Uma entrevista e um editorial sobre os Brics e outros problemas da economia internacional
'O Bric é só um exercício intelectual'
ENTREVISTA
Paulo Roberto de Almeida, professor de Economia Política Internacional
do Centro Universitário de Brasília
Lourival Sant'Anna
O Estado de S. Paulo, segunda-feira, 4/12/2006
Esquivo a acordos comerciais e à competição que
eles introduzem, avesso a reformas, e com um ensino público fundamental
'pavoroso', o Brasil seguirá sendo um país de crescimento lento
e de inserção na economia mundial limitada ao fornecimento de
commodities e de fontes renováveis de energia.
Ao contrário de China e Índia. A primeira desempenha o papel que
a Inglaterra teve no século 19, de conter a inflação mundial,
com produto barato. A segunda vai alimentar a nova economia de inteligência
e conhecimento. Assim, não faz sentido agrupar os três, mais a
Rússia, na sigla Bric.
Numa palestra no 6.� Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, na Escola
de Guerra Naval, no mês passado no Rio, o diplomata Paulo Roberto de Almeida,
professor de Economia Política Internacional no Centro Universitário
de Brasília (Ceub), tirou o 'B' do Bric, a sigla que reuniria os quatro
grandes países emergentes. Em entrevista ao Estado, Almeida - que trabalha
ainda no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência
da República, mas falou como pesquisador, explica o porquê disso.
Por que o sr. tirou o 'B' do Bric?
Esse Bric não existe. É uma construção arbitrária,
que não se sustenta em nenhum arranjo político-diplomático,
em nenhuma configuração efetiva internacional. É um exercício
intelectual de um banco de investimentos, o Goldman Sachs, que criou a figura,
sem justificativa, a não ser pelo peso específico de cada um dos
atores. Eles não interagem entre si, não atuam de forma coordenada
para fins desse exercício feito pelo banco, que é a emergência
na economia mundial. Ou seja, eles terão inevitavelmente grande peso,
inclusive o Brasil, que é pouco dinâmico, mas cada um pela própria
conta. Cada um tem uma forma específica de inserção na
economia mundial. Cada um tem interesses nacionais, que não são
necessariamente divergentes, mas não são coincidentes.
Mas o sr. disse também que Índia e China, para efeitos
da economia mundial, já fazem parte do Hemisfério Norte. Por quê?
Porque essa nova geografia comercial que se anuncia como relevante para o Sul
já existe: são os emergentes asiáticos exportando para
o Norte desenvolvido (Estados Unidos e Europa). Para todos os efeitos imagináveis,
o destino econômico da China está intimamente ligado ao dos EUA.
Os americanos dependem da transferência de recursos asiáticos para
continuar sustentando a avidez de consumo. A China depende enormemente da capacidade
comercial deficitária americana, ou seja, que os EUA continuem comprando
dela. Do catálogo do Wal Mart, 80% ou mais é chinês ou pode
ser feito na China. E a China tem papel deflacionista extremamente importante
na economia mundial. Assim como a Inglaterra no século 19 ofereceu mercadorias
baratas, a China exerce hoje esse papel.
E a Índia?
A Índia já é outra coisa. Também é intimamente
integrada aos EUA, pelas redes de engenheiros, pelos executivos que trabalham
na Califórnia ou na Costa Leste, que vão alimentar a nova economia
de inteligência e conhecimento. A China é um laboratório,
um ateliê ou uma fábrica. A Índia é um escritório
de concepção e desenho.
Mas eles não desenham na Índia, eles escrevem o que é desenhado
no Vale do Silício.
Mas o que é desenhado na Califórnia também o é por
engenheiros indianos. Há uma simbiose completa entre concepção
e desenho americano, ou ocidental, e a nova Índia, que está emergindo
paulatinamente e vai ser uma potência em software e em conhecimento também.
Mas isso é uma pequena parte da Índia.
Claro, estou falando da incorporação dessa pequena parte na economia
de mercado.
Mas não atrapalha (a exclusão social)?
Atrapalha internamente.
E externamente?
Não. A Índia vai continuar com milhões de miseráveis
durante muito tempo, assim como a China. O que elas já fizeram em termos
de crescimento econômico é extraordinário. A China tirou
200, 300 milhões de camponeses da miséria abjeta para uma pobreza
aceitável, e os transformou em operários. A Índia também
tirou centenas de milhares de pessoas da miséria. Mas a miséria
indiana ainda é monumental, e vai continuar por décadas. Mas isso
não importa para a economia mundial, e sim os grandes fluxos transnacionais
de comércio, bens, serviços.
Mas, no caso da China, isso não foi à custa de câmbio
artificialmente baixo e salário baixo até para o poder de compra
chinês?
Esses são fatores conjunturais. Acredito que a China tem boa manipulação
de política econômica, inclusive para efeito cambial e comercial.
Tem uma boa manipulação da agenda financeira - reservas, investimentos
externos. Mas tudo isso é superestrutura, é espuma. O mais importante
é o papel da China como produtora de bens correntes no mundo globalizado.
E como ela conseguiu isso?
Ela se inseriu na divisão internacional do trabalho. Quando acabou o
socialismo, o impacto da incorporação dos ex-socialistas na economia
mundial não foi muito grande, porque os países eram pouco competitivos
e inexistentes no plano financeiro. O impacto econômico da inserção
dos socialistas no PIB mundial foi de 10% ou 15%. Agora, o impacto da incorporação
do exército industrial de reserva ex-socialista na divisão mundial
do trabalho deve superar um quarto da mão-de-obra do mundo. É
relevante no plano da alocação de investimentos para fins de produção,
montagem de produtos, enfim, tudo o que requer mão-de-obra. A China,
em algum momento, vai ficar um pouco cara, e aí outros países
serão incorporados. Acredito que, na parte industrial, a China mantenha
a preeminência mundial nas próximas décadas.
Ela está repetindo a história japonesa de copiar
para depois criar. A China vai virar um imenso Japão, neste século
ainda?
É sempre diferente. A China produz mais engenheiros do que qualquer país
do mundo. Quem produz patentes, inovação tecnológica, são
engenheiros. A China vai construir um poder econômico nos seus próprios
termos, que não necessariamente vai se dar no vácuo ou na decadência
ocidental, e sim em extrema osmose com o Ocidente. As teses de hegemonias, declínios
e substituição de impérios não são muito
válidas hoje, porque não se tem mais economia baseada só
em matéria-prima ou força bruta das máquinas. Como a economia
é do conhecimento, tudo tende a se disseminar. Quem está perdendo
são os operários americanos e ocidentais. Mas as empresas ocidentais
vão continuar fortes, inclusive usando mão-de-obra chinesa.
E a inserção brasileira?
O Brasil vai continuar sendo um grande fornecedor de commodities, o que é
bom; um grande fornecedor de energias renováveis, e isso é excelente.
Mas o Brasil é um país de lento crescimento. É um país
moderno. Mas todos os problemas são made in Brazil. Não
têm nada a ver com a globalização. São deficiências
próprias: previdenciárias, educacionais, organizacionais, corrupção,
gasto público... A globalização até ajuda. Mas,
como o Brasil é um pouco avestruz, introvertido, recusa a competição,
recusa acordo comercial, nossa indução à reforma vai ser
muito mais lenta. Tanto Mercosul como Alca ou qualquer acordo hemisférico
são muito menos importantes para o Brasil como mercado do que como estabilização
econômica e indução à reforma, à competição
e à inovação. Como continuamos introvertidos, o processo
de reforma será lento. Não é que não haja consenso
entre a elite quanto a agenda de reformas. Não há consciência
de que a reforma é necessária, nos planos tributário, fiscal
e educacional.
Com esse ensino fundamental, o Brasil pode se inserir na economia
mundial?
Nós achamos que nossos problemas econômicos são graves,
por causa da falta de uma agenda de reformas. No plano educacional, é
pior do que possamos imaginar. A situação é muito pior
do que as estatísticas revelam. Não é só do ponto
de vista organizacional e de investimentos, mas no plano mental, de preparação
de professores. Temos enormes problemas pela frente, que não serão
resolvidos facilmente. Sou extremamente pessimista quanto às possibilidades
do Brasil de concorrer numa economia globalizada, na medida em que a situação
educacional é pavorosa. Nós não estamos preparados para
capacitar a mão-de-obra, no plano puramente industrial, nem para enfrentar
as exigências da modernidade, da inovação tecnológica.
No plano científico, até que temos capacidade. Nossos cientistas
são tão bons ou até melhores que os estrangeiros. Mas a
vinculação do sistema científico com o tecnológico
é precária. Não há sistema inovador autogerado.
É muito induzido pelo Estado. E o Estado deixou de ser uma solução
e passou a ser um problema.
Quanto ao 'R' do Bric, a Rússia tem problemas institucionais?
Exato. A Rússia é relevante pelo poderio atômico. Não
foi incorporada ao G-7 por ser uma economia de mercado, mas porque poderia causar
problemas. Ela não faz parte do G-7 econômico, mas do G-8 político,
que adota resoluções um pouco inócuas. Como é importante
no equilíbrio geopolítico asiático e europeu e no plano
energético mundial, claro que ela fará parte daquele esquema de
coordenação. Mas ela precisa fazer reformas internas para ser
incorporada na OMC e na OCDE.
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Editorial, O Estado de S. Paulo, terça-feira, 5/12/2006
Atraso 'made in Brazil'
Contrastando com a apagada e vil tristeza do noticiário político
pós-eleitoral - dominado pelo ramerrame dos conchavos mofinos sobre o
tal governo de coalizão e das brigas de praxe pelo controle das duas
casas do Congresso, enquanto o presidente Lula confessa que não sabe
como "destravar" o crescimento -, uma entrevista publicada ontem neste
jornal traz para o primeiro plano os problemas que tirariam o sono das elites
políticas brasileiras, não fossem elas o que são.
O entrevistado é o diplomata Paulo Roberto de Almeida, professor de Economia
Política Internacional do Centro Universitário de Brasília
(Ceub) e membro do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência
da República. Falando a título pessoal, com cortante clareza e
sem receio de chamar as coisas pelos nomes, ele traça um quadro sombrio
das possibilidades do País na ordem mundial, em razão das realidades
made in Brazil, como diz, para que não se culpe por elas a globalização.
Mesmo quando se refere a problemas que já freqüentam o limitado
debate público sobre os verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento
nacional - no sentido pleno do termo -, o estudioso vai mais longe do que a
maioria dos seus pares na identificação de suas conexões
e conseqüências. Retomando o enfoque de sua palestra no recente Encontro
Nacional de Estudos Estratégicos, no Rio, ele dissocia o Brasil da China
e da Índia, os quais, além da Rússia, formariam o que ficou
moda chamar Bric.
O acrônimo designa o bloco dos principais países emergentes. Mas,
para Almeida, isso não existe. "Eles não interagem, não
atuam de forma coordenada. Cada um tem uma forma específica de inserção
na economia mundial", esclarece. E, pelo que caracteriza essa forma no
caso do Brasil, o professor tirou o B do Bric. Numa visão superficial,
o País se distingue da China e da Índia por ser o único
dos três que exporta commodities em larga escala, "o que é
bom", e como grande fornecedor de energias renováveis, "o que
é excelente".
Numa visão aprofundada, porém, o que em última análise
afasta o Brasil dessas duas nações, pelo critério crucial
do modo de participação na economia globalizada, é a dificuldade
aparentemente insuperável de o País viver no tempo presente. A
China se inseriu na divisão internacional do trabalho, descartando com
uma velocidade espantosa o passado autárquico, e a Índia alimenta
a nova economia do conhecimento - a primeira é "um laboratório,
um ateliê ou uma fábrica", a segunda, "um escritório
de concepção e desenho", sintetiza o pesquisador.
Já o Brasil "é um pouco avestruz, introvertido, recusa a
competição, recusa acordo comercial". O resultado inexorável
é o crescimento lento. O pior é que não se divisa a proverbial
luz no fim do túnel. Exatamente devido ao predomínio dessa arcaica
mentalidade de avestruz, o problema nem sequer é a falta de consenso
entre a elite sobre a agenda de reformas modernizadoras. Na lúcida avaliação
do diplomata, "não há consciência de que a reforma
é necessária" - sobretudo na educação.
Já era tempo de alguém familiarizado com o tema dizer em público
o que Almeida diz da educação nacional, sem medir palavras. "É
pior do que possamos imaginar, muito pior do que as estatísticas revelam.
Não é só do ponto de vista organizacional e de investimentos,
mas no plano mental, de preparação de professores", aponta,
com precisão cirúrgica. "A situação educacional
é pavorosa." Não surpreende, portanto, o despreparo brasileiro,
seja para capacitar a mão-de-obra, no plano puramente industrial, seja
para enfrentar as exigências da modernidade.
Esse segundo aspecto é o mais assustador. Fala-se muito da má
qualidade do ensino, mas não se fala tudo que se deveria. Sabe-se que
cada nível do sistema exporta para o seguinte as suas deficiências.
Não se ressalta, porém, que, acumuladas, elas limitam dramaticamente
a capacidade de adquirir novos conhecimentos da minoria que já não
desistiu no começo do percurso. A deseducação, em suma,
contamina por inteiro a esfera produtiva e permeia o cotidiano dos brasileiros.
Por isso, para o diplomata Paulo Roberto de Almeida, o Brasil continuará
tendo desenvolvimento lento e inserção na economia mundial limitada
ao fornecimento de commodities e fontes renováveis de energia.