Por que sou e não sou diplomata ?
Paulo Roberto de Almeida
Se não sou exatamente diplomata, ou melhor, se sou diplomata, sendo
também um tanto anti-diplomata, como eu poderia, então, ser
classificado?
Difícil encontrar uma designação única, ou unívoca,
que sintetize num conceito singular minhas características múltiplas.
Talvez eu devesse tentar uma definição de caráter múltiplo,
algo mais ou menos assim: sou marxista, capitalista, não-religioso
(ou talvez mesmo irreligioso), racionalista, anarquista político, social-democrata
econômico e liberal dissidente em matérias de cultura e vida
social, talvez mesmo um tanto iconoclasta e irreverente.
Vamos por partes. Marxista não é minha condição
primeira, obviamente, mas é que me definiu do ponto de vista intelectual
e enquanto formação acadêmica, aliás desde antes
de ingressar na academia. Sei que o conceito, o adjetivo mais bem, se presta
a muitas interpretações, a maior parte das vezes equivocadas
em relação ao verdadeiro significado teórico do epíteto
“marxista”. Vários de meus amigos “neoliberais”
ou simplesmente “desideologizados” receberão tal tipo de
designação ou definição como uma demonstração
de surpreendente ingenuidade de minha parte, ou mesmo como a preservação
irracional de velhas etiquetas ideológicas ou de um esquerdismo demodé
e vagamente inconseqüente. Mas o marxismo me parece ser um instrumento
ainda válido como método geral de análise, sem que eu
subscreva a todas as conseqüências práticas ou mesmo implicações
filosóficas do pensamento de Marx e sobretudo a suas derivações
econômicas. É nesse sentido que me defino como um marxista capitalista,
subscrevendo inteiramente a uma análise histórica do capitalismo,
que tem muito a ver com a dinâmica do capital, em sua dimensão
mais braudeliana, talvez, do que propriamente marxista.
Assim como o “marxista-existencialista” Jean-Paul Sartre achava
que o marxismo constituía o “horizonte insuperável de
nossa época”, eu também acho, em bom marxista, que o capitalismo
se apresenta como uma espécie de horizonte insuperável de nossa
época, pelo menos em suas manifestações “naturais”
de funcionamento de mercados e em relação às suas tendências
à acumulação ampliada de capital.
Sou marxista, mas não religioso, entendida a boutade, obviamente, neste
sentido especificamente marxista ou de qualificação filosófica,
terreno no qual muitos dos marxistas teóricos ou práticos, mesmo
contemporâneos, desenvolvem uma espécie de fervor religioso que
os faz aderir a todos os instrumentos do culto sem rejeitar absolutamente
nada, atitude da qual decorre um certo dogmatismo e uma espécie de
cegueira mental que em muito prejudica uma análise marxista desprovida
de preconceitos políticos. Sou irreverente e iconoclasta também
em relação ao marxismo, por isso me afirmo como marxista não-religioso,
o que vale dizer, sem dogmas e sem prejuicios, no sentido espanhol de idéia
pré-concebida.
Minha irreligiosidade também se estende, cabe esclarecer desde já
e de modo totalmente transparente, ao terreno propriamente religioso, onde
não cultivo nenhum ateísmo ou deísmo particular. Não
se trata de materialismo ou de anti-religiosidade, uma vez que não
ostento nenhuma animosidade particular contra as religiões, ainda que
eu tenha críticas pontuais contra ritos religiosos em geral e uma crítica
geral contra uma religião em particular. As liturgias e práticas
correntes dos cultos religiosos me parecem um tanto ultrapassadas, incompatíveis
com a vida moderna, ainda que compreensíveis no terreno da tradição
e da identificação comunitária. Preconceitos alimentares
e normas de abstinência, aceitáveis num contexto pré-científico
ou de precárias condições sanitárias e higiênicas,
me parecem ridículos hoje em dia, ainda que eu respeite o direito dos
crentes de praticarem tais “crendices”. O Brasil, país
de muitas crenças e muita “flexibilidade” religiosa, convive
com uma certa facilidade com essas obrigações rituais e normas
comportamentais, nem todas seguidas “religiosamente”. Muito judeu,
por exemplo, não hesita, numa churrascaria, a “traçar”
uma boa linguicinha de porco, da mesma forma como nossos muçulmanos
são muito pouco abstêmios, sobretudo na perspectiva da cervejinha
da sexta-feira à noite. Isto é saudável e perfeitamente
normal.
Mas voltando à minha irreligiosidade, ela não é dogmática,
e aceito participar de cultos e educar familiares na tradição
cristã, que faz parte, finalmente, de uma certa tradição
cultural. O mais importante, porém, são os valores, e desse
ponto de vista, creio que as religiões cristã, judaica e budista
ostentam um conjunto de valores positivos para o desenvolvimento moral da
humanidade, para uma saudável ética respeitadora da vida e de
certos princípios de tolerância e solidariedade, que foram (e
são) extremamente positivos num mundo muitas vezes entregue a ditadores
sanguinários que professam total desprezo pela vida humana e pelos
valores da justiça e da verdade (sim, acredito que possa e deva haver
alguma verdade, válida em várias épocas e para todos
os homens, e desse ponto de vista não sou nenhum relativista histórico
ou cultural).
Não sendo religioso, sou obviamente racionalista, mas não no
sentido filosófico, uma vez que não pretendo defender nenhuma
tese coerente sobre minha irreligiosidade e minha preferência pela cientificidade,
ou melhor, pelo argumento socrático em busca da verdade. Há
certas coisas, obviamente, que não podemos saber, ainda, mas eu não
faço disso um motivo para elevações espirituais, ao contrário.
Acredito que devemos continuar na busca de respostas racionais aos problemas
da vida e da existência física. Não creio que, sendo racionalista,
tenha qualquer obrigação de provar nada racionalmente, nem contra
ou favor da existência de alguma entidade superior, que normalmente
se chama Deus. Não é que esta hipótese não se
coloca para mim, como disse um famoso filósofo, ou pensador, da época
da Revolução francesa. Apenas que o problema religioso não
se coloca para mim como um “problema”, trata-se, se tanto, de
uma conveniência social que aceito, mas não discuto. No mais,
procuro guiar minhas reflexões do modo mais racional possível,
isto é, buscando razões, inquirindo, questionando, raciocinando,
formulando teses ou hipóteses sobre como poderia ser isto ou aquilo.
Verdades absolutas sempre são incômodas para um racionalista
como eu, e geralmente me atenho aos problemas sociais, políticos e
econômicos que compõem minha agenda de trabalho “normal”.
Sou também anarquista, como disse, mas de um anarquismo muito particular,
sem qualquer fanatismo ou devoção especial, como seria de se
esperar. Meu anarquismo está mais na recusa de autoridades, qualquer
autoridade temporal, que não seja a da razão argumentada, isto
é, a do debate racional em torno das “boas” respostas (ainda
que isso possa parecer ilusório) a um determinado problema prático
da humanidade. Meu anarco-marxismo se prende portanto ao meu caráter
iconoclástico ou irreverente que exibo em relação às
chamadas idées reçues, isto é, verdades presumidas, de
fato “falsas verdades”. Essas received ideas não costumam
resistir ao escrutínio da crítica severa, mas apenas os anarquistas
intelectuais são propensos a contestar esses argumentos do senso comum
tidos como verdadeiros, daí meu anarquismo conceitual, ou “idealista”.
De certa forma, também sou anarquista em política, o que é
uma decorrência lógica do anarquismo intelectual, uma vez que
raramente aceito imposições autoritárias vindas de quem
quer que seja. Isso pode ser difícil em instituições
burocratizadas, caracterizadas, como aquela na qual trabalho, pela hierarquia
e pela disciplina. Mas trata-se de um fato da vida, que deve ser aceito nos
limites estritos do trabalho profissional, não transplantado para o
terreno dos argumentos lógicos ou de debate de idéias. Com efeito,
nunca deixei que a razão burocrática da hierarquia tolhesse
de alguma forma o pleno desenvolvimento de meu trabalho especializado na burocracia
diplomática, ainda que isto por vezes conforme alguma dificuldade ou
outra no relacionamento profissional. Argumentos devem ser aceitos em sua
consistência intrínseca e em sua validade própria, não
em função de quem os expede ou formula. Nisto sou um anarquista
radical.
Do ponto de vista econômico, entretanto, abandonei o antigo socialismo
ingênuo do tipo estatizante, que mantive até o início
dos vinte anos (e até conhecer os socialismos “reais”),
em favor de soluções reformistas dentro do capitalismo, concebido
este não como um sistema racionalmente construído pelos homens,
mas derivado de um processo histórico impessoal e incontrolável
por qualquer força da natureza (ainda que ele possa ser parcialmente
“moldável” pela ação social). É o
que eu chamo de social-democracia pragmática, ou seja, não ideológica,
mas guiada tão simplesmente pela busca do maior bem-estar para todos
os membros da comunidade, a começar pelos mais humildes.
Ora, sendo um “marxista-capitalista”, por que não aderir
simplesmente a uma modalidade liberal de economia, a mais conforme os “instintos
naturais” do capitalismo? Talvez porque acredite, como muitos outros
economistas, que a “ciência lúgubre” não seja
verdadeiramente uma ciência, mas um conjunto de técnicas e instrumentos
relativos a uma determinada época e a certas condições
sociais, sendo suscetível, portanto, de receber interpretações
diversas e de exercer influência sobre os sistemas sociais num sentido
mais “liberal” ou mais “guiado” pela ação
humana. Ainda que eu não acredite que decisões humanas (sociais,
se quisermos) sejam isentas de julgamentos de valor ou de preferências
“econômicas”, tampouco acredito que os mercados atuem de
modo cego o tempo todo, uma vez que submetidos à ação
desses mesmos grupos e indivíduos mais poderosos, o que é feito
quotidianamente aliás, de forma consciente ou inconsciente. Daí
minha preferência por um tipo de política econômica levemente
social-democrata, que busca, justamente, “adaptar” os mercados
a certas “necessidades” humanas.
Tenho plena consciência que essa busca se solda, em grande parte das
vezes, por desastres econômicos, já que dirigentes ou burocracias
mal instruídos ou mal informados terminam por deformar o jogo econômico,
introduzindo distorções que provocam um prejuízo maior
ao que intentavam prevenir, geralmente em detrimento dos grupos sociais mais
desprovidos de influência no jogo político. Ainda assim, sendo
realista, não acredito que qualquer governo, independentemente do credo
político ou preferências ideológicas dos dirigentes no
poder, pratique de verdade o liberalismo econômico e todos eles, mesmo
os hayeckianos mais afirmados, tenderão a agir sobre o mecanismo econômico
da sociedade, num sentido mais liberal ou mais intervencionista. Ora, isso
retira ipso facto o caráter “liberal” da política
econômica, uma vez que nenhum governo moderno pode hoje permitir-se
praticar o laissez-faire puro. Sendo assim, melhor ser um social-democrata
consciente do que um liberal frustrado.
Por fim, em matérias políticas e culturais, não tenho
restrições em afirmar meu liberalismo radical, já que
nesses campos a diversidade deve ser de rigor e a tolerância mútua
uma obrigação. Esse tipo de liberalismo cultural não
deve contudo ser confundido com o liberalismo clássico, ainda que eu
tampouco tenho reservas quanto a ele, mas é que o liberalismo clássico
afirma a autonomia do indivíduo “contra” o Estado, e eu
entendo que esse tipo de autonomia tornou-se algo ilusória nas condições
concretas do Estado moderno. A regulação social é um
fato, contra a qual não há liberalismo que resista. Mas, em
matéria cultural, sou pelo “florescimento das cem flores”
e pela maior liberdade possível.
Nada do que eu disse, ou revelei aqui, afeta minimamente o meu “ser”
diplomata, ainda que possa afetar o meu modo de “fazer” diplomacia,
nas condições concretas do Brasil, ainda tão bacharelesco
e dotado de uma cultura cívica tão pouco desenvolvida. Não
que eu faça diplomacia como Monsieur Jourdan fazia prosa, ao contrário:
meu exercício de combinação de obrigações
profissionais, de inclinações acadêmicas e de orientações
políticas e econômicas é feito da forma mais consciente
possível, muitas vezes com separação estrita dos “atores”
que atuam num terreno ou noutro. Essa distinção não é
fácil de ser feita, uma vez que muitas vezes somos levados, em face
de declarações pouco esclarecidas de determinadas personagens
políticas, a tentar “corrigir” ou comentar esses equívocos
que se lêem na imprensa. Um exercício de auto-contenção
é necessário.
Como resolver esse dilema moral entre o servidor público disciplinado
- pois que o diplomata não pode ser senão um “servo”
da máquina pública - e o “escrevinhador” político
que tenho a pretensão (talvez indevida) de ser? Como equacionar moderação
burocrática e conformidade aos preceitos de reserva do agente público
com a vocação de debatedor social que emerge de uma orientação
intelectual propensa ao diálogo - à polêmica, mesmo -
e à participação na ação política?
Não há uma resposta fácil e, de fato, não há
nenhuma receita para a combinação adequada desses elementos
por vezes díspares e contraditórios de conduta social. Daí
minha definição preferencial por uma situação
de “ambigüidade construtiva”, como se diz da linguagem de
certos acordos ou tratados internacionais: sou um diplomata um tanto anti-diplomata,
ou talvez eu seja um “escrevinhador” político que exerce
a diplomacia nos desvãos de uma atividade que não se esgota
nas oito horas cotidianas devotadas à burocracia governamental, mas
que se estende por horas a fio, noite adentro, no diálogo solitário
com os livros e o computador.
Como diria Gilberto Freyre a propósito de sua condição
de sociólogo, não sou, nem pretendo ser, um diplomata puro,
mas aspiro a bem exercer minha “profissão” de diplomata,
inclusive por uma questão de responsabilidade social e de consciência
pessoal. No resto do tempo, contudo, continuarei sendo aquilo que sempre fui,
desde minha primeira adolescência, e exercendo meus dotes nos terrenos
de minhas poucas vantagens comparativas: sou um “escrevinhador”
político, anarco-marxista, capitalista, irreligioso, racionalista,
social-democrata e liberal.
Por muito menos Marx lançou contra Proudhon, em sua célebre
diatribe Miséria da Filosofia, uma frase cruel: “C'est la contradiction
fait homme!” Ao que eu responderia: Soit! (Sim, eu tinha esquecido de
mencionar minha iconoclastia também em relação ao marxismo
nesta síntese final.) Voilà: creio que minha apresentação
está agora completa.