros resenhados, portanto, não
cobre senão uma ínfima parte de minhas leituras, compreendendo
as obras efetivamente objeto de apreciação crítica. Alguns
dos trabalhos aqui reunidos foram parcial ou integralmente publicados em revistas
acadêmicas ou periódicos brasileiros, muito embora diversas outras
resenhas permaneçam inéditas até aqui. Uma única
exceção ao critério de autoria: a inclusão do resumo
de minha própria tese de doutoramento em ciências sociais, mas
que no caso serve para explicar melhor minha posição em relação
à obra de Florestan Fernandes, objeto de um trabalho na seção
“Sociologia”. Várias outras resenhas não foram escritas
pensando precipuamente em sua divulgação, mas sim sob a forma
de simples avaliação pessoal no curso de um estudo. Elas são
agora transcritas em sua forma original, salvo, num ou noutro caso, pequenas
adaptações de forma ou supressões de trechos, por inadequação
à atualidade ou limitações de espaço.
Mais do que simples resenhas, estes trabalhos correspondem ao que um habitual
leitor do The New York Review of Books, como eu, chamaria de review-article,
que na verdade significa aproveitar a oportunidade da publicação
de algum novo livro (neste caso, alguns antigos também) para falar sobre
os mais diversos problemas de atualidade ou de história. O livro-objeto
é, assim, uma simples excusa para uma digressão sobre temas diversos,
em outros casos quase que um exercício de estilo ou um divertissement.
Um dia, vou percorrer novamente as bibliotecas de minha infância e adolescência
e tomar nota de todos os livros que me fizeram companhia por tantos e tantos
anos. Por falta de tempo, isto não ocorrerá certamente antes da
aposentadoria, período que já antevejo como de um retorno a intensas
leituras.
Esperando chegar esse tempo, decidi selecionar, à intenção
dos amigos e curiosos, algumas de minhas leituras anotadas, isto é, aquelas
que resultaram em resenhas formais e que, como tal, foram objeto de publicação.
Dedico esta primeira coletânea, com todo amor, a alguém que realiza
a proeza de ler ainda mais do que eu, Carmen Lícia, sem cuja compreensão
eu não teria cultivado, com tanta intensidade, o vício compulsivo
da leitura.
Paulo Roberto de Almeida
Paris, dezembro de 1994
Sumário disponível em:
http://www.pralmeida.org/htmlLivros/2FramesBooks/10VivLivros1994.html