Uma trajetória de vida

Memorial de Ivo de Almeida Prado Xavier

Caros colegas, ou como seria mais apropriado nos dias de hoje “camaradas”,
Segue anexo o meu currículo (do tipo milico, é claro). A foto está sem retoques, o cabelo sem tintura e o bigode deixarei para raspar mais tarde porque está denunciando a minha idade.
Objetivando repassar, rapidamente, esses 40 anos que nos separaram, farei um breve histórico do que aconteceu comigo nesse período.
Após terminar o GV (sigla hoje pirateada por outra instituição), prestei concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR). Como todos sabem, desde que me conheço tenho paixão por aviação. No entanto, não consegui passar no exame de seleção. Em conseqüência, o meu pai me colocou, com meu irmão que também não gostava de estudar, no semi-internato do Liceu Coração de Jesus (lá no bairro Campos Elíseos). Posso dizer que foi a minha preparação para o regime militar. Não foi fácil agüentar os padres salesianos. Era uma disciplina draconiana, com muita orações, missas e canções que acabaram me desobrigando a assistir cultos religiosos pelo resto da minha vida. Era tudo muito diferente da disciplina democrática e de diálogo do GV.
Logo percebi que a única saída seria passar no concurso para a Aeronáutica. Conseqüentemente, estudei muito naquele ano. Assim como o John, nunca gostei de gramática, no entanto, decorei o livro de gramática do Napoleão Mendes de Almeida (como era bom o ensino da língua daquele tempo). De matemática, eu sabia tudo. Consegui, com isso, ser classificado entre os dez primeiros na seleção para a EPCAR. Assim, fui para Barbacena iniciar a minha carreira. Essa fase foi muito boa porque, assim como ocorreu no GV, a Aeronáutica estava modernizando o ensino e, em 1967, já se ensinava Teoria dos Conjuntos da disciplina Matemática, Ciências Políticas, Artes Industriais, comerciais, etc.. Foram sete aulas por dia, cinco dias da semana, durante três anos. Nesse período, mais uma vez fiz o curso de datilografia, matéria que minhas filhas jamais ouviram falar. Acho que as crianças de hoje já nascem digitando. Fico intrigado ao vê-las digitar sem a disciplina do “asdfg”, posição dos dedos no teclado e postura, etc.... Outro dia recebi um e-mail de meu sobrinho e tive que me esforçar para entender o que ele queria dizer. Mas, atualmente, as coisas funcionam desse jeito e não posso fazer como disse um filósofo cancioneiro: “parem o mundo que quero descer”. O melhor é aproveitar os companheiros dessa viagem e colher os frutos da jornada.
Terminado a EPCAR fui para o Centro de Instrução Tática e Recompletamento de Equipagens em Natal. Foi um ano excepcional. Muito vôo, muita praia, moto e as demais coisas decorrentes desse ambiente. Nessa ocasião, conheci Maria, esposa do meu último casamento. Digo último casamento porque é démodé se dizer, hoje em dia, que está há 27 anos com a mesma mulher. Sete anos de namoro, numa atitude precipitada, acabei casando com a Maria, companheira de tênis e da vida. Depois de assinar os papéis na igreja, nunca mais a minha sogra me tratou tão bem como antanho (se ela ouvir isso ela me bate).
Mas continuando a minha formação, após um ano de Natal fui para o Rio de Janeiro e depois para a Academia da Força Aérea em Pirassununga. Em 1973 me formei, sendo declarado Aspirante e recebendo o “espadão” na presença do então presidente da República Ernesto Geisel.
Como Aspirante voltei para Natal para mais um ano de muito vôo. Aos terminar esse ano dei uma de Che Guevara e voltei para o Rio de Janeiro, via Belo Horizonte, de motocicleta. A moto merece um capítulo à parte, que ficará para outra ocasião, de tantos tombos que levei.
Os anos do Rio de Janeiro foram de muito vôo, muito risco e acidentes. Tive que me ejetar do avião que pilotava, caindo em mar aberto. Atropelei uma fiação elétrica que estava no meu caminho, deixando a cidade Santos Dumont, MG, sem energia por várias horas (as redes elétricas deviam ser mais altas). Fui alvejado com uma bomba num treinamento em Resende. Alguns companheiros do GV pensaram até que eu tinha morrido e já tinham me colocado na relação dos falecidos, no entanto, graças às rezas da minha mãe e ao crédito que ainda tinha da época de Liceu Coração de Jesus, sempre sobrevivi.
Ainda no Rio de Janeiro, para não abusar mais do meu santo, fui transferido para um Esquadrão menos perigoso e muito mais confortável. Passei a voar o C-130 Hércules, avião de transporte.
Nessa época nasceu a minha primeira filha, Beatriz, hoje estudante de Direto no quarto ano da Mackenzie. Logo em seguida nasceu Cristina atualmente quarto anista de Publicidade e Propaganda da PUC. A propósito, conclui que essa Faculdade aumenta sempre as mensalidades que pago do curso da minha filha para vingar a invasão sofrida pelo Coronel Erasmo Dias na época da repreensão. Hoje, se o Erasmo Dias invadisse novamente a PUC teria muito mais dificuldade decorrente da fumaça (de cheiro característico) que exala pelos corredores. E lembrar que na nossa época fumar no banheiro era uma transgressão radical.
O C-130 me permitiu conhecer bem o Brasil. Vocês conhecem uma cidade tão longe que tem o nome sugestivo de Cucui? E Surucucu? Pois é, eu já posei lá. Viajei muito até para o exterior e fui até à Líbia.
Foram quatro anos maravilhosos. Após esse tempo fui transferido para Belém. Conheci melhor ainda o Brasil. Vocês conhecem a aldeia Cuxaré cujo tuxaua é meu amigo Alveri? Pois, é estive lá com a Maria.
De Belém fui para Brasília. Como nem tudo pode ser perfeito, acabei sendo o piloto do Collor (shit...). Os vôos eram bons, no entanto, não posso dizer o mesmo da companhia.
Após um curso de um ano no Rio de Janeiro fui para São Paulo (Cumbica).
De São Paulo fui para Londres, onde morei por dois anos. O Reino Unido é o melhor lugar do mundo depois do Brasil.
De Londres voltei para o Rio de Janeiro para outro curso de um ano e, em seguida voltei para São Paulo, onde fiquei cinco anos no Campo de Marte, consertando aviões que os outros quebravam (vingança da minha época de tenente quando quebrei vários aviões). Apesar de eu ser o único paulista da minha família, todos gostaram de São Paulo, tanto que as minhas filhas continuam lá, usando, hoje, as expressões “ô meu”, “um chopps” (dois pastel elas não falam), etc...
Já estava me preparando para a passar para a reserva quando, num lapso do Alto Comando da Aeronáutica, me promoveram a Brigadeiro-do-Ar. Já estava com o meu apartamento montado na Rua Caconde, perto da quadra de tênis do Circulo Militar e tivemos que revisar os nossos planos. Dessa vez, pela primeira vez, a família se separou, ficando as meninas em SP e eu e a Maria no Rio de Janeiro.
Atualmente estou na Escola Superior de Guerra como Assistente da Aeronáutica. O local é lindo. Fica ao lado do Pão de Açúcar, junto da praia onde Estácio de Sá, em 1565, fundou o Rio de Janeiro. Se passarem por aqui, não deixem de fazer contato. O Paulo Roberto eventualmente passa por aqui mais me informa pelo e-mail do aeroporto de Brasília. Como não tenho e-mail “on line” acabo sabendo quando ele já foi embora.
Moro na Ilha do Governador numa vila militar, ao lado da quadra de tênis.
Eventualmente vou para SP ver minhas filhas e o meu pai que, hoje viúvo, mora na mesma casa onde fui criado no Alto da Lapa (em frente à antiga pista de aeromodelismo onde pilotei pela primeira vez), juntamente com minha irmã solteirona.
Os meus irmãos também estão em São Paulo. Quando a Força Aérea me “varrer” de seu quadro de oficiais da ativa, retornarei para SP. Enquanto isso não acontece, vou aproveitando a profissão que escolhi por vocação. Na semana que vem vou para a Antártida. Quem mais poderia me oferecer esse prazer senão a Força Aérea.
É isso aí, não dá para fazer uma canção do Chico Buarque com a minha história, mas, esses 40 anos foram bem agitados e ainda há muita coisa para acontecer, principalmente rever os velhos colegas. Pretendo viver até os 120 anos e ser morto por um marido enciumado.
Estou curioso para conhece o diário da Cláudia.
Revelei a minha vida sem beber um copo de chope. Imaginem se estivéssemos num boteco? Quem será o próximo?
Lembrem-se que precisamos cultivar os velhos amigos porque não temos mais tempo para conquistar novos velhos amigos.
Beijos a todos.
Ivo

Veja também a "reportagem": ESG na Amazônia (uma lição de vida)