"In praise of" Vocacional
Memorial de Marlise Bridi
1) Texto de 14 de setembro de 2004:
Confesso que estou muito emocionada com o que está ressurgindo entre
nós. Está claro que eu sabia da importância do que havia
sido a experiência do Vocacional para cada um, mas há um clima
ainda mais forte do que eu poderia imaginar... Fiquei muito tempo olhando para
as fotos dos nossos tempos de GV e é como se estivesse assistindo a um
filme do tipo Cinema Paradiso, daqueles que a gente, até contra a vontade,
se acaba de chorar!
Também confesso que não reconheço todos e nem mesmo sei
qual daquelas carinhas é a minha (desconfio, mas não tenho certeza).
Penso que isso importa pouco, porque o que ficou marcado ém nós
está para além, muito para além de nossa feições
daquele tempo ou dos dias atuais.
Há alguns anos tive de escrever um Memorial para a minha efetivação
na USP. Escolhi o tema Os Mestres e os Livros. Penso que talvez interesse a
vocês o trecho em que falei do GV.
Então lá vai.
2) Memorial de ???
Primeiras Escolas
Estudei na Escola Pública quando ela era muito respeitável.
Apesar das críticas que já sofria, e das acertadas previsões
de decadência e desinteresse dos poderes públicos por ela, constituía-se
ainda na melhor opção para a formação dos filhos
da classe média. Cumpri o Primário num dos mais afamados Colégios
de Estado da cidade (o Instituto de Educação Prof. Alberto Conte)
e nele provavelmente teria continuado a estudar, se não fosse a feliz
oportunidade de ingressar no Ginásio Vocacional (Ginásio Vocacional
Oswaldo Aranha, Brooklin - São Paulo).
A experiência dos Ginásios Vocacionais foi um marco na educação
de São Paulo e, do meu ponto de vista, enquanto diretamente beneficiada
como aluna, um marco pessoal. A escola tornou-se para nós, seus alunos,
o centro de nossas vidas, o lugar em torno do qual tudo girava e dentro do qual
tínhamos toda a sorte de experiências: as mais vivazes, as mais
amplas e abrangentes. Pelo desenho do ensino vocacional, éramos integralmente
estimulados a vivências partilhadas e socializadas e, já
no início dos anos 60, a construir cada parcela do conhecimento muito
antes de se falar em Construtivismo.
Particularmente o estímulo às artes, onde se conjugavam
conhecimentos teóricos e práticos, dizia-me respeito. Mas, para
além desse aspecto que cada um de nós reconhecia como sua escolha
individual e, por isso, diferenciada, corria, sólida, a nossa formação
crítica, de caráter político, que, se passava despercebida
em todo o seu potencial para nossas tão jovens consciências, em
absoluto foi ignorada pelos donos do poder que, na década seguinte, desfigurariam
o sistema vocacional até seu total desaparecimento.
Em cada um dos que participaram daquela pequena utopia posta em realidade, resta
a memória que se faz História: existiram os mestres Maria Nilde
Mascelani, Joel Martins, Olga Bechara, Lucila Bechara, Fernanda Milani, Itajaí
Martins e outros tantos.
Entre eles, a professora de Português: Auri Daubian Ferreira. Na biblioteca
de classe, ou melhor, na sala-ambiente de Português (no Ginásio
Vocacional, havia salas-ambiente por disciplinas - numa antecipação
conceitual de décadas), a professora deixou-nos escolher o título
que desejávamos ler. Dentre as obras que não havia lido, escolhi
o meu indefectível José de Alencar e, malfadadamente, dele escolhi
as longas Minas de Prata. Passei o meu décimo-primeiro ano de vida tentando
cumprir o compromisso sem dar conta dele. Minha querida mestra de Português
não viveu o bastante para saber que, de todos os prazeres que a vida
me reservou, o maior seria o da leitura.